Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / ANTONIO HOHLFELDT

Intercom sob nova direção

Por Candice Cresqui em 23/09/2008 na edição 504

A Academia, como um lugar que reúne diferentes instâncias de pesquisa, pode oferecer múltiplas perspectivas para a discussão dos temas relacionados à comunicação. Com a população organizada, é possível compreender e avaliar como funciona a mídia e como ela atende – ou não – aos interesses da sociedade brasileira. As afirmações são do jornalista e professor Antonio Hohlfeldt, que tomou posse neste mês como presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom. Ele pretende dirigi-la coletivamente (tradição da entidade) e ampliar o contato com as bases – alunos e professores de comunicação.

A Intercom, fundada em 1977, em São Paulo, é uma associação científica sem fins lucrativos que tem entre os seus objetivos contribuir para a reflexão obre os problemas emergentes da comunicação. A entidade cumpre um importante papel na pesquisa científica sobre comunicação. Faz parte da rede nacional de sociedades científicas lideradas pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da rede mundial liderada pela International Association for Media and Communication Research. Os encontros anuais realizados pela entidade reúnem em torno de cinco mil estudantes e pesquisadores.

Antonio Hohlfeldt também é escritor (doutorado em Literatura) – já publicou mais de trinta obras de caráter acadêmico e de literatura infantil. É professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e já militou por um longo período na política. Foi vice-governador do estado do Rio Grande do Sul (2003-2006) e vereador em Porto Alegre por quase 20 anos, além de integrar o Executivo municipal.

Na condução da Intercom, o novo presidente pretende manter as características de democracia e pluralismo que sempre marcaram a entidade. Para isso, apostará no trabalho coletivo. Eis sua entrevista, realizada por e-mail.

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Quais são os seus projetos e como será sua linha de atuação na presidência da Intercom?

Antonio Hohlfeldt – Não são projetos pessoais, ou individuais, de presidente, mas são aqueles projetos que expusemos aos associados da Intercom durante a campanha e ao longo do período aberto para a votação.

O primeiro compromisso básico e fundamental é manter a característica de democracia e pluralismo que sempre marcou a Intercom. Outra coisa importante é o trabalho coletivo. Apesar de a estrutura administrativa e política da entidade caracterizar-se pelas funções de Presidente, vice, tesoureiro, etc. e cada um ter as suas responsabilidades específicas, queremos ampliar a perspectiva coletivista das atividades a serem desempenhadas pelos integrantes da direção e dos conselhos da Intercom.

Do ponto de vista prático, temos três desafios: a) a retomada, desenvolvimento e popularização do portal da Intercom com seus projetos de livre acesso ao banco de dados sobre livros, artigos, revistas abordando os temas da comunicação.

Tivemos alguns problemas nesta área e estamos, através do Unicentro, que é uma universidade do Paraná, reformatando todo o portal e o site. Vamos investir o mais possível na questão da acessibilidade eletrônica da produção da pesquisa brasileira em comunicação.

Como corolário disso, mas numa outra discussão, (buscaremos) uma aproximação maior ainda da Intercom com os organismos internacionais, o que sempre houve, mas enfatizando a mão dupla, ou seja, visando criar maiores espaços para a pesquisa dos autores brasileiros. Para isso, é fundamental que essa pesquisa seja divulgada e conhecida, o que significa que a Intercom deverá criar um programa de traduções do português para o inglês, ao menos; e para o espanhol, na perspectiva da América Hispânica, de modo a propiciar a leitura dos textos brasileiros por pesquisadores de todo o mundo.

Enfim, o outro desafio é a aproximação de nossas próprias bases, isto é, professores e alunos de Comunicação Social em nossas faculdades. São cerca de 600 cursos que existem no país, segundo dados do MEC. Há que ampliar a comunicação com os estudantes da Graduação, valorizar seus trabalhos, e os professores que atuam em todo o país neste campo.

Pretende promover uma aproximação entre a academia e a sociedade?

A.H. Há projetos de a Intercom passar a desenvolver cursos, através das faculdades e comunidades organizadas, sobre leitura crítica da comunicação, propiciando que a população em geral – mas especialmente a população organizada em diferentes instituições – possa avaliar, depois de compreender, como funciona a mídia e como ela atende (ou não) aos interesses da sociedade brasileira.

Aproximar igualmente a Intercom dos grandes debates nacionais que envolvam a comunicação, como, neste momento, a questão do diploma de jornalismo e o futuro da TV digital e a presença das telefônicas com produtos da mídia eletrônica tradicional.

Em sua opinião, a Academia pode contribuir no debate sobre a democratização da comunicação no Brasil?

A.H. É precisamente porque a Academia pode e deve contribuir para a democratização da comunicação no Brasil que colocamos as questões da pergunta anterior. Isso pode ser feito, e tem sido feito, individualmente, pelo pesquisador, enquanto cidadão que é. Pelas universidades (ou faculdades), mas também deve ser buscado por instituições como a Intercom, que reúne diferentes instâncias de pesquisa e que pode, por isso mesmo, oferecer múltiplas perspectivas para a discussão de determinados temas.

Há uma mobilização de entidades e movimentos sociais em todo o Brasil pela realização da Primeira Conferência Nacional de Comunicação. Qual a sua opinião sobre essa proposta? Que diretrizes a Conferência deve apontar?

A.H. Reunir e discutir sempre é importante. É um dos pilares da democracia. O que será mais importante, contudo, é que se possibilite diálogo real. Ou seja, como se estuda na teoria da Comunicação, que de fato as pessoas falem e ouçam, que não venham com idéias prontas, que respeitem o contraditório. É básico que apostemos nas possibilidades dos consensos, por menores que eles sejam, e não nas diferenças. Só assim poderemos, apesar de tudo, constituir verdadeiras políticas de comunicação para o país.

Qual a sua avaliação sobre a tentativa de desregulamentação da profissão de jornalista? Não lhe parece um retrocesso histórico?

A.H. No sentido de que esta questão estava resolvida desde a década de 1970, sim. Mas é bom levar em conta que, muitas vezes, o que parece ser um retrocesso se torna, numa perspectiva dialética da história, um momento excepcional de amadurecimento e de avanços.

Tomemos como exemplo a questão da corrupção. É evidente que exista hoje maior corrupção do que antigamente? Tenho sérias dúvidas. Mas é fora de discussão que a repercussão pública disso, graças à comunicação, é muito mais ampla. Isso é pior ou melhor? Em tese, é difícil responder. Mas se olharmos, na prática, a experiência de outros países, como os Estados Unidos, por exemplo, veremos que pode ser positivo. Do mesmo modo o enfrentamento que se tem agora.

É evidente que enquadrar a exigência do diploma como uma inconstitucionalidade à luz do Artigo 5º [da Constituição brasileira] é uma falácia. Se não, por que não fazer o mesmo com o advogado e o médico? Mas talvez isso ajude à população a perceber a importância do papel do jornalismo em suas vidas. Porque a discussão, na verdade, não é tanto a questão eventualmente corporativista do jornalista, mas sim, o interesse da sociedade democrática, o interesse da sociedade brasileira em ter acesso a uma informação de qualidade, responsável e conseqüente.

Como autor e professor, qual a sua avaliação sobre a leitura no Brasil?

A.H. Se depender de livros, ruim. Continuamos com tiragens ridículas. Se considerarmos o livro didático e universitário, menos pior. Multiplicaram-se os cursos de pós-graduação que geram mercado para autores e editores e criam novos nichos nas livrarias. E se sairmos do suporte do livro (e do jornal, cujas tiragens recomeçam a subir gradualmente) pode-se dizer que tem sido positivo: certamente que aumentou a quantidade, e depois chegaremos à qualidade – de escrita e de leitura graças à internet, com seus emails, chats, blogs, etc.

Como estamos no meio do processo, isso ainda não aparece muito claro para nós, mas é bom lembrar que jamais uma nova mídia prejudicou às anteriores. Pelo contrário: o livro ajudou o jornal, o cinema ajudou o livro, a TV ajudou o cinema, os quadrinhos apoiaram a literatura, e assim por diante. Não sou pessimista. Em todo o processo cultural começamos pela quantidade para depois chegar à qualidade. Lição aprendida de Paulo Emílio Sales Gomes quando, quase solitário, nos anos 1970, defendia o cinema brasileiro, inclusive a chamada (então) pornochanchada.

O FNDC considera a comunicação como um direito essencial à sociedade. No entanto, em geral os políticos a vêem como um meio para obter projeção pessoal. Qual é a sua avaliação sobre essa postura?

A.H. Há um comportamento um pouco esquizofrênico do político em geral, quanto à mídia. O político, em geral, não compreende o princípio ativo da mídia, embora ele seja exatamente igual nos dois campos: o imaginário. Que depende das imagens a serem produzidas e veiculadas. Então, o político se apressa em querer fabricar imagens ou a interferir nas imagens existentes.

Ora, o processo de imaginação se dá por etapas, e de maneira não explícita, sobretudo. Isso significa que querer interferir diretamente no processo é a mesma coisa que pretender juntar água nas mãos. O processo tem regras e ritmos próprios, sobretudo porque esse imaginário se constitui (o sentido das mensagens se constitui) a partir do receptor, e o receptor percebe e interpreta de maneira absolutamente autônoma as mensagens que recebe.

É evidente que o emissor deve ter objetivos, escolher canais, estabelecer estratégias. Mas vai longe o tempo em que, na acepção da teoria hipodérmica, renovada pela perspectiva da Escola de Frankfurt, o emissor era onipotente. Na verdade, muitas vezes temos nos surpreendido com respostas dadas pelo eleitor ou pela cidadania, apesar das tentativas de influenciar que tem a mídia.

Sem entrar no mérito da questão, um dos exemplos mais recentes foi o plebiscito sobre o desarmamento. Acho que mais do que um meio de projeção pessoal, o que os políticos evidenciam é desconhecer completamente a mídia, e por isso, temem-na e por a temerem tentam instrumentalizá-la, possuindo-a (enquanto empresa, enquanto canal, esquecendo-se que a comunicação não é só isso) ou interferindo sobre ela, enquanto interdição.

Relembremos o episódio Collor de Mello. Se o ex-presidente conhecesse minimamente as estruturas midiáticas, jamais teria proposto aquele domingo de verde-e-amarelo em seu apoio. E jamais teria experimentado aquele domingo-de-negro que conheceu, tirando-lhe toda a legitimidade (ainda que a legalidade, naquele momento, permanecesse). E isso ocorre com a maioria quase absoluta dos políticos. Por outro lado, eu arriscaria dizer que a mídia também conhece pouco os políticos, e por isso reduz a política, em geral, à anedota da disputa de beleza, da notícia episódica, da informação plantada.

Raros são os veículos que tratam a política e os políticos pelo que deveriam ser, prestação de serviço público, discussão de internalidades e externalidades que dizem interesse ao público (isto é, ao bem comum).

A mídia, muitas vezes, repete a posição um pouco maniqueísta de se dizer vítima da política, quando na maioria das vezes é conivente. Leia-se o Balzac de ‘Os jornalistas‘, ainda brilhante e atual. Então, acho que se tem de ir um pouco mais longe: é fundamental que a sociedade brasileira se envolva mais com a política, tanto quanto com as políticas de comunicação. Esse o grande desafio para uma cidadania e uma democracia verdadeiras.

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Da Redação FNDC

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