Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > O FATO E A NOTÍCIA

Jornalismo e ativismo

Por Avery Milton Veríssimo de Carvalho em 10/04/2006 na edição 376

Diante da ‘manifestação antiglobalização’, o jornalista conclui sua matéria
com a clássica frase ‘houve protestos de manifestantes antiglobalização’. Seja
em Davos, Paris ou Belo Horizonte, o teatro dos acontecimentos midiáticos
permite uma estrutura que quase nunca varia: reproduz informações de
press-releases sobre o evento, segue imagens e trechos de discursos de
importantes líderes mundiais, fecha com imagens dos protestos, eventualmente com
um belo frame final. O espetáculo, entretanto, nem sempre é o mesmo.


Quer a matéria esteja acontecendo num fórum econômico, num congresso
ambiental, em manifestações pacifistas ou em qualquer evento semelhante ao redor
do mundo, a participação dos tais manifestantes antiglobalização é tão certa
quanto as matérias sobre eles terminarão com imagens de jovens arrastados pela
polícia. Em situações mais graves, espancados, o que sempre é interessante para
o registro mundano da imprensa tradicional.


O caráter quase sempre descritivo do jornalismo fenece diante de
acontecimentos relativamente complexos como o fenômeno do ciberativismo. O que
não surpreende, dada à condição tradicional do jornalismo como reprodutor de
acontecimentos [se optarmos pelo mesmo sentido que Octavio Paz dá ao termo
tradição em ‘Os filhos do Barro’, veremos que há muita pouca diferença entre o
que é considerado vanguarda e o que está na raiz, no nascedouro de qualquer
atividade
]. O jornalismo tal como o conhecemos, em que pese a série de
mudanças históricas pelas quais passou, exerce papel meramente informativo
(sequer chegando a satisfazer a etimologia do termo), de apresentação de quadros
estanques: a) apresentação do evento, b) as participações mais importantes e c)
imagens de manifestantes sem roupa ou usando máscaras das lideranças mundiais.


Quando o jornalismo se dedica a esse modelo estanque – que tornaria Bakhtin e
Heller ainda mais seguros de seus estudos sobre estereótipos e estimularia o
sarcasmo adorniano –, quem perde é o público. No caso específico, a informação é
obliterada quando não há audição de todas as partes envolvidas. E ouvir duas ou
mais fontes discordantes sobre um mesmo tema, sabemos, é princípio básico do
jornalismo. O que querem os manifestantes? A imprensa ouviu suas queixas? Deu
atenção às suas reivindicações? Utilizou na elaboração da matérias trechos de
seus documentos e manifestos?




A mensagem mais comum da cobertura jornalística contemporânea é de que o
mundo não pode ser compreendido, modelado ou controlado, mas apenas suportado e
mantido a uma certa distância. (Fallows, 1997: 171)


A sensação nesses casos é que o establishment reúne poder suficiente para
controlar, do princípio ao fim do processo, o que é veiculado. Além disso, não
tem medida da necessidade de informação da população ou a ignora; despreza
qualquer sombra de reação contrária aos seus interesses; oprime segmentos de
menor poder de expressão. Ou nem tanto. Sem intenção de entrar no mérito
político ou em enredos conspiratórios baseados na Teoria Crítica, encontraremos
nessa relação no mínimo um ato-falho. Que é repetido à exaustão, episódio após
episódio.




Onde está, a quem pertence, a que interesses serve esse poder que capacita
jornais e jornalistas – com o uso da privilegiada ferramenta de informação – a
favorecer ou contrariar valores, pessoas, instituições, grupos, partidos,
empresas e nações?


Qualquer que seja, onde quer que esteja, a quem quer que tenha sido delegado,
esse poder se projeta em decisões e ações irreversíveis na intimidade da
atividade jornalística, em todos os desdobramentos hierárquicos de produção,
criação e controle da notícia. (Chapparro, 1993: 77)


Compartilho da preocupação de Chaparro, mas ela será insuficiente se não
prestarmos atenção especial ao trecho ‘decisões e ações irreversíveis na
intimidade da atividade jornalística’, frase determinante que identifica
processo de metástase que atinge ‘todos os desdobramentos hierárquicos de
produção, criação e controle da notícia’. É quando percebemos que a ‘fábrica’ da
informação tem procedimentos internos desconhecidos, embora mensuráveis.


As manifestações anticapitalistas que crescem no mundo desenvolvido têm
tratamento mais raso de parte da televisão que da imprensa escrita, que segundo
a tradição é mais analítica que a eletrônica. Nos jornais impressos, os boxes
dão destaque a temas menores, como os manifestantes neo-hippies, atores
secundários de um ato curto, com direito a poucas falas.


Já na televisão por assinatura – tecnicamente melhor aparelhada, teoricamente
consumida por público de maior escolaridade e poder aquisitivo, virtualmente
mais analítica em seu jornalismo –, há uma predominância de debates inócuos,
como observa Halimi, sob assistência de Debord: ‘Alquimista talentosa, a
televisão sabe alimentar sua sede de programas pouco dispendiosos com ‘debates’
no decorrer dos quais é difícil saber o que distingue um debatedor de outro.
Trata-se da interminável série de confrontos ridículos que Guy Debord evocava no
livro A sociedade do espetáculo‘. (Halimi, 1998)


Dos debates inócuos de Debord à hierarquia de controle de informação
observada no indispensável Notícia: um produto à venda, de Cremilda Medina, os
profissionais da notícia estão sempre ligados ao poder econômico. Ou, no mínimo
os profissionais (vendedores?) da notícia já sabem de antemão o que pretendem os
donos dos media. Esse controle ‘não é visível aos que se postam
externamente à produção da informação’ (1978: 134). Acrescenta Medina que o
controle no direito à informação e do direito de opinião exercido dentro do
processo de produção jornalística – ou seja, a ação dos proprietários e dos
profissionais –, nos remete para uma complexa rede de forças que atuam sobre
esse processo.’


Avaliar os processos de comunicação nunca foi atividade menos espinhosa no
passado que na atualidade. Se este artigo adquire contornos da Escola Crítica
não será por acaso. Armand e Michèle Mattelart alertam em seu História das
Teorias da Comunicação
que ‘antigos debates sobre objetos e estratégias de
estudo, há muito julgados resolvidos e ultrapassados, repentinamente voltam a
surgir, pondo em questão modos de inteligibilidade e regimes de verdade
hegemônicos durante décadas’ (1993: 10). Os diversos estágios de pesquisa em
comunicação, do determinismo funcionalista às teorias das mediações, apontam
para a necessidade de adoção de modelos baseados nas ciências sociais para
dimensionar certos fenômenos. Sigamos nessa direção.


Antes, convém identificar nosso objeto como o ativismo político globalizado e
sua fraca presença nos media. Algumas matérias em mídia impressa e
eletrônica serão eleitas para confirmar essa teoria.


Uma mídia melhor é possível?


O Jornal da Globo levou ao ar em 28 de maio de 2004 uma matéria sobre
o final da Terceira Cúpula dos países da América do Sul, Caribe e União
Européia, realizada em Guadalajara, México. O texto abre informando que o
presidente Luís Inácio Lula da Silva já está ‘voando de volta ao Brasil’ –
recurso muito usado para dar sensação de instantaneidade à notícia. Logo em
seguida o repórter observa:




O encerramento do encontro foi marcado por protestos. Centenas de
manifestantes antiglobalização enfrentaram a polícia nas ruas de Guadalajara.
Pelo menos, dez pessoas foram presas e 25 ficaram feridas. [Jornal da
Globo
, 28/5/ 2004]


Na seqüência, a reportagem assume um caráter humanitário, ressaltando a
preocupação dos líderes mundiais presentes ao encontro:




Não haverá segurança no mundo sem desenvolvimento. Não há espaço para ações
unilaterais. Não há como resolver crises como a do Iraque sem a participação da
ONU. Estas foram algumas das conclusões do encontro.


Tudo como manda o figurino: radicais antiglobalização são presos e espancados
(25 são feridos) e líderes do Ocidente expõem suas preocupações humanitárias e
com a segurança do povo iraquiano. Ora, enquanto o pretenso encontro pacifista
era realizado, dezenas de manifestantes eram confrontados pelos policiais
mexicanos. A imprensa não demonstra interesse nem em saber as reivindicações dos
manifestantes, nem em reconhecer que enquanto se discutia a segurança mundial
entre portas fechadas protegidas por um aparato de segurança de primeira linha,
jovens manifestantes eram espancados do lado de fora, a poucos metros da reunião
de cúpula.


Em 13 de junho de 2004, a Folha de S.Paulo consegue abusar da
prolixidade ao descrever o encontro da Unctad, a Conferência das Nações Unidas
sobre Comércio e Desenvolvimento como um evento pluralista, que agregou diversas
correntes, entre elas o Fórum da Sociedade Civil, descrito como ‘um evento
paralelo com a presença de ONGs e militantes antiglobalização que critica a
reunião da Unctad’ [Folha Online, 13/6/ 2004]


Mesmo quando a matéria é dedicada ao tema, caso do Fórum Social de Porto
Alegre, a abordagem é superficial. A própria Folha de S. Paulo, em 2001,
descrevia o evento de forma singela: ‘Mais do que antiglobalização, respira-se
no fórum um ar de esquerda, de oposição, algo cada vez mais raro nos dias de
hoje, pelo menos em eventos de grande porte. Uma amostra disso podia ser
percebida nos estandes de livrarias, editoras e outras entidades participantes.
Poderia ser uma pequena feira de livros como outra qualquer. Não fosse o fato da
absoluta concentração em publicações ligadas direta ou indiretamente à esquerda,
nos sentidos mais amplos que se pode entendê-la hoje.’ [Folha de S.Paulo,
26/1/2001 (com agência Reuters)].


As notícias sobre os desconhecidos movimentos antiglobalização pairam
como estratos sobre a massa de informação. Assim, os media exibem esses
grupos sob uma ótica caricata ou radical porque sua presença ou ausência, suas
passeatas ruidosas ou suas guerras eletrônicas silenciosas (o ciberativismo
propriamente dito) são irrelevantes diante dos planos e acordos comerciais que
ensejam a globalização do capital.




As discussões sobre a Nova Ordem Mundial tiveram indubitavelmente uma função
de despertar estratégico. Para as redes de defesa dos interesses
corporativistas, como a International Advertising Association (IAA) ou a
Sociedade Interamericana de Proprietários de Imprensa (SIP) que são lobistas
particularmente ativos, é o ponto de partida de uma reorganização institucional
para enfrentar um ‘desafio’ que para eles é ‘global’ e está longe de ser
conjuntural. O mesmo ocorre quanto às organizações não-governamentais que,
desejando ir além das petições de princípio dos Estados, tomam iniciativas
paralelas às oficiais (Mattelart, 1996: 115-116)


Entre o capital ético e o capital econômico


As organizações não-governamentais que coordenam parte das ações dos
ciberativistas elegeram os meios de comunicação como um dos maiores inimigos de
sua causa. Acima desses, apenas as grandes empresas transnacionais e governos
considerados imperialistas. Essa estratégia é compreensível, dada à relação mais
que óbvia dos grandes grupos e comunicação com o mercado de capitais. Não
precisamos, portanto, entrar em discussões como a espetacularização da notícia
graças às fusões de empresas de entretenimento com as de informação.


Reconhecer que essa relação contribui para o obscurecimento de suas ações é
um dos principais ingredientes para a criação de redes alternativas de
comunicação pelos grupos ativistas contemporâneos. O apoio da internet, mais do
que nunca ampliou a utopia de uma nova imprensa, conduzida pelos que não
obtiveram espaço nos meios tradicionais.




Inventores da fórmula think globally-act locally (pense globalmente,
atue localmente), as organizações não-governamentais representaram, na época um
estilo novo, de intervenção social. Enquanto a maioria das organizações
políticas e sindicais ainda hesitam em ocupar-se da questão dos meios de
comunicação, essas associações comprovadamente profissionais elaboram seu
próprio dispositivo de comunicação, apropriam-se das mídias e conseguem
transformar sua causa em sujeito do acontecimento. (Mattelart, 1996: 170-171)


O estágio atual de conflitos ideológicos – ou de indefinições ideológicas
geradas com a queda do comunismo na Europa – poderia explicar a falta critérios
na divulgação de fatos acerca dos manifestantes. Como considerar
antiglobalização quem se organiza por meio de correio eletrônico, warblogs,
hacktivismo? Como considerar anticapitalista quem realiza ações políticas que
exigem o emprego direto de recursos financeiros.


Os próprios jornalistas, incapazes de contrariar interesses econômicos,
tornam-se reféns da desinformação que produzem a serviço das grandes empresas de
comunicação. E o fazem menos por ignorância – mal que assola as grandes massas
do qual os jornalistas se consideram imunes – que por pressão econômica, como
bem lembra Eugênio Bucci:




Os jornalistas são trabalhadores intelectuais. Vendem o seu trabalho e o seu
talento, com ou sem vínculos empregatícios, para empresas capitalistas – ou para
empresas mais ou menos públicas que de todo modo, se viabilizam segundo
critérios de mercado. Alguém vai discordar: nem todos os jornais, revistas e
emissoras de televisão, nem todos os sites jornalísticos pertencem
necessariamente a capitalistas. Mas todos os jornalistas, sem execeção, vendem
seu trabalho e seu talento no mercado capitalista. (Bucci, 2003:
75-76)


Talvez a incapacidade de compreensão dos media sobre os valores que
permeiam o ativismo político no século 21 seja a mesma que atinge boa parte da
população mundial dita politizada, que assistiu nos 20 anos entre a Primavera de
Praga e a queda do Muro de Berlin uma modificação abrupta e generalizada de
conceitos estanques até então vigentes. Hoje, termos como Socialismo Liberal
tornaram-se correntes e embora contraditórios, tentam espelhar uma nova ordem
política que de qualquer forma não agrada ao ativismo globalizado.




Muitos jornalistas resistem à idéia de reportagens ‘civicamente conscientes’
pois isso relembra aulas de história do curso primário, cheias de orgulhoso
otimismo. Mas para o jornalismo ter importância precisa ser útil de um modo
particular. Precisa dar ao público a sensação de que a vida não é apenas uma
seqüência de fatos ocasionais. (Fallows, 1997: 170)


O que assistimos neste início de milênio é novo somente sob o aspecto da tecnologia. A juventude escolarizada que protesta pelas ruas de todo o mundo – as manifestações contra a Lei do Primeiro Emprego na França, assim como os protestos de imigrantes e seus descendentes nas semanas anteriores – encontra nos meios de informação os dados sobre a exploração capitalista nos países em desenvolvimento; sobre a indústria bélica e sobre o estado de bem-estar social. Não é catastrofismo prever que esses canais de comunicação serão abertos de uma maneira ou de outra.


Bibliografia


Adorno, Theodor e Horkheimer, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de
Janeiro. Jorge Zahar. 1985


Bucci, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo. Companhia das
Letras. 2003


Chaparro, Manuel Carlos. Pragmática do jornalismo: buscas práticas para
uma teoria da ação jornalística
. São Paulo. Summus, 1993


Eventos
paralelos à reunião da Unctad


Fórum de Porto
Alegre faz oposição em meio à diversidade


Halimi, Serge. Os novos cães de guarda. Petrópolis. Vozes, 1998


Medina, Cremilda. Notícia: um produto à venda. São Paulo. Summus, 1978


Mattelart, Armand. A globalização da comunicação

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Jornalista, mestre em Ciências da Comunicação (ECA-USP), professor de Ética, Jornalismo e Cidadania da Faculdade Estácio de Sá em Belo Horizonte (MG) e integrante da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa

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