Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / MIGUEL ÁNGEL JIMENO

Jornalismo espanhol em xeque

Por Gabriela Azevedo Forlin em 08/07/2008 na edição 493

Um corajoso grupo de jovens espanhóis, jornalistas e estudantes de jornalismo, lançaram recentemente um manifesto na página de microblogging Twitter. Em poucas linhas, o texto resume o compromisso que pretendem estabelecer: ‘Pela regeneração do Jornalismo, ainda que nos custe a profissão, ainda que nos custe a vida’. O ‘twitteo’ com o qual nasceu o manifesto, surgiu entre três membros da redação de Madrid do blog Sin futuro y sin un duro, com o jornalista fundador do ÁgoraNews e um jovem jornalista do diário 20minutos. A onda pegou e o manifesto já se difundiu por dezenas de blogs espanhóis, contando com o apoio de centenas de estudantes e com a oposição de muitos professores e profissionais mais experientes da área.

O Monitor de Mídia conversou com Miguel Ángel Jimeno, professor da Universidade de Navarra (Espanha), subdiretor do Departamento de Projetos Jornalísticos e membro da Sociedade Espanhola de Jornalismo. Entre outros feitos, Jimeno foi o fundador e editor do Barcelona´92, diário oficial dos Jogos Olímpicos de Barcelona de 1992. Jimeno falou sobre o movimento e as principais questões do Jornalismo atual com o mesmo tom – o importante não é o que se faz, mas como se faz.

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O movimento atual de estudantes e jornalistas recém-formados defende que o sistema educativo universitário na Espanha não fomenta a qualidade de ensino nem a pesquisa. De acordo com eles, a universidade deveria servir para formar cidadãos e não para distribuir diplomas. Você concorda com as afirmações?

Miguel Ángel Jimeno – Bom, toda afirmação taxativa corre o risco de ser injusta. Para começar, os sistemas educativos são aplicados por faculdades e escolas, inclusive por departamentos e professores. E existem faculdades estupendas e outras nem tanto. Também influi nesta qualidade, obviamente, o número de alunos, porque não é o mesmo ensinar a trinta ou a duzentos. Com essas e outras matizes, ainda se poderia fazer outra pergunta: o que é a qualidade de ensino? Parece-me que existem muitas faculdades com uma qualidade excelente: professores bem preparados e – muito importante – muito inclinados a compreender seus alunos; professores que sabem da sua área e que, além disso, contam com detalhe a mais de estar em contato com a vida, com a profissão…

Já que a afirmação de alunos e jornalistas é incisiva, provocadora, farei outra na mesma onda: O que contribuem os alunos e profissionais com a qualidade de ensino? Porque me parece que existem alunos sem vocação para o que estudam e da mesma forma, profissionais muito autocomplacentes que, além de não saber o que se faz nas universidades, têm pouquíssima ambição em saber mais, em reciclar-se, em conhecer o que fazem outros colegas.

Alguns defendem que a primeira coisa a se fazer é ‘por estágios obrigatórios e acabar com disciplinas que só servem para tapar buracos’. Segundo os manifestantes, no final, o que vale se mostra trabalhando e não estudando. Você concorda?

M.A.J. – Não. Ronaldinho e Messi têm dezenas e dezenas de horas ‘ocultas’ que logo lhes fazem ser melhores jogadores. Não. A nenhum estudante de Medicina lhe ocorre exigir estágios práticos antes da teoria. Antes de ‘meter o bisturi’, é necessário conhecer muitas coisas porque, do contrário… Nos estudos de Comunicação, também é necessária uma grande base teórica. Trabalhar em um meio de comunicação é muitíssimo mais que ir aos treinos do time de futebol, assistir a entrevista coletiva do jogador da vez e contar isso ao leitor. Entender assim o Jornalismo costuma ter como conseqüência que algum empresário pense que para isso, não fazem falta jornalistas, que isso pode ser feito por estagiários e que podem fazê-lo para jornais, rádio e TV do grupo…

Tenho muito claro que sabe contar mais e melhor os fatos, em realidade, aquele que mais sabe. Curiosamente, os alunos e jornalistas com mais vocação são os mais conscientes do caminho que ainda têm a percorrer. É uma pena que hoje muitos prefiram saber como funciona uma caneta em vez de saber que podem contar com essa caneta. O que é mais importante: saber como funciona uma câmera de televisão ou saber que história contar através dessa câmera? O senso comum diz, além disso, que aprender o programa de desenho InDesign, por exemplo, leva três dias. Já o ‘como’ usá-lo.

Fala-se de que um Novo Jornalismo está efetivamente sendo inventado: diferente, com outras rotinas, com outros atores, um jornalismo que está em processo de construção. Contudo, também se fala neste movimento que o jornalismo está em crise em todo o mundo. Qual sua opinião? Você crê que a suposta crise pode significar oportunidades escondidas?

M.A.J. – Sou dos que pensam que jornalismo é jornalismo. Isso de novo ou velho… Informar bem o leitor, servir ao leitor, ser útil… É o que havia/há/haverá que fazer. Os temas a serem informados estão nas ruas, as fontes também, os cidadãos também… É novo jornalismo que agora os cidadãos tenham mais opções para contar coisas? Creio que não. É melhor um diário em que saiam dezenas de cidadãos? Pois pode ser que sim ou pode ser que não. O importante não está em quem saia, mas na relevância, no contraste, na utilidade do que oferecemos ao leitor. Hoje é certo que os diários, por exemplo, podem parecer-se demais, mas quem busca exemplos de bom jornalismo neles não os encontra em grande quantidade.

Estudantes e jornalistas, especialmente os mais jovens, defendem que o termo ‘Jornalismo Cidadão’ deixará de ser usado, levando em conta que a partir das mudanças atuais no Jornalismo, todo ele será assim, um trabalho conjunto em favor dos cidadãos. Qual sua opinião sobre esta afirmação?

M.A.J. – Isso de ‘Jornalismo Cidadão’ é uma frase que está na moda. Já se foi feito excelente jornalismo cidadão e se seguirá fazendo. Não gosto de rótulos. Costumam apresentar como novidade o inventado e, em algumas ocasiões, costumam desorientar. Por exemplo, não creio que o futuro do Jornalismo passe pelo que nos contam ou fazem chegar até nós os cidadãos. Quem faz Jornalismo é o jornalista. O cidadão é… Cidadão.

Jornalismo cidadão – defendo – é o que está a serviço do cidadão. E para isso, até cabe a possibilidade de que não apareça nenhum cidadão na informação. Para servir aos leitores que recebem todos os dias propagandas de dez operadoras diferentes de telefone, todas as melhores, o que se deve fazer é descobrir tarifas, compará-las, ver onde se ganha e onde se perde… Esta é uma magnífica página pensada desde o princípio para servir ao leitor. E não aparece nenhum deles na informação.

Ainda sobre o Jornalismo em favor da sociedade, você crê que os grandes empresários que movem os meios de comunicação de massa devem despertar dos ‘sonhos de riqueza’ e dar-se conta que o jornalismo é um trabalho social ou que, no nível de desenvolvimento em que já estamos, não cabe mais ao jornalista o papel idealizado de herói? Quer dizer, você crê em jornalismo a favor do capital ou do social?

M.A.J. – Primeiro assunto: a empresa de comunicação, para viver, necessita ganhar dinheiro. Segundo, tão importante como o primeiro: o bom jornalismo custa dinheiro. Quer dizer, as políticas de demissão dos jornalistas em empresas que ganham muito me parecem indecentes. Também advogaria pela dignidade dos salários. Tende-se a cobrar pouco nesta profissão. Por tanto, para prevalecer o social, é necessário o capital. Só me cabe pedir aos donos do capital é que gerenciem uma empresa de comunicação como ‘de comunicação’, não como ‘de parafusos’ ou ‘de presunto’.

O que esse manifesto defende é certo: é preciso mudar as coisas já. Em sua opinião, por onde e como se pode começar? O que necessita o Jornalismo nos nossos dias?

M.A.J. – O jornalismo necessita vocação, honestidade e serviço à sociedade em todos os níveis. Que o empresário saiba que empresa administra. Que a direção e a redação entendam o empresário, mas que recuperem seu papel decisivo na empresa. Digo isso porque, infelizmente, os diretores perderam o poder de administrar a redação. Agora, em geral, se um diretor quer contratar um jornalista, necessita o aval do diretor geral. Que a redação seja consciente de seu tempo e da crise, da ameaça de outros meios, porque agora existem muitas redações que não se dão conta do presente, do que há que se mudar para enfrentar melhor o futuro.

Profissionais e estudantes afirmam que na universidade falham duas coisas: os universitários e os professores. Quais são as faltas mais graves de cada um em sua opinião?

M.A.J. – Com certeza, todos podem dar mais. Os professores, preparando ainda melhor as aulas e, sobretudo, dedicando mais tempo aos estudantes. Os alunos tomando as aulas mais seriamente (há uma grande diferença entre ‘ir à aula’ e ‘estar na aula’). Os profissionais, ajudando mais os alunos quando se encontram com eles (quem sabe em algumas práticas profissionais), porque às vezes, tendem a desiludir os que têm vocação e os desanimam (‘isso sempre foi feito assim’, ‘meninos, não tenham pressa…’).

Em sua opinião, o que significa regenerar o Jornalismo?

M.A.J. – Colocar a pessoa no centro de tudo.

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Da equipe do Monitor de Mídia

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