Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA ALTERNATIVA

O desafio da profissionalização da pequena imprensa

Por Alexandre Lenzi em 20/01/2009 na edição 521

Os pequenos jornais impressos da Grande Florianópolis, embora representem um mercado que não pode ser generalizado nem discriminado como um segmento menor e menos importante que a imprensa tradicional, ainda têm muito para evoluir até a profissionalização. Ao mesmo tempo em que já encontramos exemplos de jornais que começaram a ser planejados ainda nos bancos acadêmicos, é possível deparar com casos onde o único jornalista presente é alguém que assina o expediente ‘na amizade’, sem qualquer função real na produção jornalística.

O importante é que aqueles que ingressam agora neste meio parecem mais conscientes e dispostos a buscar esta evolução, em relação àqueles que, depois de anos de experiência, já estão viciados numa prática amadorística. Mas, diante do aperto financeiro, investir em pessoal ainda é um plano que acaba constantemente prorrogado. Mesmo aqueles que demonstram interesse na busca por novos jornalistas são relutantes para contratar profissional regulamentado. O resultado é a presença pequeníssima de jornalistas num mercado com potencialidade maior que a demonstrada.

Análise de 14 jornais

Em novembro de 2005, existiam 136 jornais impressos filiados à Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina (Adjori/SC). Estatísticas reveladas pela associação indicam que cada jornal tem uma tiragem média de 3 mil exemplares por edição e a periodicidade mais comum – adotada por 55,56% dos associados – é a semanal. Juntos, ainda segundo dados da entidade, esses jornais ultrapassam a marca de 400 mil exemplares circulando em praticamente todos os 293 municípios de Santa Catarina, incluindo Florianópolis. Considerando-se a média de três leitores por exemplar, sugerida pela Adjori/SC, os jornais associados somariam mais de um milhão de leitores no estado.

Foi este cenário que motivou a realização da monografia, apresentada em dezembro de 2005, no IV Curso de Especialização em Estudos de Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Na seleção da amostra, foram dois principais recortes. O primeiro foi geográfico, limitando a pesquisa aos 22 municípios que integram a região da Grande Florianópolis. Outra condição imposta foi a filiação à Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina (Adjori/SC), buscando a garantia de uma amostra com circulação local e periodicidade fixa confirmadas. O resultado foi a análise de 14 jornais da Grande Florianópolis [a relação dos 14 jornais pesquisados ficou assim constituída: Biguaçu em Foco (Biguaçu), Jornal Rural do Sul (Florianópolis), Espinheira (Palhoça), O Caranguejo (Palhoça), Palavra Palhocense (Palhoça), Jornal VIP – Vitrine Popular (Santo Amaro da Imperatriz), O Regional (Santo Amaro da Imperatriz), Folha Regional (São João Batista), Jornal de Barreiros (São José), Oi São José (São José), Tribuna Josefense (São José), Jornal de Tijucas (Tijucas), Razão Tijuquense (Tijucas) e Usina do Vale (Tijucas)], por meio de entrevistas com representantes destes veículos.

Abordagens mais ousadas

Aqui a expressão jornal do interior será empregada como sinônimo de pequena imprensa, sem implicar em delimitação geográfica – localizar-se fora da faixa litorânea – ou político-administrativa – estar fora da capital.

Vale ressaltar que o mercado local é pouco explorado neste sentido. Dos 22 municípios que integram a região metropolitana da Grande Florianópolis, apenas sete cidades contavam com jornal filiado à Associação dos Jornais do Interior de Santa Catarina (Adjori/SC), sendo que os principais ainda são os mais próximos da capital, como Palhoça e São José.

Ao manterem a proposta de divulgar as notícias que não aparecem nos veículos tradicionais, não faltaria espaço para os pequenos jornais em cidades como Governador Celso Ramos, Nova Trento, Paulo Lopes e São Pedro de Alcântara, para citar apenas alguns exemplos. Tentar encontrar na mídia tradicional notícias destas localidades que vão além do Santuário de Nova Trento e da Penitenciária de São Pedro de Alcântara pode ser uma tarefa bastante árdua. E seria pretensioso achar que nestes locais não há informação que sustente um informativo, pelo menos mensal. Entre os jornais pesquisados, existem exemplos de cobertura voltada mais para o interior, como o caso dos veículos com sede em Santo Amaro da Imperatriz e São João Batista. A dificuldade aqui parece ser atrair os jornalistas dos chamados grandes centros.

Entendemos que o papel dos pequenos é mostrar a informação que não tem espaço na imprensa tradicional e também procurar abordagens mais ousadas destes assuntos por meio de uma cobertura também crítica e fiscalizadora.

Redação em casa

O que também poderia viabilizar uma maior representação da categoria é a própria união do setor. Apesar da existência de uma entidade de classe, não se percebe um real intercâmbio entre os jornais da região da Grande Florianópolis. Isso poderia garantir iniciativas positivas como, por exemplo, a criação de uma cooperativa de impressão ou algo que exija menos investimento, como a troca de matérias entre os informativos. Afinal, a manchete de um jornal de Palhoça pode render pelo menos uma retranca na edição de um veículo de São José, e vice-versa. Trabalhando juntos, os pequenos poderiam buscar um trabalho de maior visibilidade sem perder suas características.

Numa primeira etapa, focamos nas características técnicas dos jornais. Todos os 14 veículos utilizam o formato tablóide. O número de páginas varia entre 12 e 32, com o padrão ficando em 16 páginas – quantidade adotada por cinco jornais (36%). A periodicidade mais comum é a mensal, utilizada por nove jornais (65%). Outros três (21%) são semanais, um (7%) é quinzenal e um (7%) circula quatro vezes por semana. A tiragem é bastante variável. A maioria – seis jornais (43%) – não consegue tirar mais que 3 mil exemplares por edição. A distribuição gratuita é adotada por oito jornais (58%). Todas as 14 redações são informatizadas, mesmo que isso signifique apenas um computador com internet na casa do dono. Em nove jornais (65%), a redação funciona na casa do proprietário.

Contratados e colunistas

Na análise sobre a equipe profissional, constatou-se que os mais jovens proprietários de jornal tinham 24 anos – eram dois casos de empresários com esta idade. O mais velho tinha 71. Mas a maioria (47%) ficava na faixa etária entre 41 e 60 anos. É preciso destacar aqui que neste item apenas 13 empresários forneceram os dados [dos 14 jornais que integram a pesquisa, apenas o proprietário do jornal Biguaçu em Foco se recusou a conceder entrevista, alegando falta de tempo e desinteresse em participar do projeto. Neste caso, dados parciais foram levantados junto a Adjori/SC e com base nas informações apresentadas no próprio jornal]. Ainda na parte restrita a respostas de 13 entrevistados, foi possível identificar que cinco (38%) se dedicam exclusivamente ao jornal enquanto outros oito (62%) têm outra fonte de renda. Destes últimos, sete têm como fonte de renda extra a aposentadoria e um é sócio de uma rádio. Destacou-se também um interesse no distanciamento do envolvimento político. Dos 13 empresários, onze (85%) não possuem filiação partidária, embora destes três já tenham tido mas acabaram optando pela desfiliação.

Já no item formação, foi possível obter os dados dos 14 empresários. Dois (14%) deles estudaram apenas até o ensino fundamental, cinco (36%) concluíram o ensino médio e sete (50%) o ensino superior. Destes últimos, três são jornalistas e, portanto, os únicos com registro profissional. Entre os outros quatro empresários com ensino superior completo estão um contador, um advogado, um economista e um cientista social.

Na busca de dados sobre a equipe de funcionários, também se obteve respostas de 13 dos 14 jornais. Três (23%) têm funcionários contratados – sendo que em apenas um caso, no Jornal de Tijucas, o contratado era jornalista formado. No O Regional, o contratado era estudante de Jornalismo. No Jornal VIP, os contratados atuam apenas na parte de diagramação e vendas, mas neste caso pelo menos o dono é jornalista. Em 12 (92%) dos 13 jornais entrevistados, existe a figura do colunista não remunerado.

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Jornalista com especialização em Novas Mídias pela Universidade Regional de Blumenau (2004) e em Estudos de Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005)

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