Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

‘Não há campo para romantismos’

Por Pedro Santos em 02/09/2008 na edição 501

Dos trinta e quatro anos dedicados ao Jornalismo, Fausto Macedo concluiu, entre outras coisas, que o repórter tem que estar na rua, presente no local, conhecendo pessoalmente os envolvidos e olhando nos olhos do entrevistado. Mas não deve se envolver com a fonte. Para ele – que já trabalhou no Jornal da Tarde e em O Pasquim e agora é repórter de política de O Estado de S. Paulo –, esse envolvimento deve ser estritamente profissional. Principalmente porque a fonte também tem interesse no jornalista.

Em conversa por telefone, Fausto declara com convicção: ‘Não nos cabe fazer juízo de valor, nos cabe apenas informar.’

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Vivemos hoje um jornalismo político mais baseado em declarações oficiais do que em pesquisa, imersão, aprofundamento. O senhor mesmo disse, em outras entrevistas, que são raros os repórteres que têm coragem em assumir uma denúncia. Como chegamos a esse ponto?

Fausto Macedo – Um dos motivos é a indústria da indenização. Os processos são realizados não exatamente contra o repórter, mas contra o jornal para o qual ele trabalha. E isso provoca um recuo das redações, intimida. É um dos motivos desse jornalismo declaratório. Um senador vai à tribuna e denuncia corrupção em algum órgão. Fica mais cômodo para o jornal pegar as aspas e colocá-las no papel. De dez anos para cá essa indústria da indenização se fortaleceu.

Por sua experiência, como o repórter deve lidar quando se depara com interesses políticos que nem sempre estão explícitos?

F.M. – A maior parte dos grupos de comunicação são empresas, têm interesses políticos. Nós, repórteres, trabalhamos de acordo com a linha editorial defendida pelo jornal. É o interesse empresarial, diferente da censura que exercia a Polícia Federal nos anos 70. Ali você sabia exatamente que era o censor que chegava à redação ali por volta das cinco da tarde, pegava os textos e cortava o que achava que tinha que cortar. Era a censura do regime que a gente atravessava naquela época. Hoje é o regime empresarial, uma censura mal-disfarçada. Você vai falar mal de fulano, que é uma empresa anunciante do jornal? Raramente você vai poder fazer isso. A realidade é doída, mas é assim mesmo. Não há campo mais para romantismos, sabe? Para dizer que a imprensa é absolutamente livre. Não é! O fato é que não é.

Jornalismo político não tem apego

Existe alguma margem de manobra do repórter para driblar esse interesse político superior, do patrão?

F.M. – Tem gente que está tentando. Nossa profissão é essencialmente social, preocupada em informar. Quando a gente corre atrás de uma informação, é um serviço para o público, e não um motivo espúrio. Ainda outro dia eu estava discutindo com um desembargador e cobrei dele a quem interessa o sigilo de informação sobre esses casos mais rumorosos, como Operação Satiagraha, Operação Santa Teresa. Até houve o episódio de uma colega nossa, da Folha de S.Paulo, que fez nada mais nada menos que dar um furo de reportagem. Ela publicou, no dia 28 de abril, que existia uma investigação contra Daniel Dantas. Para a Polícia Federal, a reportagem foi criminosa. Até nisso a gente corre o risco de ser enquadrado por um delegado que acha que, ao publicar a reportagem, havia interesse em avisar a tal da organização criminosa. Na verdade, no dia-a-dia a gente vai tentando driblar essa pressão interna, dos veículos, e externa, que vem das ações. Hoje em dia, a grande maioria das ações contra a reportagem é por meio de queixa-crime, com base na Lei de Imprensa. E buscando a indenização por danos morais. Isso provoca a intimidação nas redações.

O senhor acredita que de modo geral as pessoas vêem o jornalismo político fora do cotidiano delas e preferem ler outros cadernos, como o de cultura e o esportivo?

F.M. – Eu acredito que sim. Não posso dizer que o jornalismo político seja rejeitado, mas não tem o apego que devia ter ao leitor. Eles preferem mesmo outros cadernos, o de Cultura, de Esportes, o noticiário policial, que têm apelo. Pelo descrédito que vive a política, o leitor não se interessa pelo que devia se interessar.

Repórter tem que entender que é funcionário

E como fazer para mostrar para as pessoas que a política vai além dos anos de eleição, da festa partidária, dos presentinhos dos políticos?

F.M. – Não pode realmente ficar naquele jornalismo declaratório idiota, de ir ao Congresso pegar a mera declaração de político. Tem que buscar formas de captar o leitor. E publicar com precauções. Mesmo porque nós não somos juízes, somos repórteres. Não temos o direito de julgar ninguém, não temos o direito de nos apaixonar por uma fonte ou de odiar um investigado. Por pior que seja o investigado, por mais flagrante que seja o envolvimento desse investigado em um caso de corrupção, não nos cabe fazer juízo de valor. Nos cabe apenas informar.

O senhor está defendendo um tipo de neutralidade ou é mais respeito à fonte?

F.M. – Neutralidade. Quando digo que o repórter não deve se apaixonar pela fonte é que ele não deve ir com muita sede ao pote. Porque a fonte também tem interesses.

Certa vez o senhor disse que seus piores momentos profissionais eram quando suas matérias eram engavetadas inexplicavelmente. Como a empresa jornalística, como O Estado de S. Paulo, influencia na produção das pautas para a editoria de política?

F.M. – Aí depende da área de atuação. Você recebe a pauta e vai fazer a matéria. É nessa apuração do dia-a-dia que você esbarra às vezes em algum tema que ou não é de interesse do jornal ou atinge alguém das relações da empresa. Isso é muito comum nos veículos de informação, não só o Estadão, mas a Folha, O Globo. Em qualquer veículo de comunicação é assim. Há casos em que logo no começo da apuração você já recebe a orientação do que não interessa para o jornal. O repórter tem que se conformar, tem que entender que é funcionário da empresa. Nós não temos essa liberdade que as pessoas de fora do nosso meio imaginam que existe. Ainda assim, apesar das amarras e das limitações por interesses políticos dos patrões, há empresas que fazem um bom trabalho, de altíssima qualidade.

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Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

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