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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Hipocrisia para dar e vender

Por Ivan Berger em 17/11/2009 na edição 564

Preconceito, passionalismo, teorias conspiratórias: velhos temas que sempre rendem um bom caldo na mídia, e que estiveram no bojo das discussões que vararam a última semana, a partir dos casos envolvendo a estudante Geisy Arruda, o apitador Carlos Eugenio Simon, e o apagão que assustou o país na noite de terça para quarta-feira (10-11/11). Diatribes como de hábito permeadas pelo oportunismo e falso moralismo que muitas vezes se imiscui no discurso politicamente correto, em nome do qual juízos apressados e distorcidos assumem ares de verdades absolutas.

Vítima ou provocadora? Vilão ou bode-expiatório? Acidente ou vulnerabilidade operacional? Não houve quem não questionasse e especulasse a respeito dos referidos episódios, como não poderia deixar de ser, exaustivamente explorados pela mídia em geral, com a forte adesão dos diversos canais da internet, que aos poucos vai roubando da imprensa o papel de caixa de ressonância da sociedade. E por saber que assim seria, quem garante que a garota do vestidinho rosa-choque não premeditou tudo, atrás de seus quinze minutos de fama? No que, por sinal, não poderia ter sido melhor sucedido, com direito a todo tipo de exposição, entre os quais, é claro, o infalível convite para posar nua para revistas especializadas.

Armação descarada

Ora, se as coisas postas dessa maneira não servem para desarmar um pouco os espíritos em relação aos acontecimentos que tanto chocaram a opinião pública, que pelo menos se coloque os fatos sob o devido prisma, levando em conta o chamado conjunto da obra, ao invés da fragmentação que ignora que o aparentemente injustificável de repente se explica da maneira mais simples possível. A começar por uma das leis básicas da natureza, segundo a qual toda ação é procedida por uma reação imediata e inversamente proporcional à força desencadeada, e cuja incidência nas relações humanas qualquer um pode comprovar.

Trocando em miúdos: se o objetivo da garota era o de chamar a atenção, provocar, vestindo um traje totalmente inadequado para o local, algum tipo de reação era inevitável. E se calhou de ser hostil, tudo indica que foi porque a moçoila forçou a barra, o que somado ao fato de não ser exatamente uma beldade, acabou sendo encarado como uma afronta pela horda ensandecida.

Há mulheres que acham que liberdade é poder dançar na boca da garrafa, aprontar e fazer o que os homens fazem, mas não é bem por aí. Isso tem outro nome. O caminho certo para a igualdade é se preparar, trabalhar, conquistar seu espaço por capacidade e não com apelação e baixaria. Daí não se poder misturar alhos com bugalhos em função de um caso isolado.

Tudo bem, nada justifica a truculência gratuita, mas, convenções à parte, o fato é que o conjunto da obra abrange tudo isso – do machismo, chauvinismo, sexismo ou sei lá mais o que possa ter atiçado os ânimos, ao falso moralismo e hipocrisia para dar e vender destilados por uma mídia que, no fundo, adora essas situações.

Se não há desculpa ou justificativa para os incidentes que mancharam o nome da Uniban, há que considerar que aberrações desse tipo ocorrem pela conjunção de vários fatores. Isolar um provável motivo – no caso, os baixos instintos que costumam aflorar nas manifestações coletivas –, e, pior ainda, basear-se nisso para ruminar discussões fora do lugar, como a antiga cantilena da discriminação e violência contra as mulheres, é jogar para a torcida e passar ao largo de explicações até mais simples, como a própria propensão das massas de reagir como manada.

Nada mais ridículo, portanto, do que atribuir ao incidente uma gravidade forjada pela solidariedade pontual que os moralistas de plantão costumam esgrimir nessas horas, como se a baixaria encenada nos corredores da Uniban no fundo não tivesse passado de uma brincadeira de mau gosto. Uma molecagem que extrapolou as medidas por conta do comportamento leviano de uma jovem com visíveis distúrbios psicológicos, de carência ou vontade de aparecer, e que de certa forma faz lembrar a farsa da advogada Paula de Oliveira no começo do ano, na Áustria. Também naquela oportunidade, o mundo quase veio abaixo contra o que parecia uma brutal agressão a uma jovem indefesa, e no fim das contas tudo não passou de uma descarada armação, deixando os difamadores de primeira hora com a cara no chão.

Ceticismo saudável

Precipitação, açodamento, irresponsabilidade que se condenam a mídia a permanente suspeição, até mesmo quando bem intencionada, como na solidariedade emprestada a garota do vestido rosa-choque, chegam a causar asco quando trata de destruir reputações por motivos escusos ou circunstanciais. Caso da volúpia com que aderiu a defenestração do árbitro Carlos Eugênio Simon, por conta do reconhecidamente mal-anulado gol de palmeirense Obina contra o Fluminense, a partir da saraivada de acusações feitas pelo presidente do clube paulista, o economista Luiz Gonzaga Beluzzo. Reclamações que não só excederam todos os limites do razoável, como adentraram no pantanoso terreno das acusações e ilações sem prova, com o que a imprensa também não poderia ter contemporizado.

Mas não foi o que se viu, ou pelo menos não com a devida veemência, com a grande maioria não se limitando a explorar o erro do árbitro, mas alimentando a leviana suspeita de que a arbitragem teria sido encomendada, em troca da nova nomeação de Simon para representar o país na Copa do Mundo do próximo ano. Enfim, endossando a suspeita de roubo, como disse Beluzzo com todas as letras e sem medo das conseqüências, como se os erros de arbitragem não fossem a coisa mais corriqueira do futebol.

Tão corriqueiros que já no jogo seguinte, contra o Sport, na quarta-feira (11/11), foi a vez de o Palmeiras voltar a se beneficiar por um erro igualmente crasso de arbitragem. E de certa forma ainda mais grave que o suspostamente praticado por Simon, por tratar-se de um erro de direito, ou seja, de descumprimento da regra de jogo. O que é passível até de anulação da partida. Mas nem por isso o presidente palmeirense esbravejou, limitando-se a comentar, cinicamente, que foi apenas um equívoco desculpável, tão desculpável, é claro, quanto os erros que favoreceram o Palmeiras nos jogos contra o Cruzeiro, o Corinthians e outros mais. Pimenta nos olhos dos outros…

Do circo à vida real não muda muita coisa, também não há santos e o jogo sujo é o meio de sobrevivência. A diferença é que, como o prestígio de Lula se mantém inabalável, a imprensa não pode se dar ao luxo de desperdiçar chances para ao menos minar a candidatura de Dilma Rousseff, para o que o mal explicado episódio do apagão veio bem a calhar. Não só por causa da gravidade do problema, cuja repetição nem os governistas descartam, mas principalmente pelos indícios de má gestão do sistema, por conta do aparelhamento petista que compromete o desempenho de empresas públicas como a hidrelétrica de Itaipu, que é dirigida por um engenheiro… agronômo.

Por estas e outras é que, se convém desconfiar de tudo o que a mídia diz, já em relação ao governo duvidar é obrigatório. Afinal, da arte de se passar por virgem em bordel essa turma entende.

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Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/11/2009 Tatiana Ribeiro

    E mais uma vez a culpada é a vítima.
    ‘Há mulheres que acham que liberdade é poder dançar na boca da garrafa, aprontar e fazer o que os homens fazem, mas não é bem por aí. Isso tem outro nome. O caminho certo para a igualdade é se preparar, trabalhar, conquistar seu espaço por capacidade e não com apelação e baixaria. Daí não se poder misturar alhos com bugalhos em função de um caso isolado. ‘
    E é claro, quem deve indicar esses melhores caminhos para as mulheres, como não deveria deixar de ser, são os homens (incluindo você). Que falsa liberdade é esta? Igualdade? Onde?
    Fiquei enojada com tanto machismo. Tentou ser polêmico, mas o texto foi de uma boçalidade sem igual.

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