Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > MOVIMENTO ESTUDANTIL

Mais uma ocupação que virou invasão

Por Clara Ribeiro Sacco em 23/03/2010 na edição 582

Como aluna de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), não podia deixar de manifestar meu desprezo diante das publicações feitas pelo jornal O Globo e o Jornal da Globo sobre a ocupação feita na sexta-feira (12/3), por nós, estudantes da UFU, em nossa reitoria, em um ato histórico na Universidade, em que 300 alunos foram reivindicar, pacífica, lícita e organizadamente por direitos previstos aos estudantes e que não estavam sendo cumpridos, sequer debatidos.

Utilizando de flagrantes de imagens dos poucos alunos que bebiam durante a manifestação, compararam o ato com uma ‘comemoração’, e resumiram as reivindicações a uma simples revolta contra a proibição do comércio de bebidas alcoólicas dentro da instituição. O Diretório Central dos Estudantes, durante o protesto, formou uma comissão de imprensa, disposta a dar quaisquer esclarecimentos para a mídia sobre o que estava acontecendo, em vão. Ao final do ato, a comissão se dispôs a dar entrevista a uma repórter do Jornal da Globo que se recusou a ouvir a versão dos estudantes e disse que só falaria com o reitor, e o jornal regional, filiado à Rede Globo, que entrevistou uma membro do DCE, editou a entrevista de forma inexpressiva.

Além das insinuações desmoralizantes, foi citado nas reportagens que uma porta de vidro foi quebrada pelos manifestantes para a entrada no prédio da reitoria. Uma evidente mentira, visto que depois de cerca de trinta minutos que todos já estavam instalados dentro do local, acidentalmente a porta se quebrou ao ser fechada.

Fechamento de um curso pré-vestibular

Evidentemente, todos os esforços foram feitos para a descredibilização do movimento estudantil. Os alunos, depois de inúmeras tentativas de diálogos formais com a atual reitoria, que foram ignoradas, tentaram, e conseguiram ser ouvidos, mesmo que forçosamente. A proibição da realização de festas e do consumo de bebidas alcoólicas dentro da Universidade realmente foi o gatilho para a organização definitiva da mobilização. Admitimos o problema do alcoolismo e o abuso do álcool entre os jovens, por isso defendemos a criação de políticas de educação e conscientização dos adolescentes dentro da universidade, acreditando que a proibição nunca é a resolução ideal para os problemas sociais existentes.

O que não foi mostrado ao público é que, além do zelo legítimo para a garantia de eventos extra-acadêmicos como forma de confraternização, arrecadação de verbas para as questões estudantis e aquisição de cultura, a terceirização do restaurante universitário também foi discutida e reivindicada, assim como a precariedade da estrutura universitária após a aprovação do Reuni, o arbitrário fechamento de um curso pré-vestibular que era oferecido para alunos de baixa renda e a instalação de um retrato do ex-presidente ditador Costa e Silva que foi colocado na Universidade com o pretexto de que foi este o ‘fundador’ da instituição (ainda usou do argumento de que ‘cada um tem sua versão da história’).

Desmistificar a imagem

Todos os esforços dos estudantes e de seus representantes foram e são pela democratização da Universidade e contra qualquer tipo de decisão autoritária que seja tomada dentro desta instituição pública de ensino. Como se não bastasse, o acontecimento foi distorcido pelo discurso do direitoso reitor, que utilizou dos argumentos apresentados pelos estudantes para se mostrar como educador e disposto ao debate, o que não tinha sido cedido em nenhum momento antes da ocupação. Os resultados da manifestação, que foram a liberação das festas até que o assunto não seja definitivamente resolvido e uma assembléia entre os estudantes, os docentes, técnicos e o Reitor para que as reivindicações sejam finalmente pautadas foram simplesmente ignorados pelo Jornal da Globo que alegou que ao final do protesto, nada tinha sido resolvido.

Embora a forma pejorativa usada pela mídia ao tratar o movimento estudantil já fosse esperada, a indignação de todos que participaram da mobilização, de forma direta ou indireta e que estão informados sobre a atuação do reitor em exercício foi tremenda. Exigimos agora nosso direito de nos manifestar, nos defender e de utilizarmos os meios de comunicação como desmistificador da imagem que é imposta aos movimentos sociais e como forma de esclarecimento em prol da verdadeira universalização e democratização do ensino público, gratuito, de qualidade e para todos.

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Estudante de Jornalismo, Uberlândia, MG

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