Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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DIRETóRIO ACADêMICO >

O contexto político de uma época

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite em 21/04/2015 na edição 847

Após a nossa independência, em setembro de 1822, frustrando as expectativas de participação política das províncias, D. Pedro I centralizou o poder e dissolveu, em 1823, a Assembleia Constituinte. Outorgada a Constituição de 1824, a figura do imperador se investiu de plenos poderes, legitimados pela criação do Poder Moderador. Essa atitude, despótica e conservadora,  foi de encontro à facção liberal, representada por monarquistas constitucionais e liberais mais exaltados (farroupilhas) que defendiam uma maior participação política. O patrono da nossa imprensa, Hipólito José da Costa (1774-1823), considerou estranho que, no Brasil, após sua independência (1822), os escritores permanecessem em silêncio quanto à permanência do sistema escravocrata. Nas páginas do primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense (1808 -1822), editado por ele, em Londres, em novembro de 1822, fez a seguinte crítica:

“É ideia contraditória querer uma nação livre, e se o consegue ser, blazonar, em toda a parte e em todos os tempos, de uma liberdade, mantendo dentro de si a escravidão, isto é, o idêntico costume oposto a liberdade. Os brasileiros, portanto, devem escolher entre essas duas alternativas: ou eles nunca hão de ser um povo livre, ou hão de resolver-se a não ter consigo a escravidão.”

O clima político-social se tornou ainda mais tenso, principalmente, depois do assassinato do jornalista liberal Líbero Badaró (1798-1830). A suspeita do mandante do crime seria o próprio imperador que era alvo de críticas ferozes no Observador Constitucional (1829-1832), no qual o jornalista escrevia. Diante de tantos conflitos com a Assembleia Constituinte, que aumentaram sua impopularidade, D. Pedro I abdicou do trono, em abril 1831, em favor do seu filho. Pedro de Alcântara, que, ainda menino, não podia governar e instalou-se o Governo de Regências. Um golpe, em 1840, antecipou a maioridade do futuro imperador, que contava com 14 anos, iniciando o segundo reinado no Brasil (1840-1889).

Durante o período regencial, a falta da figura do imperador, representante da unidade nacional, e os problemas administrativos e econômicos deram origem a várias revoltas, em diferentes províncias do Império, entre as quais a “Revolução Farroupilha” (1835-1845), que foi a mais longeva de todas. Em 11 de setembro de 1836, em Seival, próximo de Bagé, o general Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense. Até aquele momento, todas as tentativas republicanas ocorridas em outras Províncias, ao longo da história do Brasil, haviam fracassado.

O jornalismo combatente

Ao longo deste processo político, durante o império, foi acompanhado pela imprensa da época, embora esta tivesse o caráter mais opinativo, defendendo posições políticas. Alguns periódicos apoiavam o governo central; outros criticavam de maneira ferrenha a política do Império. Nesses embates políticos, muitos jornalistas foram presos, espancados e até mortos no exercício da luta por um ideal de justiça. Frei Caneca (1779-1825), Cipriano Barata (1762-1838), João Soares Lisboa (? -1824), Luis Augusto May (1782-1850), Evaristo da Veiga (1799-1837) Líbero Badaró (1798-1830), Joaquim Nabuco (1849-1910), entre outros nomes, destacaram-se na luta por um Brasil mais democrático.

No Rio Grande do Sul, não devemos nos esquecer dos primeiros jornalistas, como Lourenço de Castro Júnior (? – 1852), Vicente Ferreira Gomes, o “Carona”, (1805-1838), Francisco Xavier Ferreira, o “Chico da Botica” (1771-1838), o italiano Rossetti (1800-1840), Pedro José de Almeida, (1799-1850) o Pedro Boticário entre outros nomes, que defenderam os ideais de liberdade de expressão nos primórdios do nosso jornalismo.

A imprensa gaúcha e as posições políticas da época

A imprensa cumpriu um papel importante no período pré-revolucionário e durante a Revolução Farroupilha. A partir do surgimento do primeiro jornal da Província de São Pedro o Diário de Porto Alegre, em 1º de junho de 1827, legalistas (conservadores) e revolucionários liberais passaram a expressar suas ideias e convicções políticas por meio dos jornais que circularam na capital ou no interior da província. De acordo com os jornalistas Carlos Reverbel (1912-1997) e Elmar Bones, no livro Luiz Rossetti: o editor sem rosto, no período de 1827 a 1850 circularam em torno de 61 jornais na província gaúcha, dos quais 37 circularam em Rio Grande, incluindo os órgãos oficiais da República Rio-Grandense: O Povo (Piratini – 1838-1839 e Caçapava – 1839 -1840); O Americano (1842 a 1843 – Alegrete) e Estrella do Sul (1843 – Alegrete).

O primeiro óbito

Curiosamente, o primeiro óbito, ao iniciar a Revolução Farroupilha, no combate da Ponte da Azenha, foi do jornalista Antônio José Monteiro, o Prosódia, responsável pelo jornal legalista O Mestre Barbeiro (1835). Este foi o menor periódico publicado na imprensa gaúcha: 11 x 16 cm. Outro importante periódico, que circulou nesse período, foi O Noticiador. Fundado, em 1832, na cidade de Rio Grande, foi o primeiro jornal a ser publicado no interior da Província. Seu redator e fundador Francisco Xavier Ferreira (1771-1838), O Chico da Botica, introduziu a Maçonaria na Província de São Pedro e, por meio de seu jornal, criticou o tráfico negreiro e defendeu as ideias liberais.

Outro marco na imprensa pré-revolucionária foi o Constitucional Rio-Grandense (1828-1831), redigido por Vicente Ferreira Gomes, o Carona, (1805-1837), que combatia de maneira incisiva o centralismo do Império. Já a presença do imigrante alemão, na Revolução Farroupilha, está registrada no jornal O Colono Alemão (1836). Criado por Hermann Von Salisch (1797-1837), este periódico procurava arregimentar os colonos à causa farroupilha, sendo impresso em Porto Alegre devido à inexistência de uma tipografia na Colônia de São Leopoldo. Importante ressaltar, também, o nome da primeira mulher jornalista no Brasil, a gaúcha de Rio Pardo Maria Josefa Barreto Pereira Pinto (1787-1837), que dirigiu o jornal legalista Belona irada contra os sectários de Momo (1833-1834) Esses, entre outros periódicos, são fontes imprescindíveis a todo pesquisador que se dedique a um estudo meticuloso desse período da história do Rio Grande do Sul. Uma boa parte destes periódicos se encontra, em Porto Alegre, sob a guarda do Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa que, desde 1974, contribui, por meio de seu valioso acervo, na elaboração de importantes trabalhos no campo da pesquisa historiográfica.

O jornal oficial dos revolucionários gaúchos

Em Piratini, primeira capital farroupilha, surgiu, em 1º de setembro de 1838, a primeira edição do periódico O Povo (1838-1840), Órgão Oficial da República Rio-Grandense, que circulou às quartas-feiras e aos sábados. Criado por Domingos José de Almeida (1797-1871), o jornal teve a sua tipografia adquirida, no Uruguai, com o dinheiro da venda de 17 escravos, que lhe pertenciam, recebendo a denominação de Tipografia Republicana Rio-Grandense. Em sua segunda fase, o jornal passou a ser impresso em Caçapava (segunda capital farroupilha). Quando a cidade foi tomada, em 1840, pelas tropas legalistas, a tipografia foi totalmente destruída. Nessa segunda fase, o periódico ostentava em seu cabeçalho o dístico “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, inspirado no lema da Revolução Francesa de 1789. O jornal totalizou 160 edições, após ter funcionado 627 dias, de acordo com o engenheiro, arquiteto e pesquisador Francisco Riopardense de Macedo (1921-2007).

O Hino Farroupilha

Em sua edição de 4/05/1839, o jornal publicou a letra original do Hino Farroupilha, conforme foi cantada no baile, em Caçapava, em comemoração ao primeiro aniversário do Combate do Barro Vermelho, ocorrido em Rio Pardo. O jornal denominou de Hino da Nação. O autor da música, o mineiro Joaquim José Mendanha (1801-1885), era maestro da banda do Segundo Batalhão de Caçadores da Primeira Linha, apreendida pelos farroupilhas, durante o combate. Nessa ocasião lhe foi exigido que compusesse o Hino Farroupilha. O maestro era um negro alforriado que se destacou no cenário musical da nossa cidade. Dirigiu os coros da Igreja das Dores e da Matriz e fundou a Sociedade Musical de Porto Alegre. Na inauguração do Teatro São Pedro, em 1858, o maestro Mendanha regeu uma orquestra de 24 músicos para deleite da elite. Ocorreram três versões da letra do nosso hino. A versão oficial foi definida no Centenário Farroupilha (1935), durante o governo de Flores da Cunha (1880-1959). A letra é de Francisco Pinto da Fontoura (o Chiquinho da Vovó) e música de Joaquim Mendanha.

Os redatores do jornal O Povo

O criador e redator do jornal O Povo, Domingos José de Almeida (1797-1871), era natural de Minas Gerais e, também, destacou-se como Ministro da Fazenda e do Interior. Entre outras realizações, foi responsável pela criação da primeira barca a vapor, no Rio Grande do Sul, e pela fundação de Uruguaiana. Autodidata e possuidor de uma cultura e inteligência invejáveis, muitos o consideram um dos principais ideólogos da Revolução Farroupilha. O jornal contou, ainda, com a presença marcante do italiano Luigi Rossetti (1800-1840) e, na sua fase final, com os textos de João Batista Cuneo (1809-1875). Perseguidos na Itália, devido aos ideais republicanos da “Jovem Itália”, movimento criado por Giuseppe Mazzini (1805-1872), encontraram abrigo na província gaúcha. Luiz Rossetti morreu no combate do Passo do Vigário (1840), em Viamão (Vila Setembrina).

Dentre os italianos que se envolveram na Revolução, destaca-se na imprensa também o conde Lívio Zambeccari (1802-1862), cientista e militante político, natural da Bolonha, que escreveu nos jornais O Recopilador Liberal (1832-1836) e o Republicano (1834), que eram impressos em Porto Alegre. Considerado o secretário de Bento Gonçalves, esteve preso com o mesmo no Rio de Janeiro. No jornal O Recopilador Liberal, no dia 25/09/1835, publicou na íntegra, após a tomada de Porto Alegre, em 20/09/1836, um manifesto de Bento Gonçalves da Silva (1788- 1847) que explicava as razões do movimento armado, convocando a todos para a manutenção da ordem e da liberdade.

A tipografia da República Rio-grandense

Devido aos deslocamentos constantes das tropas farroupilhas, a capital da República mudava de local. Estabelecida em Piratini, foi transferida para Caçapava e, depois, para Bagé e São Gabriel, que foram sedes provisórias. Em julho de 1842, Alegrete se tornou a nova e a última capital, onde se reuniram os Constituintes Farrapos para debater e elaborar o Projeto da Constituição da República Rio-Grandense, que, na prática, não se efetivou devido a discordâncias internas. Este aspecto andarilho dos arquivos da República Rio-Grandense e da sua tipografia oficial fez com que recebesse a perífrase de República das Carretas pelo saudoso folclorista e historiador Barbosa Lessa (1929-2002),

A Imprensa Farroupilha foi fundamental na divulgação dos ideais liberais, por meio dos periódicos que criticavam e denunciavam os abusos administrativos e econômicos que a província de São Pedro sofria por parte do poder central. A imprensa gaúcha, desde a sua fundação, em 1827, tem participado dos momentos significativos da nossa história. O escritor e pesquisador Rodrigues Till afirmou, em discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Maria: “E um país sem imprensa, sem democracia – bem o sabemos! – é um país que jamais terá guarida na História. Jamais terá guarida na história do mundo moderno”… (22/11/1991, Santa Maria, RS).

Bibliografia

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K0ÜHN, Fábio. Breve história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Leitura XXI, 2007.

MIRANDA, Marcia Eckert; LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. Jornais raros do Musecom: 1808-1924. Porto Alegre: Comunicação Impressa, 2008.

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VIANNA, Lourival. Imprensa Gaúcha (1827-1852). Porto Alegre: Museu de Comunicação Social HJC, 1977.

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Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu de Comunicação Social Hipólito da Costa

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