Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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No Mínimo

12/12/2005 na edição 359


INTERNET
Vitor Sznejder


A internet dos bilhões, 9/12/05


‘O crescimento do comércio eletrônico (e-commerce) tem sido exponencial no Brasil, chegando a 100% ao ano em alguns setores, como educação e turismo, e a 30% na média do mercado. Segundo a empresa de pesquisas e-bit, o faturamento das lojas virtuais em 2002 foi de R$ 850 milhões, de R$ 1,2 bilhão em 2003, de R$ 1,7 bilhão em 2004 e a expectativa é de 2005 feche em R$ 2,3 bilhões.


E o presente, já muito bom, anuncia um futuro ainda mais promissor. Segundo estimativas da Forrester Reseach, haverá 30 milhões de compradores na Internet brasileira em 2010, e o faturamento do comércio eletrônico poderá atingir, então, cerca de R$ 13 bilhões.


Um exemplo da pujança atual: em julho, 11 empresas participaram de uma promoção organizada pela Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico: Americanas, Extra, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Magazine Luiza, Marisa, Shoptime, Siciliano, Som Livre, Submarino e Tok&Stok faturaram R$ 25 milhões nessa LiquidaWeb – o que representou um crescimento de 77% sobre idêntica promoção realizada em 2004.


‘Geralmente, dá certo’


Existem cerca de 32 milhões de internautas no Brasil. As classes sócio-econômicas A/B acessam a Internet mais freqüentemente de casa, mas locais públicos – como telecentros, cibercafés, trabalho e escola – servem de ponto de partida para 58% dos internautas. Os chamados e-consumidores, então, ainda não passam de 4 milhões. A maioria tem entre 25 e 49 anos e 58% são homens. O gasto médio por compra é de R$ 300 e os produtos mais procurados são os CDs, DVDs e vídeos, seguidos de perto pelos livros, revistas e jornais e, em menor volume, pelos produtos eletrônicos.


Segundo os especialistas, a expansão da base de e-consumidores depende fundamentalmente da implantação do programa ‘PC Conectado’, do Governo Federal, o que facilitará o acesso dos brasileiros de baixa renda ao comércio eletrônico.


Outras condições para o crescimento das compras virtuais, especialmente na área de supermercados, foram mapeadas numa dissertação apresentada à PUC do Rio pela mestranda Carolina Linden. Entre elas, o aumento da confiança na utilização dos cartões de crédito e o crescimento das compras de gêneros alimentícios perecíveis em supermercados. ‘Existe o temor de que o supermercado mande produtos estragados ou próximos do prazo de validade’, diz ela.


Nenhum desses fatores preocupa João Paulo França, funcionário da área de informática de uma multinacional estabelecida na Barra da Tijuca: ‘Compro tudo o que posso pela Internet, sempre usando cartão de crédito. E não me incomodo com a questão dos gêneros alimentícios, pois não sei escolher legumes e verduras e prefiro confiar nos supermercados.’ Ele está satisfeito com a escolha: ‘Geralmente, dá certo.’


O pioneiro dos supermercados eletrônicos no Brasil foi o Pão de Açúcar Delivery, surgido em 1995, segundo a pesquisa de Linden. ‘Inicialmente, a operação se dava através de um CD-ROM que continha um programa a ser instalado no computador dos clientes. No ano seguinte, ele foi o primeiro supermercado brasileiro a realizar suas operações através da Internet.’ O grupo administra hoje também os supermercados Extra, Sendas e CompreBem.


São tantas as vantagens do comércio eletrônico que ele começa a afetar o tráfego nas lojas físicas de muitas empresas. O cliente pode fazer compras 24 horas por dia, sete dias por semana, de qualquer lugar do mundo; não enfrenta corredores cheios nem filas nos caixas; tem acesso a uma infinidade de produtos, que visualiza antecipadamente nos sites das empresas; e pode comparar os preços entre elas. Uma vez tomada a decisão de compra, o consumidor escolhe a forma de pagamento (principalmente cartões de crédito ou boletos bancários) e decide a data e a hora para a entrega a domicílio.


‘O e-consumidor é soberano’


Os bons negócios eletrônicos não se limitam às lojas. A educação a distância, ou e-learning, cresceu 400% entre 2003 e 2004. Este fenômeno deve-se à autorização, pelo MEC, da utilização de métodos não-presenciais nos cursos de graduação e pós-graduação nas universidades federais. O e-learning enseja uma mudança fundamental na educação, em que o aluno se transforma de receptor passivo em gestor do seu próprio processo educativo. Além do acesso a escolas situadas a qualquer distância de seu computador, o e-learning possibilita aos estudantes os debates através de fóruns, as trocas entre tutor e alunos e as pesquisas em uma quantidade infinita de instituições e bibliotecas.


Empresas utilizam cada vez mais esta forma de ensino nos seus programas de educação corporativa. As instituições de ensino acompanham e freqüentemente antecedem as tendências do mercado, como é o caso da brasileira FGV Online e da americana Columbia University


Também o mercado brasileiro de turismo – avaliado em cerca de R$ 20 bilhões anuais – desperta o interesse de grandes empresas de comércio eletrônico, nacionais e estrangeiras. Há poucos dias, o maior portal brasileiro de compras, Submarino, adquiriu o Travelweb Viagens e Turismos por cerca de R$ 2 milhões de reais.


‘O mercado de turismo, do qual a área hoteleira é apenas uma parte, parece ter sido feito para a venda via Internet’, diz o empresário Moris Litvak, fundador e presidente do portal e-reserva, uma empresa brasileira de tecnologia que presta serviços para a hotelaria. A web permite a visualização do hotel, da praia, do mapa de localização, e possibilita a comparação de preços. ‘Deste modo, cada consumidor pode montar a sua própria viagem e orçar tudo sem sair de casa’.


Os resultados animam o empresário: ‘O número de reservas feitas através do nosso site tem triplicado anualmente de 2003 para cá. Hoje, temos cerca de dez vezes mais reservas do que há dois anos, tanto no B2B ( comércio eletronicamente realizado entre empresas e consumidores) como no B2C ( o comércio realizado entre empresas)’.


Aos e-varejistas, um recado de Jakob Nielsen, ‘guru’ da Internet e autor de ‘Designing Web Usability’, sobre a importância de se fazer um site agradável e lógico: ‘O e-consumidor é soberano, é quem decide se vai clicar, e onde, antes mesmo de fazer qualquer compra. Ainda que não saiba exatamente o que procura, é bom que o descubra no seu site.’




QUASE TUDO
Ricardo Kotscho


Danuza faz o livro do ano, 9/12/05


‘No início do ano, parei na tela do computador do editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, para dar uma espiada num texto que me chamou a atenção.


Eram os primeiros originais enviados por Danuza Leão para o livro de memórias que estava começando a escrever. ‘Gostei, vem coisa muito boa por aí’, comentei com ele, depois de ler alguns parágrafos.


Só não podia imaginar que o produto final fosse ficar tão bom. Esta semana, ao terminar de ler o livro ‘Quase tudo’, o melhor lançamento editorial do ano na minha imodesta opinião, comecei a repensar uma porção de coisas na vida.


De como, por exemplo, a gente se deixa abalar por bobagens, enquanto outros conseguem dar a volta por cima numa boa, mesmo enfrentando problemas muito mais sérios, ousando desafiar o destino num eterno recomeçar.


Entre tantas outras lições aprendidas ao ler este livro, que em apenas 220 páginas consegue contar mil histórias de outros tantos personagens além da protagonista, a mais importante foi a capacidade de superação desta mulher, que já fez de tudo na vida.


Danuza amou muito e muitos, foi feliz demais e sofreu como poucos, conseguindo tirar da dor de cada perda a força para encarar novos desafios, sem ficar olhando para trás.


O mais incrível é pensar que, depois de ter sido modelo de sucesso na Europa, ainda muito jovem, directrice de casas noturnas, dona de butique e de restaurante, jurada do programa de Flávio Cavalcanti e apresentadora de talk show, entre uma e outra fase apenas de senhora ‘do lar’, Danuza foi começar a escrever numa idade em que muitos, como eu, só pensam em se aposentar.


Sem profissão definida na carteira de trabalho, se é que alguma vez ela se deu ao trabalho de tirar uma, viveu intensamente os anos dourados do começo da segunda metade do século passado no Rio de Janeiro, com direito a longas temporadas em Paris.


A camaleoa – e bota leoa nisso – Danuza revela no livro, sem muitas firulas, episódios fantásticos da sua convivência com todo tipo de gente, os talentos mais interessantes e brilhantes em cada área no seu tempo – da política ao cinema, do futebol à boemia, da música ao teatro e à literatura. Mas gostava mesmo era de ficar sozinha em casa, cuidar dos três maridos (um de cada vez, claro) e dos três filhos.


Numa seqüência trágica, perderia, em pequeno espaço de tempo, o pai, a mãe, a irmã, um filho e o primeiro marido, o jornalista Samuel Wainer, que lhe abriria as portas para os muitos mundos em que viveu.


Tive a oportunidade de trabalhar com Wainer – o criador da ‘Última Hora’, jornal que revolucionou a imprensa brasileira e foi morto pela ditadura militar – já na fase final da sua carreira, quando ele lançou um jornal semanal inovador como tudo o que fez na vida, o ‘Aqui São Paulo’.


Apesar de já enfrentar sérios problemas de saúde, vibrava como um garoto cada vez que o jornal emplacava uma boa reportagem, uma entrevista exclusiva, um ‘furo’. Certa vez, uma turma do jornal foi entrevistar Neil Ferreira, golden boy da publicidade na época, em sua casa na Granja Viana, nos arredores de São Paulo. No meio da conversa, Samuel dormiu. Ao despertar, seguiu fazendo perguntas do exato ponto em que havia parado.


Lembro-me vagamente de que ele falava muito da ex-mulher, a mãe de seus filhos – e só falava bem de Danuza, como se ela ainda fosse dele e ele dela. No livro, descobri que o sentimento era recíproco, coisa muito rara de acontecer num meio em que ex somente é para sempre no mau sentido.


Ao descobrir seu talento tardio para escrever, primeiro em colunas de jornal, depois em livros que fizeram muito sucesso, Danuza se deu conta de que bastava pensar para exercer bem o ofício. Além de pensar, eu acrescentaria que é preciso também ter a capacidade de sentir, sem limites e sem freios, como transparece em cada passagem de ‘Quase tudo’.


Em nenhum momento, ela se faz de vítima ou posa de heroína diante dos dramas e das conquistas que a vida lhe reservou. Simplesmente, vai contando do que se lembra com tal franqueza que nem parecem capítulos de uma autobiografia. É como se estivesse escrevendo sobre outra pessoa qualquer.


Nem biografias não-autorizadas – do tipo daquelas escritas por mordomos de rainhas ou ex-amantes de celebridades – vão tão fundo ao reviver episódios que a maioria das pessoas esconde até das suas próprias lembranças.


É verdade que Danuza Leão deu uma sorte danada de viver numa época mágica e no meio de pessoas como já não se fazem mais. Mas também é verdade que nem todos os que conviveram com Vinicius, Tom, Di Cavalcanti, Glauber, Rubem Braga, Fernando Sabino, Getúlio Vargas, para falar só dos que já se foram, seriam capazes de reproduzir um tempo e um sentimento com a sensibilidade fina de Danuza Leão, mulher que não conheço, mas hoje admiro como se fosse uma amiga íntima, graças ao seu livro.


Se alguém achar que estou exagerando, é só comprar o livro e conferir. Mesmo sem nenhuma noite de autógrafos, que ela abomina, não foi à toa que ‘Quase tudo’ virou best-seller, e já lidera todas as listas de mais vendidos, apenas duas semanas após o seu lançamento.


Embora não quisesse, mais uma vez ela acabou cedendo e aceitando o desafio: nesta sexta-feira (na Argumento do Leblon, às 21 horas) e no domingo (na Travessa de Ipanema, 19 horas), ela estará ao vivo dando autógrafos em duas livrarias cariocas para provar que Danuza Leão, bonita e charmosa aos 72 anos, não é uma obra de ficção. Quando chegar no último capítulo, o leitor vai entender o que estou dizendo.’




JORNALISMO EM CRISE
Zuenir Ventura


Em jogo, meu ganha-pão, 6/12/05


‘Na semana passada, uma das matérias que mais me fizeram pensar não saiu no ‘New York Times’ ou no ‘Le Monde’, nem em qualquer dos grandes jornais brasileiros. Saiu em ‘A Voz da Serra’, de Nova Friburgo. Foi a cobertura de uma palestra do jornalista Marcos Sá Corrêa sobre a imprensa, sua ética e seu futuro. Ele não é das pessoas mais otimistas que conheço, mas como sei também que não é chegado à retórica – nunca foi surpreendido cometendo um excesso de estilo -, o que ele falou me deixou preocupado, inclusive porque ameaça o meu ganha-pão.


‘O jornalismo, tal como o conhecemos hoje, está com os dias contados’, afirmou, ‘e toda a ética que cerca a profissão terá que ser repensada.’ Citando dados e pesquisas, Marcos informou que os jovens não lêem mais jornal. Nos EUA, por exemplo, o índice de pessoas na faixa dos 14 aos 45 anos que ainda têm esse hábito está abaixo dos 5%, e de revistas semanais, abaixo de 3%. ‘O jornal ‘Washington Post’ calcula que em 2020 não sairá mais em papel, tendo que ser publicado por outros meios.’


Os jornais só estão sendo lidos por aquelas pessoas que se habituaram, ‘em tempos idos’, a ler. Essa mudança de hábito terá efeito sobre um código de ética baseado numa restrição ao poder do jornalista de influenciar as pessoas. Segundo Marcos, perdemos esse poder. Os leitores que sobraram são mais exigentes e esclarecidos. ‘Ninguém é mais freguês de jornalista ou de jornal algum.’


O mais surpreendente é que o índice de telespectadores da TV americana também está em queda. As pesquisas indicam que a população passa duas vezes mais tempo olhando uma tela de computador e se informando através dela do que de uma tela de televisão. Também o rádio, como disse Marcos, ‘já foi. Hoje eu ouço rádio pelo meu iPod na hora em que quero, onde tenho acesso a centenas de estações, inclusive americanas’.


O quadro descrito por Marcos e mais o resultado da pesquisa ‘Retrato da leitura no Brasil’, da Câmara Brasileira do Livro, que acabo de ver, apontam para um futuro desanimador. O ‘retrato’ concluiu que existem 86 milhões de brasileiros acima de 14 anos com pelo menos três anos de estudo. Destes, 40 milhões têm até 29 anos e não lêem, ou pelo menos não têm o hábito da leitura. A situação é de fato crítica, mas não sem saída.


A internet, como revelou Marcos, pode estar ameaçando os jornais, mas não a leitura. Umberto Eco defende a tese de que o computador veio para salvar a palavra escrita que a televisão, essa sim, estava matando. De fato, nunca se escreveu e leu tanto. Pode-se discutir a qualidade do que se está lendo e escrevendo, mas por pior que seja é melhor do que nada. Um dos editores que comentou a pesquisa da CBL também acredita que um jovem que participa de bate-papos virtuais, que se comunica por meio de e-mails e MSN está mais preparado para se tornar um leitor de livro.


De minha parte, continuo acreditando na palavra escrita, mesmo admitindo que os suportes podem mudar. Outro dia um jovem, me olhando como um sobrevivente da espécie gutemberguiana em extinção, me desafiou com a famosa afirmação de que uma imagem vale por mil palavras. Respondi: ‘Mas até para dizer isso você precisa de palavras’. Ele calou, nenhuma imagem veio em seu socorro.’

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