Segunda-feira, 24 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº950

DIRETóRIO ACADêMICO > JORNALISMO COLABORATIVO

Modelo não ameaça exercício da profissão

Por Isabelle Anchieta de Melo em 09/10/2007 na edição 454

O chamado jornalismo colaborativo, que se refere à produção de imagem e texto por pessoas comuns divulgada em sites especializados, não ameaça a existência da profissão do jornalista. O nascimento dessa forma de produção coletiva do saber surge motivado pela emergência das novas tecnologias e do modelo em rede. O que implica dizer que o acesso portátil, sem fio e leve das tecnologias, como câmeras digitais, celulares, computadores móveis etc., além da acessibilidade econômica dos aparelhos, produziu esse efeito. Assim, as pessoas passam a ter acesso aos instrumentos técnicos para registro do real. O que implica também em uma mudança cognitiva, ou seja, em uma mudança na forma de compreender e pensar a realidade.

Hoje, a informação não é mais centralizada em uma autoridade, mas torna-se descentralizada. Assim, não se trata mais da imposição de uma verdade, mas da apresentação das múltiplas faces do real. Surge, assim, uma série de sites que trabalham com essa lógica, sendo o Wikipédia, a enciclopédia livre, o melhor exemplo. Trata-se de uma enciclopédia virtual em que as informações sobre a palavra são forjadas em conjunto. Cada pessoa pode contribuir para levantar informações sobre o assunto. Assunto esse que pode ser atualizado diariamente, ao contrário do que ocorre com as enciclopédias impressas. O que o teórico Pierre Lévy denominou de ‘plasmopédia’, no sentido em que o conhecimento torna-se vivo, em fluxo constante.

Nasce o jornalista

Se antes o conhecimento tinha um ‘prazo de validade maior’ e era centralizado nas mãos de alguns (mestres e doutores do conhecimento), hoje, contrariamente, presenciamos um conhecimento volátil, efêmero e produzido de forma coletiva.

É nesse espaço, em que o conhecimento se torna um fluxo ininterrupto e em rede, que assistimos à emergência do jornalismo colaborativo. Porém, sua chegada está sendo marcada, equivocadamente, por previsões catastróficas quanto à profissão do jornalista. No entanto, há um recurso muito rico quando estamos diante de algo novo, que é, paradoxalmente, voltar ao passado [STEPHENS, MITCHELL. Uma História das Comunicações: dos tantãs aos satélites. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993].

Antes mesmo dos jornais impressos (que se consolidam no século 17) e do estabelecimento do jornalista como profissional, existiam outras formas de divulgar a informação. As novidades circulavam na forma oral e todos eram passíveis de divulgar um fato. Dessa forma, todos ‘colaboravam’ para a circulação da informação. No entanto, a inexatidão das mensagens e a falta de comprovação dos fatos forma, paulatinamente, a figura que hoje conhecemos por jornalista. E é a própria sociedade que demanda um maior cuidado na apuração dos fatos – o que implica o domínio de certos métodos e técnicas de observação que nem todos eram capazes de dominar.

Formação superior

Nesse momento, surgem pessoas que são escolhidas para relatar os acontecimentos. São eles chamados de mensageiros, apregoadores e trovadores. Os mensageiros eram controlados por reis e líderes e garantiam a apuração e a seleção das notícias. Os apregoadores, por sua vez, eram mensageiros performáticos – além de gritarem as notícias, gesticulavam de forma espetacular. Já os trovadores transformavam, literalmente, os acontecimentos, em músicas.

A passagem dos ‘boateiros’ aos ‘mensageiros’ marca o início do desenvolvimento de um modo de observar o real que será efetivamente consolidado como área profissional e como profissão no século 17 – quando o próprio termo ‘jornalista’ aparece pela primeira vez. Com a profissionalização é que seria criada, também, uma série de técnicas jornalísticas, hoje consagradas, como o lead e a pirâmide invertida, além das noções de imparcialidade e objetividade. Assim, o ‘jornalista’ é resultado de um longo processo histórico para forjar pessoas capazes de selecionar da realidade atual o que deve ser conhecido.

E para se configurar como uma profissão, o jornalismo passa a atender, então, a dois pressupostos: possui um conjunto de conhecimentos esotéricos ou específicos e é reconhecido socialmente. Ou seja, a sociedade delega e confia naquele profissional como o único capaz de produzir conhecimento crível [SOLOSKI, John. O jornalismo e o profissionalismo. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e ‘estórias’. Lisboa: Veja, 1993]. O que implica, por fim, a institucionalização do jornalismo como área de conhecimento tendo como conseqüência a exigência de uma formação superior.

Seleção e hierarquização

Portanto, o jornalismo colaborativo possui, sim, uma rede de ‘informantes’ e ‘colaboradores’, mas não de ‘jornalistas’. Pois, mesmo os veículos especializados em jornalismo colaborativo possuem jornalistas que irão filtrar e apurar a veracidade das informações que lhes são repassadas. O que se tem, então, é uma rede maior de pessoas que produzem informação e imagens, o que não implica dizer que temos um número maior de jornalistas – que devem, sim, ter uma formação humanística e técnica consolidada – dada a sua responsabilidade social na divulgação das informações.

Podemos dizer que assistimos, hoje, a uma rica interação entre jornalistas e público, e não, como querem alguns, uma concorrência entre eles. Pois, tanto os jornalistas recebem mais informações, como o público consegue dar visibilidade a questões do seu interesse mais próximo e imediato. Falta, ao meu entender, uma abordagem mais equilibrada da questão que perceba as matizes, as hibridações e inter-relações que são constituídas e não apenas em uma perspectiva de concorrência e supremacia de uma esfera a outra. Não há, ao meu ver, quem sai ou quem fica no processo, quem perde ou ganha, pois se trata de uma troca. Uma troca, porém, em que há, sim, papéis distintos e que são ricos exatamente por serem distintos.

Os jornalistas ganham, nessa relação, ainda mais relevância na e para a sociedade de comunicação generalizada. Pois hoje, frente ao tsunami de informações, temos cada vez mais necessidade de ‘selecionadores’ ou ‘buscadores’ de informação (o que explica, em parte, o sucesso do Google). Assim, os jornalistas funcionariam como ‘googles’, selecionando e hierarquizando, do conjunto de informações existentes, aquelas que merecem destaque. São profissionais munidos de técnicas e capazes de identificarem o valor da notícia (ou os valores-notícia). Mais do que o fim do jornalismo, vamos assistir, agora, à sua consolidação e valorização na organização e seleção de acontecimentos publicamente relevantes.

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Mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisadora pela mesma instituição no grupo ‘Jornalismo, Cognição e Realidade’, professora de Teorias da Comunicação, de Estudos Avançados em Comunicação e Teorias do Jornalismo no Centro Universitário Newton Paiva

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