Quarta-feira, 19 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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O diploma morreu, viva o jornalismo

Por Márcio Leijoto em 23/06/2009 na edição 543

É difícil avaliar o que vai acontecer com o jornalismo daqui para a frente, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de eliminar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Afinal, tudo isso vai passar pelo crivo dos donos dos meios de comunicação e pelas pessoas que sustentam financeiramente os órgãos de imprensa (não estou me referindo aos anunciantes nem aos leitores que compram espaço nos classificados).

Não sou nem contra nem a favor da obrigatoriedade do diploma. Defendo um curso básico antes de alguém ingressar na profissão: seja pela graduação, por uma especialização ou mesmo por um trainee como os oferecidos por Folha de S.Paulo, Estadão, Globo e Grupo Abril. Mas o que me preocupa agora é ausência de uma regulamentação do jornalismo.

Afinal, qualquer um pode hoje argumentar que faz jornalismo. Somos um país de 183,9 milhões de jornalistas. Não tenho medo de perder meu emprego para um ‘sem-diploma’, mas temo o que pode acontecer quando os ‘sem-diploma’ começarem a fazer jornalismo. Afinal, o Brasil não é feito de Machados de Assis, Nelson Rodrigues e Clarice Lispector.

Jornalismo é uma técnica

Vejo pontos positivos na decisão do STF:

1) Se os cursos de Jornalismo quiserem se manter, vão ter de mudar radicalmente suas grades curriculares. Porque o argumento do diploma no final do curso já não serve como justificativa para ingressar em uma faculdade que não ensina nada de concreto. A completa ausência de qualidade na maioria esmagadora dos cursos foi uma das coisas que enfraqueceu muito o debate. Nem todas as mais de 400 faculdades vão conseguir se sustentar.

2) Ficou claro que os ministros do STF não conhecem nossa profissão e, pior, muita gente leiga concordou com a decisão da Suprema Corte, como se isso fosse melhorar a qualidade dos meios de comunicação. Para mim, isso é mais uma prova de que nossa profissão está em séria crise (são vários os sinais emitidos recentemente, como, por exemplo, a repercussão do blog da Petrobras). Nossa credibilidade foi para o ralo. A decisão dos ministros pode servir como uma chacoalhada.

3) Foi mais uma prova de que nossa categoria é realmente desunida. Apenas seis sindicatos estiveram presentes durante o julgamento. Aposto que se fosse uma votação sobre o diploma de Direito, a OAB estaria em peso lá.

Esse discurso de que a obrigatoriedade do diploma fere a liberdade de expressão garantida na Constituição, acho equivocado. Afinal, apesar de um jornal ser um espaço para debates, o jornalismo é – pelo menos, acredito – uma técnica. E existe espaço para colaboradores, intelectuais, articulistas, leigos e quem mais quiser dar um pitaco em vários meios de comunicação – sejam impressos ou virtuais. Tem a internet, onde qualquer um pode criar um blog e escrever sobre o que quiser e ser mais respeitado e lido do que muitos jornais ditos sérios.

Matérias ‘com conhecimento científico’

A minha pouca experiência na profissão – comecei a trabalhar como jornalista de fato em 2001 – mostra que há um pouco de verdade e um tanto de equívoco quando o ministro Gilmar Mendes aponta que jornalistas formados em Jornalismo (hoje isso não é mais redundante) não agem com mais ética e responsabilidade ao tratar de um fato.

Acredito que os jornalistas formados em Jornalismo têm mais noção de seus erros e, dependendo da consciência de cada um, se sentem mais culpados ou não. Mas o que pude perceber por aí é que nós, jornalistas, nos enxergamos como empregados de um dono de jornal que normalmente não é jornalista (ou não era até ontem). E nós o obedecemos. E aí, entre o leitor e o dono do jornal, já ouvi milhares de justificativas e argumentos para o profissional ficar com o segundo. O diploma não garante que o jornalista vá seguir o manual do jornalismo ideal e desafiar o patrão quando este mandar fazer uma matéria com ‘um viés otimista do governador’.

Ainda sobre esse lance de responsabilidades, lembro de um jornal – acho que em Franca (SP) – em que a Redação foi dominada por advogados, pelo medo de processos e indenizações. E lá quem apita são eles, formados em Direito, mas que hoje podem ser chamados de jornalistas.

Aqui em Goiás tem um dono de um meio de comunicação que já expressou várias vezes o desejo de contratar profissionais de ‘todas as áreas de conhecimento’ para escrever matérias jornalísticas ‘com conhecimento científico’.

Parentes e amigos na Redação

O argumento de que a regulamentação do jornalismo é de 1969, no auge da ditadura, que foi uma forma de expulsar os intelectuais dos jornais, e tudo mais neste sentido, também é válido, mas isso não exime a nossa profissão de uma regulamentação. O jornalismo pode, sim, ser prejudicial à sociedade, tanto quanto um médico irresponsável ou um advogado picareta. Tantos casos famosos por aí.

Quem já tem o diploma na mão, acho que não tem o que lamentar. Até fiz isso ontem à noite, mas agora vejo que o lance é correr para a frente. Me especializar, estar sempre atento, estudando, acompanhando as novidades, lendo. Algo que já fazia, mas que ao entrar no ‘mundo virtual’ percebi precisar aprofundar ainda mais.

E outra: a decisão do STF foi contra a obrigatoriedade do diploma. E não contra a validade do mesmo. Os cursos de graduação agora é que vão dizer se vale a pena ou não estudar Jornalismo. Se alguém quer ser jornalista e existe um curso de Jornalismo que oferece uma gama interessante de opções, por que essa pessoa vai escolher outro curso? Muita gente entrava no curso de Jornalismo não por causa da obrigatoriedade do diploma, mas era essa necessidade – na minha opinião – que mantinha o estudante os quatro anos na sala de aula.

O presidente da ANJ disse que tudo vai continuar na mesma. Que os jornais, em sua maioria, vão continuar contratando gente com diploma de jornalista. Não sei até onde isso é verdade. Consigo enxergar, principalmente fora dos grandes centros, muitos empresários e políticos empurrando jovens, parentes ou filhos de amigos para dentro de uma Redação. Seja por iniciativa da pessoa ou do dono de jornal.

Estamos em crise

Sei de uma coisa. Não existe um mundo ideal. E o Brasil não é nem os EUA nem a Europa. Os donos de jornais daqui – com algumas exceções – não pensam como os grandes empresários da imprensa mundial. Nem todos vão atrás de ‘gente qualificada’. Vão atrás do dinheiro e de gente que faça o dinheiro aparecer. Profissionais que façam o patrão conquistar a elite endinheirada e o público leitor. Melhor ainda se der para satisfazer também o ego e não só o bolso do patrão, criando um jornal com cara de jornal (mas não necessariamente com o conteúdo de um). Para ganhar dinheiro com um jornal não é preciso fazer jornalismo.

E mais: a internet ajuda, em parte, o cidadão a não ser enganado pelos meios de comunicação, já que ainda é uma minoria que acessa o mundo www e mesmo assim para usar email, orkut e msn. A quantidade de informações é gigante, as mentiras publicadas são desmentidas via concorrentes, TVs, sites e blogs, mas quem garante que o desmentido não é uma nova mentira?

Li no blog do Rogério Christofoletti que o Ministério do Trabalho criou um grupo no final do ano passado para trabalhar em uma nova regulamentação do jornalismo. Ainda segundo o blog, o projeto estaria em banho-maria. Acho que isso deveria ter ficado pronto antes da decisão do STF, mas agora é ir atrás disso e começar uma nova luta.

‘Ah, mas nos Estados Unidos o diploma não é obrigatório.’ Entretanto, há pesquisas apontando que as empresas jornalísticas americanas preferem contratar pessoas que saíram de escolas de Jornalismo. Aqui no Brasil, além de não se exigir nem mais primeiro grau completo, as escolas de Jornalismo são uma fiasqueira.

Mais do que nunca, precisamos nos reafirmar. Transformações devem ocorrer. As redações vão sentir o impacto da decisão do STF. Talvez não de forma imediata. Mas jornalistas ainda são necessários. E agora acho que está mais do que na hora de mostrarmos isso. Senão a tendência é só piorar. Ao desregulamentar nossa profissão, os ministros não acabaram com o jornalismo, mas apenas escancararam algo que já estava evidente. Estamos em crise.

******

Jornalista, editor de ‘Cidades’ do jornal Hoje, Goiânia, GO

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