Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > PAULO PATARRA (1933-2008)

Morreu um Homo sapiens sapiens

Por Mylton Severiano em 04/02/2008 na edição 471

Revista Realidade, já ouviu falar? De meados da última década para cá, jornalistas da novíssima geração, professores das escolas de comunicações e, em conseqüência, formandos – gente nascida, portanto, depois que Realidade deixou de circular –, redescobriram a revista cult da Editora Abril. Para nós, sobreviventes daquela redação, o termômetro desse interesse vem sendo a crescente e constante procura anual de estudantes, empenhados em nos entrevistar para produzir seus TCCs, Trabalhos de Conclusão de Curso, mestrados e doutorados. Pois acaba de morrer, aos 74 anos, a 21 de janeiro de 2008, o principal responsável pela existência e pela fórmula do sucesso até hoje irrepetível de Realidade: meu muito querido amigo Paulo Patarra, o P. Pat.

Já foi bem sintomática de seu caráter a circunstância em que conheci Paulo, que a maioria de nós chamava de Paulinho pela aparente fragilidade física. Aparente porque precisa ter compleição física digna de estudos científicos para viver 74 anos com a tresloucada existência que ele levou – basta dizer que fumou desbragadamente desde os 12 anos, que por volta dos 40 seu pâncreas, encharcado de álcool, pifou e (por incrível que pareça, foi dado como recuperado mais tarde) que aos 72 o câncer de garganta lhe levou a laringe com cordas vocais e tudo.

Uma conjunção astral

Indicado por outro amigo, apresentei-me a ele na redação da Quatro Rodas, no prédio antigo da Abril, na rua João Adolfo, a 50 passos do Anhangabaú, centro de São Paulo. Estamos no início de junho de 1964, dois meses depois do golpe militar. Paulinho me oferece uma vaga de redator e pergunta quanto ganho na Folha de S.Paulo, onde trabalho como subeditor de política. Ganho 60.000 cruzeiros. Ele me diz que dispõe de 280.000 para o cargo, mas que em dois ou três meses passarei a ganhar 300.000. Aceitei fazendo força para não demonstrar a euforia – e certo espanto: o normal seria o sujeito regatear, dizer que 60.000 não poderia pagar, mas logo acertaria etc. etc. Só que eu não estava diante de um profissional nem de um ser humano ‘normal’. Avaliando quase meio século depois, aquele colega sete anos mais velho, eu com 23 anos, ele com 30, aquele momento marcava uma inflexão crucial no histórico de nossas vidas.

É preciso fazer justiça ao dono da Editora Abril, Victor Civita. Pagava os melhores salários do país e absolutamente em dia: jornalista deixava de viver de ‘bicos’. Além disso, Victor Civita ousou apostar um monte de fichas naquele bando de jovens por vezes intratáveis. Realidade aconteceu como certas reações químicas evoluem para além do que previa o cientista, feitiço que ganha vida própria aos olhos maravilhados do aprendiz de feiticeiro – fomos nos juntando, escalados pelo Paulo, bem escorado na eminência parda chamada Sérgio de Souza, e eis que, em plena ditadura militar, uma conjunção astral reúne aquela plêiade, responsável por uma publicação que entrou para a história do jornalismo brasileiro num lugar bem destacado, no topo do quesito ‘revistas’.

Única mulher durante aquela loucura

Em abril de 2007, Paulinho enviou à redação da Caros Amigos alguns pacotes para várias pessoas, um deles com bilhete endereçado não a Myltainho, como me chamam, mas pela redução Tainho. Depois de quase um ano, reabro a caixinha de papelão. O bilhete diz:’Tainho-de-todos-os-céus, achei uns troços de Realidade que aí vão. Câncer é foda, mas tô firme. Ele pode me matar (acho que vai), mas derrubar… NUNCA! Te amo! P. Pat 2.4.07. PS – Tou na quimioterapia. Deu puta metástase, o filho da puta.’ Noutro bilhete, em que me chama de Myltão Severianinho, confessa:’A Vera Brisola – a Verinha! – foi a única mulher que tive, mesmo!, nos tempos da Realidade.’ Vera gostará de ler isto.

Paulinho anexou um bilhetinho manuscrito de Vera, carinhoso como uma mulher apaixonada, em que ela o chama de ‘vencedor único do concurso internacional de resistência trabalhesca’. A gente trabalhava demais, principalmente nos dias de fechamento de cadernos da revista. E Paulinho trabalhava mais que nós todos juntos: ele ainda exercia o cargo de amortecedor entre o patrão e a turbulenta equipe.

Por que Realidade incomodava?

Pena que no meio do caminho tinha uma ditadura militar. Depois que a revista quebrou recordes de venda, que foi espionada pelas concorrentes, que deu prêmios à equipe, que virou revista cultuada em vida, certo dia a Editora Abril destitui Paulo da direção de redação. Corre 1968, outubro. Capa do mês: Che Guevara, morto um ano antes na Bolívia. Publicamos seus diários de campanha, inéditos aqui. Recebemos de chofre, ao chegar do almoço, a notícia de que Paulinho seria ‘promovido’ a diretor de projetos especiais. Promovido pra baixo.

A equipe original, revoltada com o novo diretor de redação inicialmente designado, Alessandro Porro – que não respeitávamos nem como gente nem como profissional – pede demissão quase coletiva – 11 de uma vez. Entre outros ‘feitos’, Porro havia escrito para um jornal italiano, sem sair de São Paulo, o texto Ho Visto Guevara Morto – Vi Guevara Morto)… Em dezembro, sexta-feira 13, os golpistas de 1964 baixam o Ato Institucional 5, o famigerado AI-5, que dá à ditadura militar poderes de vida e morte sobre todo e qualquer brasileiro. Então, entendemos: Realidade incomodava, a Abril devia estar sofrendo pressões inimagináveis. E por que Realidade incomodava? Porque fazia jornalismo. Se não incomoda, não é jornalismo.

Um belo exemplar de homem

Ele era desprovido de apego a bens materiais, como um Gandhi. Quando penso em Paulinho, penso na palavra ‘amor’. Quase meio século atrás, descobrimos encantados o significado e o valor da amizade, ou ‘fraternura’, para usar o termo de Frei Betto. Uma sensação gostosa perpassava todos quantos trabalhávamos naquela redação. Irmandade.

Emanava da salinha na entrada, de porta sempre aberta. Num tempo em que homem beijar homem não era bem visto, Paulinho inventou esta audácia: ‘Por que um amigo não pode beijar outro?’ E os mais atrevidos passamos a nos beijar em público quando nos encontrávamos depois de muitos dias de ausência. Nos fazia bem esta que também era uma provocação aos ‘caretas’. Nos acrescentava algo que nos tornava mais completos como homens. E como reconhecer um homem de verdade? Um belo exemplar de Homo sapiens sapiens? Basta ter conhecido P. Pat.

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Jornalista e editor-executivo da revista Caros Amigos

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