Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Notícias ruins não predominaram

Por Monitor de Mídia em 21/11/2006 na edição 408

Os norte-americanos criaram uma frase que, de alguma forma, define o espírito do jornalismo em muitas latitudes e em muitos momentos: bad news good news. Isto é, notícia ruim é uma notícia boa, porque vende, atrai público, faz as empresas de comunicação prosperarem e, com elas, o jornalismo. Pois foi atrás desse velho ditado que o MONITOR DE MÍDIA analisou uma edição aleatória – a do domingo, 12 de novembro – para ver se os jornais catarinenses reforçavam a máxima. Foram observados o Diário Catarinense, A Notícia e Jornal de Santa Catarina e os resultados apontam para o inesperado: a maior parte do material veiculado não tinha aspecto negativo. Em compensação, percebeu-se uma certa tendência à acomodação por parte dos jornais.


Como se vê um jornal?


Definir classificações específicas para as notícias é algo que reserva certo grau de subjetivismo, pois o discernimento dos temas depende de cada leitor. Mas para delimitar este diagnóstico, foram consideradas as afirmativas de Mario Erbolato, em seu ‘Técnicas de Decodificação em Jornalismo’, livro clássico no jornalismo brasileiro (editado pela Vozes).


Erbolato sugere a elaboração de um elenco operacional de valores-notícia, formas de classificação para a posterior publicação, como o negativismo (demonstrado através de temas mórbidos e/ou violentos) e o otimismo (com temas de lazer, diversão e entretenimento). Estes pontos são, para ele, forças motivadoras que instigam o leitor e influenciam na visão de mundo.


Para a avaliação da edição do domingo (12/11), foram considerados todos os textos, exceto os de caráter publicitário. A teoria de Mario Erbolato foi conjugada com o olhar de simples leitor da equipe dos pesquisadores do MONITOR. Dentro destes preceitos, enquadraram-se matérias, reportagens, perfis, artigos, crônicas, colunas e notas. Cada um desses foi classificado em uma das três expressões:


Otimistas: entraram os temas que enalteceram fatos positivos, cuidados com a saúde, hobbies, curiosidades, que mostraram exemplos de superação, de assistência social e/ou de recuperação. Além disso, os textos esportivos (já que no dia analisado não houve conflitos ou atos violentos nas competições) entraram nesta classificação, pois são procurados como uma forma de lazer.


Negativas: catástrofes, acidentes, violência, conflitos, crimes, suspense, medos, julgamentos, investigações, prisões, tráficos, risco de morte, apreensões e mortes de forma geral.


Neutras: textos de rotina que anunciavam eventos, notas de serviço, entrevistas, perfis e relatos de encontros ou reuniões.


Os resultados em A Notícia:























































































Editoria Otimistas Neutras Negativas Total
Capa 4 8 2 14
Opinião 0 2 4 6
Destaque 2 1 3 6
Política 1 12 2 15
Geral 1 3 2 6
Mundo 0 1 4 5
Segurança 0 0 8 8
Esporte 21 0 0 21
Contracapa 0 1 0 1
Economia 1 20 4 25
Veículos 0 2 0 2
Anexo 10 7 0 17
Total 40 57 29 126

 


Considerando os números obtidos, A Notícia apresentou um conteúdo leve para seus leitores. A maior parte das editorias manteve um equilíbrio de seus temas, com uma variação não expressiva. Mas, pelo fato dos esportes serem considerados lazer nesta análise, o total de notícias boas (40) teve um significativo ‘reforço’ de 21 matérias. A editoria ‘Mundo’ chamou a atenção por ter apresentado a maioria das notíciais acerca de conflitos e impasses no Oriente Médio – como ‘Funeral termina em manifestação pública’ -, o que contribuiu para a ‘negatividade’ da editoria. Assim também como ‘Segurança’, que foi unânime nas oito matérias, em casos de morte e violência.


Em ‘Opinião’, a maior parte dos textos fixava uma crítica em forma de reclamação, o que deu mostrou descontentamento com uma realidade negativa. Os outros textos da seção simplesmente comentavam fatos do cotidiano. Ainda sobre negatividade, o ‘Destaque’ da edição estava sob a cartola ‘Violência’ e, mesmo como um alerta, tratou dos altos incides de morte, em ‘Jovens morrem mais no trânsito’. Foram duas páginas que mostraram números e casos de acidentes, com histórias que abordaram o lado sentimental da perda.


Das somas finais, o jornal apresentou um elevado número de matérias neutras, com ‘Política’ e ‘Economia’ encabeçando as editorias mais burocráticas. Isto mostrou uma ‘institucionalização’ do periódico neste dia, no que diz respeito aos critérios jornalísticos de apresentação dos fatos. Além disso, o negativismo e o positivismo foram apresentados numa margem muito próxima, mas com o último com uma pequena vantagem de 11 matérias.


Os resultados da análise no Jornal de Santa Catarina











































































Editoria Otimistas Neutras Negativas Total
Capa 4 2 3 9
Opinião 1 0 6 7
Informe 1 4 7 12
Política 0 14 2 16
Economia 2 11 5 18
Geral 8 15 11 34
Mundo 0 2 3 5
Esportes 10 0 0 10
TV + show 9 0 0 9
Viver! 11 0 0 11
Total 46 48 37 131

 


O Jornal de Santa Catarina publicou mais assuntos positivos do que negativos na edição analisada. Levando em conta o fato de que a publicação conjunta (sábado e domingo) trouxe dois cadernos de lazer (‘TV+show’ e ‘Viver!’), foi também comprovado o alto índice tópicos ‘bons’ superando ‘ruins’. Pela editoria ‘Esportes’ ter sido considerada ‘lazer’ – por não apresentar fatos violentos ou denúncias -, houve uma contribuição na soma em matérias positivas.


Um fato curioso pode ser notado na editoria Mundo, onde nada positivo foi publicado. De um total de cinco notícias, três divulgavam fatos envolvendo medo, entre eles ‘Al-Qaeda ameaça explodir Casa Branca’. Em ‘Opinião’ e ‘Informe’, também se deu o mesmo. Ao que parece, temas positivos não têm lugar nestas editorias. As opiniões são direcionadas a reclamações, críticas, denúncias e a apontamentos de problemas na sociedade – a maioria blumenauense.


Outra passagem relevante é a presença de temas ‘neutros’. Levando em conta a maneira usada de discernir entre bom, ruim e indiferente, pode-se notar que o jornal traz um grande número de ‘informações gerais’ – que não influem diretamente no ‘humor’ no leitor. Assim, de maneira geral, o Santa condiz com seu propósito, proporcionar uma leitura prazerosa para quem busca uma trégua no final de semana.


Os resultados da análise no Diário Catarinense













































































































































Editorias Otimistas Neutra Negativas Total
Capa 01 05 02 08
Coluna Prates 00 01 00 01
Visor 02 04 01 07
Reportagem especial 00 00 01 01
Veículos 00 04 00 04
Imóveis 00 01 00 01
Política 00 06 00 06
Editoriais 00 00 02 02
Artigos 00 02 00 02
Economia 02 07 02 11
Mundo 00 06 00 06
Geral 03 05 05 13
Mercado e Sucesso 00 09 00 09
Justiça 00 05 00 05
Esportes 02 22 02 26
Coluna Cacau Meneses 01 07 01 09
Tv + Show 00 17 00 17
Produtos 00 03 00 03
Empregos e Oportunidades 02 02 01 05
DC Especial 00 00 01 01
Donna Dc 01 07 02 10
Total 13 113 20 146

 


A análise do Diário Catarinense mostrou uma maior incidência de matérias neutras, em comparação às boas e ruins, que sempre foram apontadas como predominantes. No total, foram contabilizadas 113 matérias neutras, 20 ruins e 13 boas. A editoria ‘Geral’ foi identificada como a mais negativa, pois apresentou um total de seis matérias de caráter não otimistas. A parte dedicada aos esportes foi eleita como a mais positiva, e, portanto uma fonte garantida de entretenimento no domingo. Já o caderno ‘TV+ Show’ foi a que mais demonstrou neutralidade, visto que ofereceu 11 matérias desse tipo. As editorias de política, artigos, mundo, mercado e sucesso, justiça e produtos também apresentaram alto índice neste quesito.


O que mais chamou a atenção foi o caderno especial ‘Diário Catarinense Especial’. Nele, foi evidenciada a triste realidade de crianças vítimas de violência. Apesar de ser definido como de caráter totalmente negativo, não podemos deixar de ressaltar a importância desse tipo de cobertura e principalmente os seus resultados.


Afinal, o que há nos jornais?


Pelo diagnóstico ser baseado em edições dominicais – quando as pessoas já estão saturadas da rotina dos outros dias –, havia a hipótese de que os periódicos ofereceriam uma leitura agradável e com temas voltados ao entretenimento e lazer. Isso aconteceu em algum grau. Mas os três jornais mostraram-se ‘institucionalizados’ demais, engessados, por apresentar maior número de matérias de caráter burocrático, de acordo com a classificação estipulada para a análise. Os resultados proporcionados pelas notícias de esportes também chamaram a atenção. Se estes não tivessem sido considerados, em sua quase totalidade, como tema de lazer, o total de assuntos relacionados ao ‘otimismo’ estaria muito abaixo do ‘negativismo’.


O objetivo principal desta análise não foi levantar a bandeira por um ‘jornalismo cor-de-rosa’. Afinal, a função dos jornais é evidenciar o que acontece pelo mundo e servir como um meio de expressão, seja de protestos ou não. Estes resultados servem para reavaliar um tema que geralmente é debatido em diversos círculos: que a mídia só sabe mostrar coisas ruins. Apesar do único dia de análise, mas com grande índice de leitores, dessa vez o dito não foi comprovado.

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