Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Isto é jornalismo?

Por Luiz Antonio Magalhães em 26/02/2008 na edição 474

Não, nitidamente, não é jornalismo. Se alguém tinha alguma dúvida, a capa de Veja desta semana (edição nº 2049, de 27/2/2008), reproduzida abaixo, é esclarecedora: trata-se de um panfleto de direita e não uma revista informativa. O jornalista Luis Nassif, que está escrevendo um dossiê sobre a revista Veja em seu blog, é até gentil ao classificar de ‘jornalismo de esgoto’ o que é publicado na revistona mais vendida do país. Na verdade, não há jornalismo algum ali, apenas um apanhado de comentários e textos, muitos deles nitidamente ficcionais, sobre o que de mais importante a ultradireita considera ter ocorrido na semana. É, digamos assim, uma revista de formação e não de informação – e muito bem feita, por sinal.






Sem mencionar o conteúdo das ‘reportagens’ internas, uma rápida análise da capa desta edição é suficiente para provar o caráter da revista. ‘Já vai tarde – o fim melancólico do ditador que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda durante 50 anos’ é uma chamada e tanto. Bem, ‘Já vai tarde’ é o que pensa a família Civita e os muito bem pagos acólitos que trabalham na árdua função de ‘editar’ (editorializar seria mais preciso) Veja.


Até aí, o script da ultradireita caminha bem. ‘Fim melancólico do ditador que isolou Cuba’, porém, já força um pouco a barra. Primeiro, porque não há nada de melancólico na renúncia de Fidel. Ele soube sair de cena, preparou a sua sucessão, continua escrevendo e divulgando as suas idéias (bem mais lidas do que as da família Civita, é bom que se diga). O que há de melancólico na troca de comando em Cuba? Ao contrário do que certamente desejavam a família Civita e os cubanos de Miami, não houve revolta popular contra o regime de Fidel e nem ele morreu no poder para que pudessem dizer que em Cuba a presidência era vitalícia.


Estudo de caso


Em segundo lugar, não foi Fidel quem isolou Cuba, mas os Estados Unidos da América – pátria dos Civita –, por meio do desumano embargo que já dura décadas. Outra incorreção da chamada é dizer que Fidel ‘hipnotizou’ a esquerda mundial. Ora, trata-se apenas de uma figura de linguagem ruim, pois a esquerda não foi ‘hipnotizada’ por ninguém, ao contrário, estava lutando ao lado de Fidel, como esteve do camarada Stálin, por exemplo. A esquerda pode ter cometido erros, mas ‘hipnotizada’ pelo comandante, definitivamente não foi.


A cereja no bolo desta edição de Veja é a pequena foto do presidente Lula no alto da capa, acima de Fidel e com pose de Superman. ‘Popularidade – Lula surfa nos bons números do capitalismo brasileiro’ é a chamada que acompanha a imagem. Claro, trata-se de uma referência ao excelente desempenho do presidente brasileiro na pesquisa CNT/Sensus divulgada na semana passada. A revista já traz a explicação do aumento da popularidade logo na capa, para não deixar dúvidas: é a ‘rendenção’ de Lula à economia de mercado o que o faz o mais popular dos presidentes brasileiros desde a redemocratização, a despeito da vergonhosa campanha da própria Veja contra o presidente.


Ou seja, Lula é a esquerda que, domesticada, ‘deu certo’. Embora também não tolere o governo do presidente-operário, o panfletão da Abril deixa claro que, pelo menos até aqui, Lula e Fidel são diferentes.


Tudo somado, a edição de Veja desta semana devia ser estudada não nos cursos de jornalismo, mas nos de publicidade. É um bom jeito para os futuros marqueteiros dos futuros Malufs, Pittas e afins aprenderem como vender gato por lebre. Isto, melhor do que Veja ninguém faz.

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