Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Manchetes de ontem

Por Monitor de Mídia em 22/08/2006 na edição 395

As rotativas dos jornais giram na velocidade do mundo e as notícias surgem em todos os cantos do globo. É a escolha do editor que vai determinar se os assuntos podem ser resumidos em uma nota, ou se devem tomar grandes proporções, em que uma edição e a simples matéria não são suficientes para a abordagem. Contudo, os assuntos que são destaque não trouxeram muitas novidades.

São os temas de agenda que perduram por um tempo (muitas vezes indeterminado) nos jornais. Este Monitor de Mídia acompanhou alguns dos principais assuntos que ocuparam as páginas dos jornais catarinenses, do período de 1º a 10 de agosto. A questão do diferencial e o aproveitamento íntegro do material de agências também foram analisados neste diagnóstico.

De acordo com o livro Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências (Antônio Hohlfeldt, Luiz Martino e Vera Veiga França), agenda setting é como os meios de comunicação estabelecem a ordem do dia dos assuntos públicos e que acabam se tornando assuntos que a sociedade discute no dia-a-dia.

A hipótese do agenda setting é um tipo de efeito social da mídia que compreende a seleção, disposição e incidência de notícias sobre os temas que o público falará e discutirá. Além do conceito de agenda setting, a escolha das notícias é feita com base em alguns critérios propostos por Mário Erbolato em Técnicas de Codificação em Jornalismo.

A questão não está em falar do mesmo assunto nem em usufruir a mesma fonte (no caso, as agências), mas sim na forma como as informações são transmitidas. Não é culpa dos jornalistas se não há novos dados, mas o leitor está à procura de novidades. Mais ainda, está a procura de uma cobertura variada e de qualidade, o diferencial.

Direto da ilha de Cuba

Saúde de Fidel Castro

A saúde de Fidel Castro começou a ser destaque dos periódicos catarinenses na quarta-feira, 02/08, e não deixou mais de ser tema de matérias, notas e editoriais. Devido à proeminência do envolvido e a expectativa do desfecho, o fato acaba despertando o interesse do público, justificando porque permanece diariamente na mídia. Mesmo não tendo informações novas e concretas, os jornais não deixaram de publicar ao menos uma nota, mostrando que estão acompanhando o caso, o que é bom.

O problema acontece quando, além de não haver novas informações, os periódicos publicam diariamente o mesmo conteúdo, modificando apenas uma ou outra palavra. Foi o que ocorreu com o Diário Catarinense e o Jornal de Santa Catarina que, além de abusarem de material de agência, apresentaram apenas um diferencial: enquanto o DC publicou box com a cronologia da vida de Fidel, o perfil de seu irmão Raúl Castro, opiniões sobre o futuro de Cuba e outras curiosidades (como indicava a cartola), o SANTA publicou apenas uma nota (no caso, o primeiro ou segundo parágrafo da matéria do DC), deixando cada vez mais claro o desinteresse pelo que ocorre fora dos limites blumenauenses.

‘O mistério sobre o real estado de saúde do presidente de Cuba, Fidel Castro, continua. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, não foram divulgadas informações concretas sobre a situação do ditador, que se submeteu, na segunda-feira, a uma cirurgia de emergência no intestino e transferiu o poder, temporariamente, ao irmão Raúl Castro.’ (Este parágrafo foi utilizado por 4 vezes em 2 dias consecutivos (03/08 e 04/08) nos periódicos Diário Catarinense e Jornal de Santa Catarina, sendo que no dia 04/08, a palavra ‘segundo’ foi substituída por ‘terceiro’).

O AN destacou o estado de saúde do líder cubano no dia 02/08, quando ‘a bomba explodiu’. Depois disso, devido à falta de novas informações, continuou no assunto ‘Cuba’ e ‘Fidel’, porém, recorrendo a outros temas (política, principalmente) relacionados ao país e ao líder. Cobertura como esta é um exemplo de leitura que não se torna maçante ou repetitiva, ainda que o assunto gire em torno da mesma pessoa. Saber usar de um fato para explorar outros é um artifício que deve ser usado, principalmente quando a cobertura se trata de algo ‘misterioso’, em que elementos concretos não são revelados com a freqüência esperada.

Munição de agências e o diferencial dos jornais na guerra

Conflito no Oriente Médio

As questões do Oriente Médio ocupam uma cadeira cativa nas editorias de assuntos internacionais em todas as mídias. Com a intensificação do conflito entre o Hizbollah e Israelenses, o mundo acompanha a destruição e as mortes no ritmo das informações apresentadas. O impacto e as conseqüências do conflito são de interesse público mundial (movido pela expectativa) por suas proporções, por isso, acabam repercutindo em toda a mídia. Os periódicos usaram e publicaram as informações que tinham na disputa do espaço editorial, cada qual com uma estratégia para atingir o seu público alvo. Alguns acertaram, outros ficaram escondidos nas trincheiras das agências de notícias.

Durante o período analisado, O Jornal de Santa Catarina utilizou, em todas as edições, material de agência neste tema. Em pequenas notas nos cantos das páginas ou em matérias não maiores que meia página, o Santa apresentou informações que contabilizavam mortos e descreviam ações. Na edição conjunta, 5-6/8, além de matéria de agência, o jornal estampou foto-destaque do conflito na capa e uma entrevista de duas páginas com um casal libanês-cristão, moradores de Blumenau. Para o Santa, transpareceu que Blumenau é bem longe dos conflitos.

A Notícia, além do material de agência, buscou o diferencial com o desdobramento nacional do caso. Em sua edição do dia 2/8, o jornal publicou o aumento da oferta de vôos para os brasileiros saírem da região (‘Empresa aérea faz oferta para trazer brasileiros’) e as manifestações da comunidade libanesa no Brasil (Comunidade participa de manifesto). Em 6/8, o AN apresentou matéria assinada por Eduardo Salgado, da Agência Estado/Beirute. Nesse dia, além das informações da região do conflito, a edição trouxe o desdobramento pelo mundo. O AN buscou aproximar seus leitores do conflito.

Desde o primeiro dia analisado, o Diário Catarinense apresentou grande quantidade de material de agência e as palavras de Rodrigo Lopes, enviado especial da Agência RBS. O correspondente trouxe para o jornal o diferencial com a ambientação do local, em que narrou de forma detalhada como está a vida no Oriente Médio durante a guerra. Em sua edição de 2/8, o DC também fez a ligação entre o conflito e a queda de exportações catarinenses para o Líbano (‘SC exporta menos para o Líbano’). No dia 5/8, o casal libanês-cristão que vive em Blumenau ganhou um box que acompanhava matérias de agência. No dia 6/8, em reportagem especial de duas páginas (‘Nos dois fronts da guerra’), o jornal mostrou os passos, medos e problemas enfrentados por Rodrigo Lopes e equipe pela região de conflitos durante a cobertura. O infográfico ‘Para entender esta guerra’ fez uma retrospectiva dos motivos e envolvidos do conflito, na edição de 8/8. Nessa o DC, além de trazer informações diversificadas, levou o leitor para os campos do conflito e se destacou entre os demais periódicos catarinenses.

Mesmo sem correspondentes, a cobertura oferecida pelo DC poderia estar nas outras publicações – se o conflito é distante, o leitor precisa ainda mais de referências para compreender o que lê.

Enquanto isso, em Brasília

CPI das Sanguessugas

Entre as muitas Comissões Parlamentares de Inquérito de Brasília, a pauta da vez para os jornais é o julgamento do desvio de dinheiro para a compra de ambulâncias e gastos com a saúde. A CPI das Sanguessugas é um tema de projeção nacional, interesse geral da população e com ilustres envolvidos, o que a coloca na agenda dos jornais. Para ir além da cobertura de gabinete e fugir da monotonia que a política pode se tornar, é importante que as publicações contextualizem os temas e os personagens.

Com grande quantidade de material de Brasília, A Notícia publicou ao longo do período analisado os movimentos e depoimentos da CPI. Cláudio Prisco, em sua coluna Canal Aberto, focou o quadro político catarinense, sem mencionar relações de figuras catarinenses com as questões discutidas no Planalto Central. No dia 4/8, o jornal publicou ‘Prefeito aponta ‘sanguessugas’ em Canoinhas’, aproximando o caso à realidade catarinense.

O Jornal de Santa Catarina alternou entre matérias e notas sobre a CPI das Sanguessugas utilizando o material de agência para relatar o movimento dos políticos envolvidos. Na edição conjunta de 5-6/8, publicou ‘Igreja mantém apoio a Adelor até sair a lista’, nota creditada de Joinville. No dia 8/8, nada sobre a CPI constava no jornal. No dia seguinte, o assunto novamente apareceu nas páginas do Santa, apoiado em material de agência.

O Diário Catarinense, além do material de agência, aproveitou os enviados para a cobertura da CPI das Sanguessugas. Klécio Santos assinou notas nos dias 1º, 2 e 5/8, que aprofundavam e explicavam as ações políticas. Já Fábio Schaffner assinou entrevista com o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), no dia 3/8. Na edição de 8/8, o desdobramento com políticos de Mafra foi assinado por Diego Rasa. Em 4/8, o DC trouxe o box ‘Investigações’, com a explicação e cronologia do caso. Ressalvas importantes feitas pelo jornal, que ajudam na compreensão e aproximam a realidade do leitor ao caso.

Escassez de fontes

Seca em Santa Catarina

A seca continua castigando vários municípios catarinenses. Prejuízos na agricultura e no turismo, além da falta de água potável para a população são alguns dos agravantes da estiagem. O frio, os ventos fortes e a chuva de granizo que ocorreram na sexta (29/7) aumentaram os prejuízos e não amenizaram a seca. Matérias parecidas nos três jornais foram observadas neste período, e quase todas eram de agência.

Os jornais devem dedicar espaço à estiagem por ser um fato que têm três critérios jornalísticos importantes: a prestação de serviço público, um instrumento de auxílio à comunidade. A proximidade, isto é, ocorre próximo do leitor e conseqüentemente o interessa; e relevância social, ou seja, é relevante socialmente para alguma parcela da população, como os agricultores, as pessoas que não têm da onde retirar a água para tomar banho e cozinhar e as que dependem economicamente do turismo (como no caso da Represa de Volta Grande que sobrevive da pesca, ou de Ibirama que sobrevive do rafting). 

O Jornal de Santa Catarina deixou a desejar, dando uma cobertura superficial e com matérias curtas. Lembrando que é um jornal que abrange o Vale do Itajaí, que está muito castigado pela seca, deu pouco destaque à região. No dia 5/8, o Santa publicou matéria semelhante a que saiu no mesmo dia no Diário Catarinense, sob o mesmo título: ‘Chuvas não são escassas, apenas mal distribuídas’, proveniente da Agência RBS. No DC, as matérias eram um parágrafo ou dois mais extensos e contavam com recursos de infográfico, com as médias anuais de chuvas e com uma foto, que não foram publicados no Santa. No dia 10/8, a matéria ‘Estiagem favorece queimadas’ mostrou três incêndios em vegetação que ocorreram em Blumenau, além de 205 focos de incêndio na cidade. Contudo, a matéria do periódico blumenauense é de agência.

A Notícia trouxe matérias mais extensas e completas. Em 3/8, o jornal publicou: ‘Falta água para beber e cozinhar no Planalto Norte’. No dia seguinte, apresentou: ‘Represa seca e prejudica turismo’, sobre a Represa de Volta Grande, Rio Negrinho, que tem a pesca como o atrativo da região. Em 10/8, foi chamada de capa: ‘Pedras no lugar de água’ fazendo referência ao Rio Preto, no meio-oeste. O AN procurou situar e mostrar ao leitor o impacto da estiagem nos diversos municípios catarinenses.

O Diário Catarinense foi o mediador. Com matérias nem tão profundas, nem tão superficiais, em que acompanhou a estiagem nos municípios. No dia 4/8, o DC noticiou: ‘Fogo destrói mata na Serra do Tabuleiro’, onde a estiagem causou queimadas no Parque localizado em Palhoça.

Os três periódicos apresentaram de forma parecida, no mesmo dia (1º/8), as matérias sobre o temporal no oeste do estado, mas que não aliviou a seca em: ‘Chuva não ajuda muito’ (Santa), ‘Temporal não resolve o problema da falta de água no interior’ (destaque no AN) e ‘Chuva só ameniza a estiagem’ (DC).

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