Segunda-feira, 26 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

DIRETóRIO ACADêMICO > A relação leitor-repórter

Novas teorias sobre a produção jornalística

Por Elstor Hanzen em 23/11/2015 na edição 877

O ingresso de tradicionais grupos de mídia nas plataformas online, como o New York Times, The Guardian e BBC, que passaram a publicar artigos diretamente no Facebook desde maio de 2015, revela mais uma ação das grandes companhias de comunicação para atraírem a audiência virtual e fazerem frente à produção de conteúdo nas redes sociais. Essa relação pode implicar a várias consequências, uma delas é a perda de controle na distribuição das informações no espaço online por parte dos meios de comunicação. Ou seja, a imprensa submete seu conteúdo às regras e à gestão da empresa do Mark Zuckerberg.

Por outro lado, o Facebook diz oferecer às empresas de notícias novas ferramentas para divulgar o conteúdo informativo, entre as quais mapas interativos e a capacidade de postar fotos de alta resolução que permitem uma visão especial pelos leitores. Além disso, conforme reportagem da Folha de SP (2015), os “artigos instantâneos” têm possibilidade de serem carregados 10 vezes mais rápidos do que normalmente seriam no site. A ideia iniciou veiculada a 20 organizações noticiosas.

Porém, com as indefinições de quem ganha ou perde neste cenário da comunicação, ou como prefere Jenkins (2008) que a convergência não significa prefeita estabilidade nem unanimidade. O fato é que as tecnologias têm aproximado a relação entre o emissor e o receptor da informação. A conectividade por meio das redes sociais faz com que os indivíduos sejam ao mesmo tempo produtores, consumidores e comentaristas da notícia. Diante desse protagonismo do internauta na geração e na oferta de conteúdo, o profissional tem menos controle da informação e tempo para a produção da informação. Por isso, já não é possível seguir à risca a Teoria da Organização que pressupõe que as notícias são como são porque as empresas e organizações jornalísticas assim as determinam.

Redação na era digital / Foto Wikimedia / Creative Commons

Redação na era digital / Foto Wikimedia / Creative Commons

Paralelamente, vale destacar que os meios de comunicação têm-se beneficiado das redes sociais em grande medida. Segundo as autoras Longhi, Flores e Weber (2011), graças às redes sociais, os meios obtêm pelo menos três benefícios: melhoram a identidade da marca, fidelizam os leitores e distribuem os conteúdos em rede, produzindo um efeito em cadeia entre os membros da rede social, assim melhorando sua repercussão. A possibilidade de difusão de conteúdo nas redes sociais também muda a concepção de onde as notícias online realmente podem estar.

Um usuário que compartilha conteúdo com seus 20 seguidores no Twitter, por exemplo, pode gerar um efeito de pouca expressão, no entanto, se um de seus seguidores (follower), cuja lista de seguidores é dez vezes maior, repassar retweet da mesma notícia, teremos uma ampliação do efeito. A repetição deste comportamento por diversos atores da rede social potencializa o processo conhecido como spread, ou seja, espalhando ou estendendo uma coisa em cima de outra, assim gerando cascatas de informação. Também faz com que o internauta-leitor se sinta parte do processo da produção da notícia.

O equilíbrio entre agilidade, credibilidade e envolvimento do usuário no processo produtivo do jornalismo não têm sido receita simples na época da convergência das mídias. Para compreender melhor o contexto e analisar o tema deste artigo, torna-se importante recorrer a duas teorias do jornalismo – newsmaking e gatekeeper –, que discorrem sobre o processo produtivo nas redações dos meios de comunicação. As hipóteses, herdadas dos jornais americanos e que chegaram ao Brasil no final da década de 80, ajudam os profissionais a administrarem e a organizarem melhor o trabalho na redação, mesmo que essa assimilação ocorra de forma implícita. Ou seja, a partir desse contexto os assuntos são selecionados e avaliados quanto ao seu potencial de virarem notícia.

A nova realidade implica olhar estas hipóteses de forma crítica e incluindo as novas variáveis da interação. Contudo, o atual cenário não chega a colocar as teorias em suspeição. Mas exige a incorporação das mudanças que ocorreram no jornalismo, desde o advento da internet, e, mais recentemente, com as mídias sociais.

A partir destas perspectivas centrais serão apresentadas, a seguir, os detalhamentos das teorias que interferem de modo decisivo no processo de seleção e de construção do produto final do trabalho jornalístico.

As teorias e o jornalismo

Historicamente o jornalismo se constitui num “campo” de dois polos: ideológico e econômico. O primeiro se refere ao negócio e o segundo à prestação de serviço público. Traquina (2008) lembra que esse jornalismo é conhecido desde o século 19 e mantém sua base até hoje. A partir desse contexto, as mídias noticiosas estruturam (constroem) inevitavelmente a sua representação dos acontecimentos, devido a diversos fatores, que incluem os aspectos organizativos da produção jornalística, suas limitações orçamentais, a imprevisibilidade dos acontecimentos, entre outros.

E as notícias são definidas pelo conjunto de requisitos exigidos pelo acontecimento, com base nos critérios de noticiabilidade. E quem administra a importância dos valores-notícia são as empresas de comunicação e os jornalistas, dentro das rotinas de produção. A produção da informação, portanto, é permeado por injunções econômicas, políticas, cultura profissional e subjetividades. Isso nos mostra que interpretações diversas podem ser tomadas sobre um mesmo fato. Assim, o sociólogo norte-americano Michael Schudson in Traquina (1993) conclui que as notícias, como uma forma de cultura, incorporam suposições acerca do que importa, do que faz sentido, em que tempo e em que lugar vivemos, qual a extensão de considerações que devemos tomar.

Devemos atentar ao dizer que as notícias constroem uma realidade não implica em dizer que elas sejam falsas, mas convencionais com uma forma de ver o mundo e com uma forma de produção noticiosa. Como bem resume Darnton (2009), as “notícias não são o que aconteceu, mas uma história sobre o que aconteceu”. Por isso mesmo, alguns autores destacam a importância da dimensão cultural das notícias. Ou seja, o contexto cultural no qual as notícias são produzidas, além de considerar sua estrutura organizacional e suas limitações.

Redação na era analógica / Foto Wikimedia /Creative Commons

Redação na era analógica / Foto Wikimedia /Creative Commons

Ainda segundo (Schudson in Traquina, 1993, p. 280), “Dizer que uma notícia é uma estória não é de modo algum rebaixar a notícia, nem acusá-la de fictícia. Melhor, alerta-nos para o fato de a notícia, como todos os documentos públicos, ser uma realidade construída, possuidora da sua própria validade interna.” (Schudson in Traquina, 1993, p. 171) também afirma que “pessoas que operam, inconscientemente, num sistema cultural (possuem) um depósito de significados culturais armazenados e com padrões de discursos”. Isso significa que a formação cultural, os valores, as crenças, as pressões econômicas e políticas, sempre irão refletir na forma de interpretar fatos para uma reportagem.

A partir deste ponto entra a Teoria da Organização, que pressupõe que as notícias são como são porque as empresas e organizações jornalísticas assim as determinam. A análise surge em 1955 com Warren Breed. Segundo o autor, a organização, isto é, a empresa jornalística que emprega o profissional de jornalismo, tem influência, sim, no processo de produção das notícias. Tira-se o jornalista do centro da análise, trazendo a organização jornalística para a luz do estudo em questão.

Apesar de avançar significativamente na análise, a Teoria Organizacional persiste em uma análise micro-sociológica – não passa do nível da organização –, deixando de lado as dimensões políticas e sociais da notícia.

Já o conjunto de Teorias de Ação Política vai um passo além, ultrapassando o nível da organização – trata-se, portanto, de um conjunto de teorias macro-sociológicas -, dedicando-se ao estudo das implicações políticas e sociais da atividade jornalística. Para este estudo, as notícias são uma distorção da realidade. Trava-se aqui, portanto, uma oposição direta à Teoria do Espelho. Os jornalistas são vistos como meros instrumentos a serviço: ou de sua organização, reproduzindo os valores-notícia de seus empregadores; ou da sociedade, apresentando-se como agentes do “Quarto Poder”, fiscalizando eventuais abusos por parte dos três poderes republicanos.

Como uma alternativa ao determinismo das Teorias de Ação Política e opondo-se à ideia de notícias como distorção da realidade, as Teorias Construcionistas propõem um novo paradigma: uma autonomia relativa do jornalista é considerada – a visão instrumentalista é rejeitada – e as notícias são uma construção da realidade. As Teorias Construcionistas consideram que as notícias são como são devido às interações entre os agentes produtores da notícia, ou seja, as fontes – sejam elas oficiais ou não –, a própria comunidade jornalística – intra e extra-organizacional –, a sociedade de uma maneira geral – empresários, políticos, burocratas, profissionais liberais, trabalhadores, eleitores, estudantes.

Rotinas produtivas no jornalismo

Dentro das Teorias Construcionistas, há a hipótese do newsmaking, que vê as notícias como uma construção social da realidade. Essas pesquisas estudam as rotinas produtivas e procuram descrever o trabalho comunicativo dos emissores como um processo no qual ocorre de tudo: rotinas cansativas, distorções intrínsecas e estereótipos funcionais. Wolf (2001) procura organizar e sistematizar os estudos sobre o newsmaking: “Essa abordagem articula-se, principalmente, dentro de dois limites: a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho dos processos produtivos” (Wolf, 2001, p. 252).

Assim, pouco a pouco, um jornalista recém-contratado, por exemplo, apreende o que é ou não notícia para a organização em que se insere, absorvendo meio que por “osmose” a política editorial da empresa. Com vistas a uma futura promoção ou levando em conta o tempo que tem e recursos que sua organização dispõe para a produção da notícia, o jornalista toma suas decisões, influenciado, menos por seus valores pessoais do que pelos valores e potenciais sanções por parte da corporação que o emprega.

Uma das mudanças é que hoje o peso relativo da “osmose” diminuiu significativamente. O principal fator da mudança são os cursos de capacitação de alunos no último período ou formados em prazo curto. Chamados de curso de focas, curso de residência, cujo objetivo é claro: formar jornalistas mais ligados à cultura do jornal e/ou à cultura que deseja implantar.

O newsmaking dá ênfase à produção, ou seja, à transformação dos acontecimentos diários em notícia, desde a captação até sua distribuição. Assim, se por um lado os fatores de noticiabilidade permitem a cobertura informativa de um acontecimento, por outro lado eles dificultam a contextualização: os fatos são apresentados de modo superficial, dificultando a percepção do acontecimento por parte do público. Percebe-se, desta forma, a flexibilidade e a variabilidade inerentes aos critérios de noticiabilidade que, no entanto, são definidos na linha editorial da organização jornalística, pois a “distorção involuntária encontra-se intimamente ligada às rotinas produtivas e aos valores profissionais, reproduz-se em cadeia em todas as fases do trabalho” (Wolf, 2001, p.192).

Isto é, as notícias e o modo como elas chegam aos leitores não são determinados somente pela subjetividade dos profissionais. Wolf (2001) diz que as exigências e a estrutura das organizações influenciam fortemente na seleção e no enquadramento dado à notícia. Portanto, a teoria deve ser compreendida de forma variável: primeiro – o jornalista tem como suporte sua bagagem cultural e ideológica; segundo – a organização do trabalho da instituição e do próprio profissional precisam ser organizados temporal e espacialmente.

A partir da pauta, os órgãos de informação passam para a fase da coleta do material e da seleção das notícias, definida como “um processo complexo que se desenrola ao longo de todo o ciclo de trabalho, realizado em instâncias diferentes – desde as fontes até o simples redator – e com motivações que não são todas imediatamente imputáveis à necessidade direta de escolher as notícias e as transmitir” (Wolf, 2001, p. 243). O autor explica que a necessidade de ser eficiente e a escolha de procedimentos que permitam essa eficiência dominam as fases de seleção e de produção das notícias. Para Wolf (2001), ser eficiente é otimizar o rendimento de três recursos, que são escassos num órgão informativo: o pessoal, o formato e o tempo de produção.

No momento de escrever o texto, enfatizam-se os aspectos que são imprevistos, importantes, novos e dramáticos. Em geral, o jornalista não gosta de escrever aquilo que o leitor já sabe, nem aquilo que já foi dito muitas vezes. E é aí que entram os valores/notícia, que, como afirma Wolf (2001), estão presentes em todas as fases da rotina produtiva: na coleta, na seleção, na edição e na apresentação da notícia.

Os critérios de noticiabilidade, desde os primeiros anos do século 17, giram em torno do atual, mas também da figura proeminente, do ilegal, das guerras, da calamidade e etc. De forma mais sumária, os valores básicos são sustentados pelo binômio extraordinário e insólito (Traquina, 2008, p. 64). Essa perenidade dos valores-notícia ao longo dos séculos é ressaltada por Medina (1988) que, sem conhecer estas teorias, termos mais atuais como a atualidade e o interesse por parte do público; rivalidade e entretenimento. Com a industrialização e urbanização da sociedade, a veracidade e a clareza das informações ganharam relevância, além de elementos como a raridade dos fatos, interesse humano e a objetividade na apresentação da notícia.

Podemos dizer que o critério noticioso encontra-se intimamente ligado às rotinas e à uniformização das práticas produtivas. Deste modo é notícia aquilo que é considerado pertinente por toda a classe jornalística, aquilo que é possível ser tratado pelo órgão de informação sem fugir ao ciclo natural das coisas.

Contudo, o surgimento das novas tecnologias, o uso intensivo de bases de dados no jornalismo e a mudança dos hábitos da sociedade, da interação com múltiplas e fontes e com o público no processo produtivo da notícia, principalmente, o chamado jornalismo pós-industrial, vem modificando o modo de produção da notícia. A realidade interessa para a análise deste estudo, pois o debate será ampliado com base no relatório de pesquisa Tow Center for Digital Journalism da Columbia Journalism School, traduzido e publicado no Brasil pela revista da espm Anderson (2012). Por ora vale ressaltar, que esses avanços imprimiram uma nova dinâmica na forma de produzir notícia o que deixou os profissionais da área com menos certezas com relação a sua atuação no mercado da comunicação, apesar das poucas alterações nos critérios de noticiabilidade.

A notícia e a noção de gatekeeper

A teoria surgiu nos anos 50, nos Estados Unidos, com os estudos de David Manning White, como forma de deferência ao jornalismo e ao seu poder. Acredita que o processo de produção da informação é um processo de escolhas, no qual o fluxo de notícias tem que passar por diversos gates (portões) até a sua publicação. Entende que há intencionalidade no jornalismo e que o processo é arbitrário e subjetivo. A teoria esbarra em alguns limites: a análise da notícia apenas a partir de quem a produz; esquece que as normas profissionais interferem no processo e desconsidera a estrutura burocrática e a organização.

Esta hipótese, também conhecida como Teoria da Ação Pessoal, coloca o jornalista no centro da análise, considera-o como um gatekeeper, isto é, como um porteiro ou, contextualizando, o principal responsável pelo processo de seleção do que é ou não notícia, do que vai ou não ser publicado. Ela se contrapõe à Teoria do Espelho; a Teoria da Ação Pessoal levanta a ideia de que os valores ou interesses pessoais do jornalista são determinantes no processo de seleção do que virá ou não a ser notícia. Ou seja, a teoria pressupõe que as notícias são como são porque os jornalistas assim as determinam.

Pesquisas posteriores destacaram o fato de que a seleção de notícias tem um caráter menos subjetivo do que o senso comum pensa. Ou seja, as decisões e as avaliações dos critérios de noticiabilidade do gatekeeper também são tomadas com base no conjunto de valores presentes na estrutura profissional e organizacional – tais como a eficiência, a qualidade, a rapidez, conforme Robinson in Wolf: (2002, p.181). Neste contexto, pesam os aspectos institucionais da organização, dos quais tratam a hipótese do newsmaking, e uma série de critérios definidos pelos valores-notícia.

Wolf (2001), ao apresentar seus estudos, divide os valores-notícia em grupos: os relativos ao conteúdo (substantivos), à disponibilidade do material e ao produto, ao meio, ao público e à concorrência. A primeira categoria inclui aspectos como a importância dos indivíduos e a quantidade de pessoas envolvidas no acontecimento e as possibilidades de evolução futura da história. A segunda e a terceira avaliam desde a questão da possibilidade de um jornalista obter a informação (acessibilidade de fontes e proximidade do fato) até o formato/apresentação da notícia e o equilíbrio de conteúdo em uma edição. A quarta se refere à ideia – que Wolf destaca como não precisa – que os profissionais têm de seu público e seu interesse.

Por fim, a relacionada à concorrência, é o questionamento constante sobre o que outros veículos noticiam ou não, tentando alcançar uma espécie de padrão de qualidade, e a necessidade de publicar os chamados “furos”.

No jornalismo pós-industrial, os conceitos continuam a valer para os noticiários produzidos na internet. Entretanto algumas relações são diferentes, pois as dificuldades impostas pelo limite de espaço e de tempo ganham outras dimensões nas páginas da rede. Moherdaui (2002) destaca que em função da necessidade de produção maciça de notícias, sem que haja um horizonte de esgotamento de prazo – o fechamento –, o webjornalista não se vê obrigado a descartar fatos com tanta frequência quanto seus colegas de diferentes suportes. Moherdaui (2002) lembra ainda que até mesmo a checagem da informação é dispensada em nome da velocidade e da quantidade publicada na rede.

Todavia, mesmo diante da maior quantidade de informações e num tempo cada vez mais exíguo, o profissional que atua no jornalismo online tem que exercer muitas vezes as funções de repórter, redator e editor – quando de forma simultânea checa dados, adapta textos às exigências de leitura na internet e ainda tem que ter o discernimento suficiente para decidir o que é notícia a partir da quantidade de material que tem, em bem menos tempo que o faria em uma redação tradicional e, repetindo um aspecto de outros suportes, terá que “vendê-la”, a fim de que ganhe destaque, caso a avalie como importante.

E tudo isso, num fluxo contínuo de produção de conteúdo, sem o tradicional deadline dos veículos offline. Embora existam sítios que “editam” apenas as informações a partir de um determinado número de visitantes.

E inserido no contexto atual, onde o cidadão tem sido cada vez mais ativo na escolha e na divulgação das informações, e o profissional perde o poder centralizador de decidir o que merece ser ou não notícia, ou pelo menos, essa relação de poder tem sofrido significativas mudanças.

Em tempo de jornalismo colaborativo, porém, o poder do Gate na seleção e na confecção da notícia deve ser relativizado. Isso porque, o público com acesso às tecnologias vem participando e influenciado na pauta jornalística. Além de direcionar, principalmente, os valores relativos ao conteúdo (substantivos), o usuário mostra seu protagonismo ao fazer a correção e repercutir a notícia nas mídias sociais. Mesmo com o livre fluxo de informação, os mecanismos dos gatekeepers acabam fazendo um certo controle institucional do e que vai ser publicado – apesar da avalanche de conteúdo gerado e disponibilizado atropelar em alguns momentos o processo.

Por conseguinte as teorias as quais vimos que eram capazes, na época, de ajudar a compreender a realidade de boa parte da prática jornalística, hoje, com a participação e a interação do público por meio das redes sociais, a prática profissional acaba sendo pressionada e pautada por assuntos que, mesmo não estando no planejamento ou até contra a vontade do jornalista e da organização jornalística de vê-los da agenda pública, tornam-se notícia. Ou seja, o poder de decidir o que deve ou não ser notícia já não está mais centralizado só no eixo profissional, conforme dão conta as duas teorias aqui discutidas.

A compreensão das teorias do jornalismo é necessária para que possamos entender o contexto e os valores que o jornalista utiliza durante a produção da notícia. A nova realidade do jornalismo pós-industrial, contudo, pede que não se ignore as atuais circunstâncias do trabalho jornalístico.

Interatividade e comunicação

A interatividade no âmbito do jornalismo de redes digitais é uma tarefa difícil não só pela complexidade do processo, mas também pela constante modificação e evolução da plataforma onde ele está inserido. Porém, essa tendência começou a se desenvolver no jornalismo desde as décadas de 1980 e 1990, com a popularização da informática e a chegada da internet. Para Baldessar (2005), citado por Belochio (2012), as grandes mudanças no cotidiano produtivo dos jornalistas começam com a informatização das redações dos jornais e revistas do Brasil. Com a introdução dos computadores, os jornalistas também tiveram que se adaptar a uma realidade profissional que incluía a exigência de maior qualificação e a especialização crescente, por conta das modificações nas condições do trabalho.

A chegada da internet em 1994 abriu caminhos dentro do jornalismo – sejam eles na delimitação de suas linguagens ou na sua própria prática do dia a dia. As rotas do mundo virtual se abriram em múltiplas direções, às vezes, desorganizadas, mas com uma rapidez inédita e com origens as mais variadas. A conectividade marca um novo cenário de comunicação para um conjunto de pontos que circulam em continuo fluxo e em múltiplas direções, numa dinâmica mais horizontal. Uma relação de dupla mão. A hierarquia também se desloca do profissional para o campo do leitor/produtor.

Desta forma, o fazer jornalismo sofreu significativas transformações, chegando ao jornalismo multimídia e participativo, como o exemplo da foto da lua. Para Lemos (1997), a noção de interatividade que se tem hoje está diretamente ligada aos meios digitais. Sendo assim, o termo se refere a uma forma de interação técnica, de cunho digital, diferente da analógica presente inicialmente nos veículos de comunicação tradicionais como, por exemplo, cartas no século 20 e no fax na década de 80. Então, pode-se ressaltar a interatividade como uma ação dialógica entre o homem e a técnica. O autor ainda propõe a diferenciação dos termos interação social e interação técnica, para uma melhor compreensão da interatividade. A primeira estaria ligada à relação homem, presente no dia a dia de qualquer um. A segunda estaria relacionada à relação homem-técnica, caracterizando assim a interatividade, mediada através da máquina.

Pode-se também constatar que a interatividade encontrada no jornalismo das redes digitais pode ser tanto mútua quanto reativa. As interações podem coexistir e ser simultâneas. Como exemplo, tem-se uma enquete com uma pergunta e determinadas opções de resposta. Esse tipo de interação pode ser classificado como do tipo reativa, pois não é dada ao leitor a opção de mudança ou interferência na enquete. Por outro lado, os sistemas dotados de interação mútua possuem uma interface virtual. Ou ainda, conectam dois ou mais agentes ativos com possibilidade de mudança da ação e da reação. A interface virtual permite liberdade entre os roteiros propostos inicialmente, ou seja, nada pode garantir que sempre os mesmos estímulos garantirão as mesmas respostas, Primo (2004). Portanto, poucos anos passados depois destas reflexões, o rápido desenvolvimento das mídias sociais, agora na grande rede, traz muitas mudanças no jornalismo.

Convergência vertical e horizontal

A verticalidade de produção informativa, eixo emissor/receptor, está se diluindo de forma gradual para se submeter a um regime mais uniforme. De acordo com d’Andréa (2012), hoje há a convergência vertical no jornalismo – produção multimídia feita por profissionais -, e a convergência horizontal – realizada por meio da participação do cidadão. A prática do jornalismo – de forma engajada ou eventual – por não-profissionais é um dos assuntos mais discutidos neste campo nos últimos anos, e tem sido denominada como “jornalismo cidadão”. Esta convergência comunicacional, a prática interativa em via de dupla mão, também privilegia a participação do usuário no contexto produtivo do conteúdo, exigindo dos veículos mudanças nas plataformas físicas e na própria forma narrativa da notícia, fazendo com que o modelo autocrático e unilateral de produção jornalística passe a ser mais democrático.

Ao mesmo tempo, observa-se, cada vez em maior escala, os canais de comunicação aproveitando-se dos serviços dos internautas, como produtores e “repórteres”, para obtenção de informações. Sem uma rigorosa checagem, conforme Lins (1988), os materiais disponibilizados por cidadãos não devem ser publicados na integra como se fossem iguais aos produzidos por um jornalista; também porque os cidadãos não têm formação sólida, nem métodos e valores jornalísticos. Aroso (2003) acrescenta que a credibilidade informativa também está em jogo: sem qualquer controle da informação, é difícil saber o que é verdadeiramente notícia e não mera opinião ou especulação, fazendo surgir “notícias” sem interesse, não verdadeiras, inexatas e até mesmo ofensivas. Além do que, o trabalho de produção de notícias de um profissional não vive só de vontade, é preciso: dinheiro, tempo e dedicação.

Castilho (2014) lembra que um veículo de comunicação precisa incorporar aos dados os significados e contextos para entregar ao cidadão uma informação não apenas absolutamente correta, mas também que dê sentido à vida dele. Quando o profissional abre mão desse papel, e apenas reproduz informações dos usuários, prejudica a qualidade da notícia e entrega ao leitor a função estratégica de interpretar os dados.

Pois com a interpretação é possível imprimir uma visão à notícia, o que com a pluralização da comunicação online e com a ideia de englobar e contemplar o maior número de interesses e demandas dos leitores, levou à descentralização desse poder produtivo da notícia. Outro item relevante neste cenário é que aumenta a responsabilidade dos jornalistas porque os cidadãos comuns frequentemente não têm o compromisso e a responsabilidade necessária pela informação gerada como o profissional precisa ter.

A legitimação da informação jornalística, portanto, sem a mediação central das empresas e de profissionais dessa área se baseia no reconhecimento de que, na contemporaneidade, segundo Jenkins (2008), vivemos uma “explosão das mediações” que reclassificam e reposicionam o intenso fluxo de informações às quais estamos submetidos. O que é chamado por Castilho (2014) de “guerra de informação”. Conforme essa lógica, as mediações surgem de diversas fontes, assim incidindo nos processos de comunicação e formando as interações comunicativas dos atores sociais, alimentando certa desorientação informativa. Podemos reconhecer que, em função das articulações em rede, por exemplo, um relato de maior interesse social pode ganhar visibilidade e legitimidade à revelia dos processos de newsmaking e de gatekeeping.

Na era da tecnologia, com o consumidor tão próximo e participativo da rotina produtiva do conteúdo, o jornalista tem que ter a habilidade de verificar as informações, colocando em prática um princípio básico do jornalismo que é checar a veracidade dos fatos, conforme Lins (1988). Com isso, ele pode até perder alguns segundos, minutos ou horas, mas entregar uma notícia consistente e segura faz toda a diferença para ganhar a confiança do leitor. Por isso, é importante analisar, selecionar e aprofundar a informação antes de servi-la ao público. Essa postura, portanto, pode redundar em uma estratégica de maior qualidade e credibilidade da notícia.

O jornalismo pós-industrial

No relatório de pesquisa sobre o jornalismo pós-industrial Anderson (2012), pesquisadores norte-americanos citam e analisam vários exemplos de cobertura jornalística com o envolvimento dos internautas por meio das redes sociais. Entre as páginas 43 e 58 os especialistas destacam a importância do trabalho da reportagem e a necessidade criteriosa na apuração das informações, apesar da facilidade de acesso e o grande volume de dados gerados no mundo online. Também falam da principal característica da convergência, o papel colaborativo no jornalismo virtual.

Reforçam que está cada vez mais difícil o profissional concorrer com o batalhão de testemunhas publicando notas em tempo real, no Facebook ou no Twitter. Com esta enxurrada de publicações nos meios virtuais, somadas a pressão de ser o primeiro a publicar a notícia, o jornalista tende abrir mão da tarefa de selecionar melhor e checar a veracidade da informação. Ao invés de entrar na rota frenética de disputar produção de informação, o caminho mais eficaz de transmitir uma notícia pode estar na personalização e no conhecimento sobre o assunto a ser abordado, já que as tarefas de escrever, fotografar, filmar fatos de interesse jornalístico e até dar furos, estão acessíveis a qualquer pessoa.

Conforme o estudo, estamos em meio a uma revolução da comunicação, em que o uso intensivo de bases de dados e a interação com múltiplas fontes e com o público são essenciais para a sobrevivência do jornalismo profissional. Mas, além de estar inserido e atuando neste cenário, o jornalismo precisa apurar e checar os dados da notícia, além de trazer sua experiência para o palco no sentido de filtrar e contextualizar a notícia. Caso contrário, a função do profissional será irrelevante em meio ao emaranhado de publicações nas redes sociais.

Apesar de disponibilizar uma grande quantidade de informações, no caso da postagem direta no Facebook, os veículos tradicionais não vão resolver o seu problema econômico nem melhorar a qualidade do jornalismo com a estratégia. Aliás, acabam se sujeitando às condições da rede social na tentativa de atrair a audiência para o negócio jornalístico. Além do mais, segundo a caracterização do jornalismo pós-industrial, qualquer seja o meio de disseminação, a informação hoje é instantaneamente compartilhada, discutida, comentada, criticada e louvada – ao vivo, sem possibilidade de controle. Em outras palavras, a imprensa está refém dos usuários e agora também do Facebook.

O jornalismo digital também impõe sua preferência de conteúdo editorial à imprensa. No Tow Center for Digital Journalism os autores citam o apelo ao entretenimento e, de preferência, usando casos genéricos e de rápido entendimento do público. De acordo com eles, embora muito jornalista vá torcer o nariz para fotos de “bichos decepcionados”, mas é isso que turbina as curtidas no jornalismo virtual. Portanto, com base no jornalismo pós-industrial, cujo foco está na troca de informações e na interação entre produtores e consumidores de notícias, os tradicionais meios de comunicação ainda engatinham tanto no aspecto editorial como econômico.

Novo contexto produtivo

Em artigo no portal Observatório da Imprensa, Castilho (2014) ajuda a elucidar o atual contexto da imprensa. Segundo ele, diante da frenética produção noticiosa e da reprodução das informações dos leitores, a imprensa se transformou numa repassadora de recados. Com a ausência de conhecimento agregado à informação, fica difícil diferenciar e classificar, em meio a tantas publicações, o que é produção jornalística. Sem o controle na etapa produtiva da notícia, fica cada vez mais frágil o papel do jornalista como profissional – gatekeeping –, e as informações em circulação crescem em quantidade e reduzem em qualidade, assim prejudicando seu valor mais nobre: a credibilidade.

Como os repórteres e os editores não conseguem mais agregar conhecimento devido ao ritmo intenso de produção jornalística e à complexidade dos temas em debate, a qualidade das notícias vem se degradando. Essa discussão é aprofundada no relatório de pesquisa sobre o jornalismo pós-industrial Anderson (2012), no qual os especialistas ressaltam que fica difícil para o jornalista ser mais rápido do que a testemunha ocular de um evento qualquer.

E com a enxurrada de produções nos meios virtuais, somadas a pressão de ser o primeiro a publicar a notícia, o jornalista tende abrir mão da tarefa essencial de checar a veracidade da informação. Ao invés de seguir à rota frenética de fazer jornalismo, um bom caminho pode estar na personalização da notícia e no conhecimento agregado ao assunto abordado, já que as tarefas de escrever, fotografar, filmar fatos de interesse jornalístico e até dar furos, estão acessíveis a qualquer cidadão.

O estudo Anderson (2012), porém, alerta que estamos em meio a uma revolução, em que a adaptação às novas fronteiras da profissão é a condição de sobrevivência neste cenário, prevendo o uso intensivo de bases de dados e a interação com múltiplas fontes e com o público. Isso reforça a necessidade do jornalismo e atenta para uma nova função do profissional, no papel de coadjuvante. Segundo ressalta o relatório, se o especialista não entender bem esse papel, não vai conseguir trazer sua experiência para o palco no sentido de filtrar e contextualizar. Essa mudança ainda não foi realizada na maioria das publicações digitais, que costumam tomar duas posições distintas em relação ao batalhão de cidadãos munidos do poder de mídia: ou ignorar solenemente ou usá-los como agentes produtores de conteúdo.

A posição coadjuvante do jornalista, à que o relatório se refere, é no sentido do profissional querer competir com o público quanto ao acesso e divulgação da informação. Para os pesquisadores, o melhor papel que o jornalista pode desempenhar na contemporaneidade, além de dominar as novas ferramentas de comunicação, é o de aproveitar a disponibilidade da grande quantidade de dados para contextualizar e interpretar melhor as informações antes de divulgá-las. Preocupante é o fato de que, até agora, atestam os autores do estudo sobre o jornalismo pós-industrial, “a maioria dos jornalistas e das instituições jornalísticas foi incapaz de tirar proveito da explosão de conteúdo de potencial interesse jornalístico trazida pela expansão da comunicação digital” Jenkins (2008).

Casos recentes, como o do New York Times e da BBC, que adotaram o Facebook para publicarem suas notícias, mostra uma estratégia dos grupos de mídia para tentarem captar a audiência online. A presença das companhias nas redes sociais visa aproximar os internautas aos sítios dos veículos e, consequentemente, trazer receita para a produção do conteúdo jornalístico. Contudo, sabe-se que esse tipo de retorno poderá ser muito baixo, uma vez que o Facebook mantém o controle na gestão majoritária do processo. Além de ser uma fonte de renda incerta para os grupos fazerem frente ao financiamento do jornalismo pós-industrial, a opção pode deixar ainda mais dependente o processo produtivo da notícia do gosto dos leitores. Ou seja, os veículos irão perder mais autonomia na seleção e produção do noticioso. Portanto, a tecnologia e as mídias sociais relativizando o poder das teorias do jornalismo: as Teorias Construcionistas.

Conclusões

Com uma sociedade mais participativa, questionadora e um fluxo de constantes mudanças, os pilares da teoria da comunicação também são impactados. O que, de certa forma, acaba refletindo nas hipóteses do jornalismo as quais estudamos aqui, que ficaram à mercê das forças externas da produção do conteúdo. Antes, conforme situa Appadurai (2004), os critérios dos valores notícia eram definidos “de dentro para fora”, agora essa lógica mudou para “de fora para dentro”. Com essa condição, portanto, o poder e o controle sobre a definição da notícia se deslocam das mãos do profissional para os dos leitores.

O jornalismo participativo, apesar de contar com várias vantagens, como fazer ouvir novas vozes, estar onde o jornal não pode estar, apresentar um olhar fresco sobre os temas, preconizar relações interessantes entre jornalistas e leitores, representa também uma nova lógica da produção das notícias e alterando o poder e a forma de atuação do jornalista no processo produtivo da informação.

Com a agilidade e a atualidade das notícias nas plataformas digitais, as estruturas de comunicação e os profissionais precisam atentar aos temas em discussão e responder com rapidez as demandas do público, sem abrir mão de valores legítimos e fundamentais no processo produtivo, tais como a interpretação e a checagem dos dados, para não perderem credibilidade e audiência. Ainda que a tecnologia tenha trazido um novo ritmo de investigação, e as técnicas de produção e edição da notícia tenham mudado, alguns parâmetros precisam ser respeitados para assegurar a qualidade da informação.

Por isto, antes da notícia ser publicada, ela costuma perpassar por um caminho dentro do sistema organizacional e produtivo do jornalismo, onde se manifesta a atuação do newsmaking e do gatekeeper. A mediação é permeada por uma série de técnicas e métodos, inserido numa estrutura profissional que garante determinada qualidade ao produto jornalístico. Sem tal procedimento e controle na informação, é difícil separar a notícia da opinião ou da mera especulação. Ainda mais nas redes sociais, em que o usuário é exposto a uma enxurrada de informações ou até mesmo mentiras e já não consegue distinguir com segurança em qual notícia pode acreditar. Ou seja, nos termos de Jenkins (2008), é preciso alguém para organizar e “amarrar esta espécie de gambiarra” para dar sentido à notícia.

E mesmo com as estruturas profissionais atuantes, a qualidade das notícias publicadas vem se degradando, porque os repórteres e editores não conseguem mais agregar conhecimento, em virtude do ritmo acelerado de produção jornalística e à complexidade dos temas em debate. As principais consequências disso são a perda de audiência e de receita financeira por parte das mídias tradicionais – jornal, rádio e TV.

Quanto à atuação do profissional na área, antes do uso da tecnologia e das redes sociais, o trabalho do jornalista era mais estável, porque a própria notícia era mais estável. A informação chegava à redação de fontes mais previsíveis e em uma quantidade menor, cuja função do editor era escolher o assunto e a forma de apresentá-lo, dentro de um determinado tempo.

Em suma, o editor/profissional já não tem tanto poder na definição do fato que deverá ganhar visibilidade pública, ou até mesmo de suprimir um acontecimento da divulgação, como se ele nunca estivesse existido. Portanto a participação e a intervenção do internauta no processo de produção e distribuição de informações, deixou a tarefa do profissional mais difícil na redação, quanto à seleção do conjunto de fatos e a moldá-los para “trabalhar” a opinião pública, conforme o interesse do veículo. No contexto atual, essa relação se dá de forma mais tensionada.

Como se vê, caso se deseje estudar a realidade atual, todas estas novas relações implicam a necessidade de uma atualização das teorias de newsmaking e gatekeeper, incorporando novas chaves interpretativas e novas categorias, que terminam por complexificar a compreensão dos fenômenos jornalísticos.

Por isso, na contemporaneidade, a hipótese do gatekeeper se encontra diante de uma situação nova, ou seja, em momento de constante movimentação e mudanças no contexto da informação. Tal momento exige uma condição ágil do profissional para separar e decidir sobre a procedência e a veracidade do conteúdo, mesmo diante da grande demanda de fontes produtoras de informação e do compromisso de publicá-la antes da concorrência.

Tudo isso, tem que ser resolvido por meio do caminho mais curto possível, todavia sem abrir mão da responsabilidade e esquecer da consequência que o fato poderá gerar. Também é fundamental que o “porteiro” tenha os critérios bem definidos para compreender a importância de sua atuação como profissional. E caso um deslize ocorra o usuário está sempre pronto a criticar e expor o erro ao público, sem dar chances ao profissional sair ileso da situação.

Essa aceleração e ampliação no fluxo de noticias, também proporciona um ambiente mais dialogal entre profissional e público. O acesso à tecnologia e às redes sociais favorece o público na divulgação das informações e na mobilização em prol das próprias ideias no espaço online. Diante disso, o poder do profissional na escolha e definição do que é ou não notícia diminuiu. Assim, o compromisso e a responsabilidade pela qualidade dos conteúdos são fatores cada vez mais importantes para o jornalista e os meios de comunicação, justamente para se diferenciarem em relação ao emaranhado de notícias publicadas no mundo virtual. Por isso, torna-se relevante dar mais atenção para a mediação do conteúdo e não só para a simples divulgação, ainda mais no caso de assuntos que não requerem urgência maior na publicação, como o entretenimento, que é os mais comuns nas plataformas virtuais.

É claro que com essa análise não foi possível esgotar toda a nova configuração do processo produtivo no jornalismo, mas se buscou compreender a participação do internauta na produção jornalística e como essa relação afeta a qualidade e a credibilidade da notícia, com base no foco das teorias do jornalismo: gatekeeper e as Construcionistas (newsmaking). Com esse recorte, também é possível constatar que a rotina produtiva do jornalismo está mais exposta à influência dos fatores externos, do que era antes do uso da conectividade e das redes sociais, por exemplo. Além do mais, depreende-se desse contexto, que a convergência não é uma mera ampliação do uso das tecnologias na comunicação e, sim, um processo que “ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros”, Jenkins (2008).

A atuação dessas forças acaba derrubando as barreiras que havia entre os produtores e os consumidores das informações. Em outras palavras, as pessoas saíram da passividade e agora querem exercer sua participação na produção e na distribuição do conteúdo que consomem. E esta nova realidade provoca mudanças tanto na cultura da convivência em sociedade quanto na forma e nos valores do jornalismo.

Referências

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Elstor Hanzen é jornalista e especialista em Jornalismo e Convergência das Mídias

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