Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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DIRETóRIO ACADêMICO > ENSINO DE JORNALISMO

Lições de Cicarelli sobre convergência e educação

Por Lorena Tárcia em 07/11/2006 na edição 406

Educação e convergência de mídias fazem parte de uma mesma realidade, a do mundo digital, em que dados e informações correm pelas veias da web, formatando novos modelos de comunicação e novos públicos. Nesse estão os novos alunos da escola do século 21.

A escola em muitos casos falhou em acompanhar gerações alfabetizadas pela linguagem audiovisual da televisão. De maneira geral, sempre aproveitou pouco as tecnologias de comunicação, embora esse seja o elemento essencial na educação. Muitos alunos que chegam hoje ao ensino superior têm dificuldade em entender a escrita e com ela se expressar. São de uma geração icônica, marcados pelas imagens. Os desafios que se impõem são agora ainda maiores. Instituições de ensino, professores e alunos precisam trilhar caminhos que evitem a distância entre a realidade vivida fora da escola e aquela solidificada nas salas e mentes de professores que teimam em se acomodar na mesmice de um cenário analógico.

O vídeo de Daniella Cicarelli na internet ensinou-me algumas importantes lições. Apesar da tentativa do site de hospedagem YouTube de excluir as cenas com conteúdo erótico, dezenas de outros arquivos contendo o vídeo foram postados e uma rede instantânea de anônimos informantes logo identificou onde e como assistir às imagens que mobilizaram milhares de pessoas e levaram a imprensa a noticiar o espetacular efeito das fontes alternativas de informação.

Naquela semana, em minhas aulas de Jornalismo Online, na Faculdade de Comunicação, tratava, com futuros jornalistas, do uso da internet como fonte de informação e localização de fatos e notícias de credibilidade nas entranhas da rede. Apesar da dificuldade de alguns em realizarem os exercícios de busca de dados propostos, nenhum deles encontrou entraves para localizar e assistir às tórridas cenas de amor vividas pela modelo brasileira e seu namorado em águas espanholas.

Naquele momento, meu aluno pesquisou, leu, assistiu, comentou, analisou, debateu, registrou, não esqueceu. E mais: meu aluno sentiu-se motivado! Não seria esse o sonho de todo professor e até mesmo da mídia tradicional quando busca conteúdo direcionado à conquista de seu público-alvo?

Concordo que o erotismo das cenas e o sabor da fofoca, aliados à notoriedade à qual Cicarelli foi elevada após seu casamento com Ronaldo Fenômeno e a separação quase instantânea – fica até difícil identificar qual desses momentos a fez mais celebridade –, contribuíram para tornar o vídeo ainda mais atrativo. Mas beldades, escândalos e fofocas acontecem todos os dias. O que chamou a minha atenção no caso Cicarelli foi o fato de a informação sobre ele ter circulado rapidamente pela internet, levando a mídia tradicional a correr atrás da notícia, sob o risco de perder as oportunidades abertas pelo frenesi que mobilizou nossos internautas – e também os espanhóis.

E, ao fim, Cicarelli acabou me mostrando que precisamos repensar a escola. Os alunos que nela estão fazem parte de uma geração que inova a comunicação a cada momento. Passamos do ponto em que comunicávamos de um para muitos, através das mídias de massa. Teríamos visto as cenas de Daniella na mídia tradicional? Possivelmente não! E se essa mídia tradicional tivesse transmitido as imagens, seria possível mostrar à nossa rede de contatos onde encontrá-las, revê-las e passá-las adiante? Certamente, não!

Dizia o educador Seymour Papert que se trouxermos um médico do século 19 para um hospital atual, ele ficará espantado com tantas novidades e mudanças. É possível que nem reconheça ali um hospital. Porém, diz Papert, se trouxermos um professor daquele mesmo século para a sala de aula de hoje, ele se sentirá praticamente à vontade, estará em casa. O mundo muda, a escola permanece. O aluno muda, a didática se mantém. A comunicação se revoluciona e os textos escolares continuam estáticos. O mundo se torna cada vez mais polifônico; são mais e mais imagens, cores em profusão. Enquanto isso na sala de aula persiste o monótono som da voz única do professor e a monocromia do preto no quadro branco.

Cicarelli empolga e de repente percebemos que estamos fora de sintonia. Mas nunca é tarde para nos conectarmos com este novo aluno e suas novas linguagens. Que venham outras danielas e novas lições. Mas que a escola esteja preparada para aprendê-las.E que avancem as escolas e estejam alertas os professores para não perderem o bonde da história daquela que é a nossa maior ferramenta de trabalho e de conexão com nossos estudantes: a comunicação.

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Jornalista, professora de Jornalismo no UNIBH e mestranda em Educação pela PUC-Minas

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