Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO >

Mídia e ativismo político

Por Stela Tsirakis, Flora Fernandes e Juliana Migwoski em 28/04/2006 na edição 346

O Grupo do TJ.UFRJ, formado por alunos de graduação da Escola de Comunicação da UFRJ, é responsável pela cobertura do evento Mídia da Crise ou Crise da Mídia?. Equipe de cobertura no segundo dia de evento: Fabíola Ortiz, Juliana Migowski, Flora Fernandes e Stela Tsirakis.

O midiativismo, utilização da mídia e suas linguagens como forma de ativismo político e estético, foi tema da segunda mesa desta quarta-feira (26/4) no seminário Mídia da Crise ou Crise da Mídia?. O debate contou com a presença de Raul Sanchez (Universidad Nomada de Madrid, Espanha); Geo Brito (Centro de Teatro do Oprimido e Universidade Nômade); Wallace Hermann (Rádios Comunitárias e PontoComSaúde); Giuliano Bonorandi (Ação Cultural Digital e Rádio Interferência) e a mediadora Tatiana Roque (Rede Universidade Nômade e professora da UFRJ).


Os palestrantes apontaram possibilidades de se implementar uma comunicação mais democrática, a fim de gerar um maior potencial crítico nos indivíduos envolvidos no processo comunicativo. Foi frisada a importância das mídias digitais – como, por exemplo, celulares, internet e rádios livres – como facilitadores técnicos da transformação do receptor em emissor.


Raul Sanchez relacionou o pluralismo da comunicação – alcançado graças às novas tecnologias e ao desenvolvimento técnico – ao rede-ativismo, citando o atentado aos trens de Madrid, em 2004, como exemplo. Na ocasião, a rápida difusão de informações sobre o atentado através dos celulares foi analisada como uma forma de resistência generalizada, opositora às primeiras versões do governo para o atentado. Segundo o espanhol, o midiativismo é uma forma de contra-poder democrática e entrou numa segunda fase após o atentado.


Em seguida, foi lida uma carta de Franco Berardi (Rekombinant e Universidade de Bolonha, Itália) – que não pôde comparecer –, na qual ele expôs a necessidade de se ‘sabotar o domínio da mídia’. Berardi abordou ainda aspectos históricos do midiativismo, que teria nascido da contra-informação e da denúncia de poder.


Geo Brito explicou aos presentes no seminário o que é o Teatro do Oprimido, organização da qual faz parte e que existe há 25 anos. Segundo ele, a função principal do Teatro é proporcionar a possibilidade de expressão para os excluídos dos novos canais oferecidos pela internet – e mesmo das mídias tradicionais –, levando uma metodologia, que, associada à realidade de moradores de favelas, presidiários e tantos outros excluídos, proporciona a transformação destas pessoas.


Giuliano Bonorandi questionou o fato de apenas nove famílias comandarem e concentrarem toda a comunicação do país. Ao mesmo tempo em que caracteriza a atuação das rádios livres como ilegal, já que elas não têm concessão, ele argumenta que não considera ilícita sua atividade na Rádio Interferência, alegando que tais tipos de rádio ocupam um espaço ‘que lhes é roubado’.


Wallace Hermann surpreendeu a todos com sua forma inusitada de expor: no lugar em que deveria estar sentado na mesa do seminário, estava um rádio, por onde transmitiu sua palestra. Hermann enfatizou a necessidade de democratização dos meios de comunicação, para promover a inclusão social. Ele falou sobre a rádio digital e lembrou que ela já está sendo testada utilizando o modelo americano, que possui alta definição, mas comporta um número reduzido de emissoras. O palestrante também questionou o emprego deste sistema denunciando o fato de ele, além de ser importado, ser também menos democrático que outros.


A discussão apresentada por esta mesa mostrou visões diferentes sobre o que é midiativismo, como ele pode se manifestar e de quais mídias pode se apropriar. Entretanto todos os palestrantes concordaram em dois pontos: a primeira é que a mídia ativista não deve ambicionar ser mídia de massa; seu papel é apresentar-se como alternativa. E o segundo ponto é que o midiativismo é a forma mais contemporânea e, talvez a mais eficaz, de ativismo – seja ele político ou cultural.



 


O negro na mídia


Fabíola Ortiz e Juliana Migowski


Na segunda mesa desta quinta-feira (27/4), foi discutido como são abordados e polemizados, na grande mídia, temas como a reserva de cotas para negros e a discriminação racial. Participaram do debate integrantes de movimentos sociais e atuantes na área de direitos humanos, comunicação e inclusão social.


Alexandre Nascimento, representante do Pré-Vestibular para Negros e Carentes e da Rede Universidade Nômade, analisou a questão polêmica da reserva de cotas nas universidades. Nascimento destacou a diferença entre ação afirmativa, conjunto de políticas públicas e institucionais para garantir o acesso de grupos historicamente discriminados, e a política de cotas, que seria apenas uma medida possível de ação afirmativa. Segundo ele, o conceito de ação afirmativa é mais antigo que o termo. Entretanto, o debate teria se tornado mais intenso a partir dos anos 90, com a Marcha de Zumbi de Palmares realizada em Brasília, em 1995, e a proliferação de pré-vestibulares para negros e carentes. Sobre a repercussão do movimento nos meios de comunicação, considerou o debate injusto, citando um estudo no qual foram identificados 27 artigos e editorias contra as cotas e apenas 14 a favor, no período entre 2002 a 2004, no O Globo. Em relação àqueles que discordam da política de cotas pela dificuldade de se estabelecer quem é negro ou não, ele alegou que, ‘durante uma blitz, nenhum policial tem dúvida de quem é ou não negro’.


O professor da UFF Julio César Tavares afirmou que a mídia é a principal detentora da visão hegemônica do mundo. Segundo Tavares, ‘estamos vivendo uma época de transição, da democracia racial para uma ditadura racial’. Como nenhuma ditadura se assume como tal, seria preciso buscar sua origem e aí reside justamente, segundo Tavares, o maior erro de alguns antropólogos – não identificar a etnogênese. O professor rechaçou o argumento de alguns opositores da política de cotas, que afirmam que a medida criaria a figura jurídica do negro. Na verdade, as cotas ratificariam algo já existente, da mesma forma como a Lei Áurea não criou a escravidão.


O cineasta Jeferson De, do Movimento Dogma Feijoada, discutiu a imagem do negro veiculada no cinema nacional. Para ele, a juventude negra aparece sempre com uma arma e interpretando papéis de negros pobres ou escravos (em telenovelas de época). A razão disso seria o perfil do cineasta brasileiro: branco, de classe média alta, geralmente com nível superior, heterossexual. O cineasta destacou assim a diferença entre filme de negro (ainda raro no Brasil) e filme que aborda o negro (muito comum no país).


Edson Cardoso apresentou o jornal Irohín, distribuído gratuitamente e cuja linha editorial pauta-se na luta contra o racismo. Seu grande desafio é a sustentabilidade, estando previsto para novembro deste ano o início de assinaturas pagas, transformando a ONG em empresa. Cardoso afirmou que sua principal preocupação está em fazer uma imprensa alternativa, com um ponto de vista diverso dos grandes meios de comunicação, ao invés de monitorá-los.


Márcio Alexandre, um dos criadores da revista eletrônica Afirma, que dá um enfoque jornalístico à questão negra, declarou que nos acostumamos com o negro em determinados espaços e nos incomodamos se os vemos em posições diferentes. Segundo ele, seria preciso constituir uma nova estrutura, com novos elementos e não se deveria falar em inclusão, pois isso pressupõe a permanência de excluídos.

 

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