Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Mamãe, quero ser advogado-jornalista-engenheiro-palpiteiro

Por Admilson Veloso em 23/06/2009 na edição 543

‘A profissão não depende de um conhecimento técnico específico. A profissão de jornalista é desprovida de técnicas.’ Com este argumento, a advogada do Sertesp (Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo), Taís Gasparian, justificou a necessidade de se acabar com o diploma de jornalista em votação que aconteceu nesta quarta-feira, 17 de junho, no STF (Supremo Tribunal Federal).

Para conhecimento desta senhora, os estudantes de Jornalismo não passam quatro anos em uma universidade apenas aprendendo técnicas, por isso o curso é de graduação, e não tecnológico. Além disso, se realmente são as técnicas que têm importância, como ela tanto enfatizou para acabar com o nosso diploma, gostaria que ela produzisse, sem nenhuma orientação prévia, apenas três itens da nossa profissão: uma lauda de TV nos moldes tradicionais, onde conste a cabeça, um teaser, offs e a passagem; quero também uma grande reportagem para impresso com, no mínimo, 10 fontes, duas fotos em grande angular, um box e pesquisas de arquivo; e, ainda, um texto para a internet com três hiperlinks de meio de texto. Tudo bem, essas questões podem até ser absorvidas por um advogado, médico, engenheiro ou por alguém que nunca sentou em um banco de uma universidade, mas nenhuma profissão se limita às técnicas. E, durante o meu tempo de redação, que não é tão extenso assim, não encontrei nenhum desses profissionais querendo dizer algo de extrema importância e que não tenha obtido espaço, para chegar a esse nível de querer ocupar a nossa cadeira.

Tentativa de desmoralização

Outro ponto que considero relevante nas discussões realizadas no STF para justificar a extinção do diploma foi a fala do ministro Ricardo Lewandowski: ‘Esse decreto é mais um entulho do autoritarismo da ditadura militar que pretendia controlar as informações e afastar da redação dos veículos os intelectuais e pensadores que trabalhavam de forma isenta.’ Gostaria de informar este cidadão que qualquer pessoa pode escrever em um jornal, desde que tenha conteúdo ou a sua produção seja de interesse público. Se algum intelectual tem interesse em ser jornalista, pode prestar vestibular em uma instituição de ensino superior e cursar Jornalismo. Caso queira escrever periodicamente, em primeira pessoa, pode se tornar colunista. Não há impedimento para a livre expressão só pelo fato de os profissionais serem formados. E tem mais: o papel de um jornalista, a priori, não é emitir opinião, mas informar. Isso não sofre interferência negativa alguma das escolas superiores de comunicação.

Meus caros ministros do STF e demais membros da sociedade brasileira, o que se defendeu, na verdade, com a extinção da exigência do diploma de jornalista no Supremo Tribunal Federal, foi o direito de os magnatas da comunicação no Brasil, em sua maioria políticos, articularem mais facilmente suas tramas, já que os profissionais, geralmente, não são coniventes com determinadas atitudes e acabam demitidos por não concordarem com tais práticas. Essa medida é, em primeiro lugar, uma tentativa de desmoralização da profissão para que a gente não incomode tanto. Gostaria só de saber quais foram os profissionais de Engenharia, Medicina, Direito e demais áreas que queriam/querem tanto ser jornalistas, já que este foi um dos argumentos do STF. Onde estavam eles, que não foram protestar por este direito? Se realmente querem, formem-se jornalistas e não engenheiros, médicos ou seja lá o que for.

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Estudante de Jornalismo, Belo Horizonte, MG

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