Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Lição de humildade

Por Marília Conill Marasciulo em 06/12/2011 na edição 671

Entrevistei Gay Talese. Fiz para um trabalho da faculdade, um jornal sobre um livro dele, O reino e o poder. Simplesmente liguei para a casa dele e ele atendeu. Na verdade foi a segunda tentativa. Na primeira, nervosa, com medo de que ele realmente atendesse (afinal, o maior jornalista vivo certamente debocharia das perguntas de uma estudante brasileira), fiquei aliviada quando a gravação da secretária eletrônica disse: “This is Gay Talese, please leave your name, and I'd also appreaciate if you'd leave the time and date that you called, and I'll get back to you as soon as possible.” Deixei meu telefone e prometi ligar mais tarde – teria mais tempo para respirar e criar coragem.

Às sete da noite me pareceu um bom horário, seriam cinco da tarde em Nova York. Liguei. Ele atendeu. “Hello. Hang on, just a minute.” Silêncio. Meu coração disparou, comecei a tremer, transpirava adrenalina. Ele voltou, eu me identifiquei, disse que estava ligando do Brasil e que tinha deixado uma mensagem na secretária. “Acabei de chegar em casa, nem tive tempo de checar minhas mensagens, achei que tínhamos combinados de conversar amanhã ao meio-dia!” Dava para ouvir o espanto em sua voz. Como explicar para Talese que ele tinha se confundido, que eu não era quem ele estava pensando? Quando repeti que não tínhamos conversado ainda, que eu era só uma estudante brasileira, ele finalmente responde: “Calma aí, você não é a Carol da Silva?” Não, não sou, er… Desculpe? “Bom, então o que você quer, no que eu posso te ajudar?”

Expliquei que estava fazendo um trabalho sobre o livro e que gostaria de fazer algumas perguntas, não demoraria muito, seria melhor marcarmos e eu ligar outra hora? “Eu estou no telefone, não podemos fazer isso agora?” Gay Talese não só respondeu às perguntas que eu tinha elaborado rapidamente (vai que ele atende e me diz “pode perguntar”…), como o fez com calma, interesse e paciência. Depois de desligar, gritei, pulei, parecia que eu tinha corrido uma maratona. Não conseguia acreditar.

O que pensam os que admiramos

Quando a notícia de que eu tinha falado com Gay Talese se espalhou, meus colegas ficaram incrédulos. Há semanas tentavam entrar em contato com os autores de seus livros, grande parte brasileiros, em vão. Ninguém respondia a e-mails, telefonemas, tuitadas desesperadas. Por quê? Por que um jornalista com cinquenta anos de carreira, do outro lado do mundo, atende ao meu telefonema e outros, na mesma cidade, sequer respondem a um e-mail? Depois de falar com Talese, não há motivo que me convença do por que alguém não pode parar quinze minutos de seu dia para conversar com um estudante. Para ele, talvez isso não faça a menor diferença, mas para nós é algo que levaremos para o resto da vida e nossas carreiras. Queremos saber o que profissionais que admiramos pensam, para, quem sabe, um dia chegarmos lá. E ter o privilégio de ouvir isso dito a nós, não a outra pessoa. Aliás, eu ainda estou esperando que a entrevista com a Carol da Silva (morro de curiosidade de saber quem ela é) apareça por aí.

A entrevista está aqui.

***

[Marília Conill Marasciulo é estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC]

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