Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > LEITURAS DE VEJA

O campo jornalístico virado pelo avesso

Por Mônica Carvalho em 26/02/2008 na edição 474

‘Para tentar compreender o que pode fazer um jornalista, é preciso ter no espírito uma série de parâmetros: de um lado, a posição do órgão de imprensa no qual ele se encontra […] no campo jornalístico; em segundo sua própria posição no espaço de seu jornal ou de sua emissora.’ Pierre Bourdieu [‘A estrutura invisível e seus efeitos’, in Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar E., 1977].

Há tempos que, em sala de aula, eu mostrava aos calouros de jornalismo que não há um limite claro entre o fato e a opinião. Mas esta discussão não é mérito meu. Em qualquer excerto retirado dos jornais e revistas brasileiros, isto fica muito claro. Principalmente se o analisarmos no contexto da página em que está inserido, combinado com títulos, subtítulos, imagens, legendas etc. Perguntava-me se não seria isto óbvio. O olhar de espanto de muitos estudantes dizia-me que não.

A questão se agravava ao fazer uma leitura minimamente atenta de uma única página de um grande jornal diário ou revista semanal. Chegava-se à conclusão de que o que ali se encontrava parecia atender ao interesse político e/ou econômico de um ou mais fulanos. Além de, por tabela, favorecer o próprio veículo com anúncios, vendas e muito mais. Piorava quando víamos textos gratuitamente agressivos, forjados à custa de apurações deficientes ou até inexistentes. Nesses momentos, alguns olhares de espanto convertiam-se em suspiros de decepção ou tristeza. No entanto, nada disso lhes parecia assim tão óbvio.

Com as costuras à mostra

Esta falta de clareza para parte do público quanto à produção jornalística brasileira pode ser atribuída a uma certa estratégia em seu discurso, que não se assume abertamente nem pró, nem contra, o que se apresenta na cena política. De modo geral, exceto por um ou outro veículo, parece existir um ‘compromisso de ilusão de isenção’. Compromisso este assumido nas entrelinhas da produção discursiva dos meios de comunicação, um dito que escusa de ser dito. Aliás, para os que não respeitam esta ‘regra’, muitos jornalistas costumam fazer críticas severas, embora seja uma prática comum aos veículos sérios fora do Brasil.

Ainda assim, a máxima ‘os meios de comunicação são manipuladores’ é bastante difundida por aí. A desconfiança acerca dos meios parece existir, seja entre alunos dos cursos de Jornalismo como entre o público em geral, consumidor dos media. A diferença está em realmente perceber ou fazer perceber isto claramente no conteúdo impresso ou no que é visto na televisão. Creio que este pode ser o maior mérito da publicação da série de Luis Nassif sobre a Veja.

Como sempre, há os que crêem, há os que não crêem e há os que se recusam a acreditar. Porém, didaticamente, e sem que o leitor tenha que pagar tanto por isso, Nassif explicita os meandros do discurso jornalístico; os problemas de apuração da Veja; as leituras próprias e de outros jornalistas sobre seus colegas e sobre os veículos concorrentes; as interações entre os que fazem parte do universo jornalístico e as deste universo com os universos econômico e político do país. Enfim, expõe, em parte, as tensões e relações de forças por trás da produção jornalística de um grande veículo nacional.

É o campo jornalístico virado pelo avesso, com as costuras à mostra, uma perspectiva que normalmente é negada ao leitor comum. Resta-nos saber como este mesmo leitor vai digerir todo este material.

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Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e pós-doutoranda do Instituto de Estudos Jornalísticos da Universidade de Coimbra

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