Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
Menu

DIRETóRIO ACADêMICO >

O discurso favorável ao regime do terror

Por Marcelo Pimenta e Silva e Rafael Brignol em 29/09/2009 na edição 557

No final da década de 1960, o Brasil passava pelo recrudescimento do regime militar, que desde 1964 governava o país de forma autoritária, e amordaçava a imprensa com uma censura brutal e violenta. Após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), a ditadura instalava um período de terror e opressão para quem se opunha às diretrizes impostas pelos militares. Nesse contexto, no ano de 1969, em especial no mês de outubro, o município de Bagé, no Rio Grande do Sul, vivia um clima de euforia, sentimento distinto da maior parte do país.

A cidade que se localiza quase na fronteira com o Uruguai, com importância histórica em períodos como a Revolução Farroupilha (1835-1845) e a Revolução Federalista de 1893, além de ser uma das cidades mais tradicionais do Rio Grande do Sul – pela economia voltada, principalmente, para a pecuária e agricultura – esperava ansiosa a possibilidade de um conterrâneo tomar posse como presidente do Brasil. O que de fato ocorreu. Emílio Garrastazu Médici, natural de Bagé, tornou-se a partir de 30 de outubro, o terceiro presidente militar do Brasil desde o golpe de 1964.

O general gaúcho governou o país de 1969 até 1974 e entrou para a história como o presidente do período de maior violência durante a ditadura militar. É no governo Médici que os aparelhos de repressão vão adotar de uma violência extrema para acabar com qualquer força contrária ao regime. A posição dos militares resultaria em ações de prisão, tortura e assassinatos de diversos presos políticos.

Leitores e anunciantes

Contudo, por mais violenta que fosse a atitude do governo militar junto à sociedade, havia o respaldo de setores civis. Isso porque a política adotada pela ditadura favorecia a concentração de renda para as classes mais altas, bem como elegia uma proposta de realizar obras ‘faraônicas’ estimuladas por incentivo do governo norte-americano – que contribuía com recursos para empregar as ações da doutrina de segurança nacional nos países da América do Sul –, dessa forma, o governo militar usou da propaganda ufanista para divulgar, via meios de comunicação, a idealização de um país em ‘ordem’ e com força no controle social, prática justificada para a efetivação de um projeto modernizante com vistas ao progresso econômico. Portanto, eram necessárias as restrições à liberdade individual, visto que tais medidas seriam efetivas para que o país se mantivesse protegido do ameaçador ‘terrorismo de esquerda’ incentivado pelos países comunistas.

Mesmo com a censura imposta aos meios de comunicação no período Médici, muitas empresas e ‘conglomerados’ de comunicação receberam vantagens com o chamado ‘Milagre Econômico’. Assim, era evidente o apoio na divulgação da propaganda governamental. Para salientar como a imprensa atuava nesse período é importante verificar a diferença de posicionamentos na imprensa brasileira da época. Em comparação com a imprensa alternativa, que usava subterfúgios para divulgar sua ideologia contrária ao regime, como o semanário Pasquim que adotava o humor anárquico para divulgar uma mensagem crítica, havia publicações como a revista Veja, que também apresentava uma certa ‘ideologia’, como aponta Juliana Gazzoti (1998) em tese de mestrado sobre Veja e a ditadura militar. Gazzoti entende que a revista tinha um foco diferente da ideologia radical de veículos menores, os chamados jornais ‘nanicos’. Veja fazia parte de um império de comunicação (a editora Abril) e precisava ter uma boa relação com o governo, visto que ‘era fortemente orientada por questões empresariais e mercadológicas’.

O ‘Milagre Econômico’, ao favorecer a produção de bens duráveis, possibilitou que os anunciantes destes produtos se beneficiassem com a propaganda nos meios de comunicação. A classe média passou a adquiri-los também. Com isso, o mercado de Veja coincidia com o de seus anunciantes. […] Além disso, toda a parte de diagramação, de publicidade, e da montagem das matérias era cuidadosamente preparada para agradar aos leitores e aos anunciantes responsáveis também pela sobrevivência da revista (GAZZOTI, Juliana: 1998).

Apoio irrestrito

Com o intuito de observar como se comporta um veículo de comunicação durante regimes totalitários, foi desenvolvida uma pesquisa durante o ano de 2008 pela Universidade da Região da Campanha, Urcamp, localizada na cidade de Bagé. O trabalho oriundo do Núcleo de Pesquisa em História da Educação e Comunicação Social, sob orientação da professora doutora Clarisse Ismério, consistia em analisar a imprensa local e como ela abordava a ditadura militar.

Os estudantes Marcelo Pimenta e Silva (na época, acadêmico de Jornalismo) e Rafael Brignol, acadêmico de Psicologia, escolheram o jornal Correio do Sul (único jornal impresso da cidade naquele período), para verificar a construção de representações sociais da imprensa acerca da figura do governo militar e, em especial, do general Emílio Garrastazu Médici no ano de 1969.

No ano de 1969, Bagé contava com quatro veículos de comunicação. Eram três emissoras de rádio AM e um jornal impresso. O jornal Correio do Sul tratava-se de um veículo consolidado na sociedade bageense, e na época contava com mais de 50 anos de circulação na cidade e região. Fundado em1914, o Correio do Sul foi idealizado para ser um veículo opositor ao jornal O Dever, esse ligado ao Partido Republicano que divulgava as ideias de seus líderes regionais Júlio de Castilhos e depois Borges de Medeiros. O Correio do Sul era editado pelo polêmico jornalista Fanfa Ribas e tinha como principal objetivo defender os preceitos federalistas. A partir da década de 30, o impresso ficou como o principal jornal do município devido à falência do concorrente.

No ano escolhido para análise, o jornal manteve uma política editorial que ia de acordo com os posicionamentos do governo. Uma das justificativas para esse apoio irrestrito ao presidente Médici está na relação de amizade dele com o diretor do jornal. O diretor do diário, Francisco X. de Sá foi colega de Médici no ginásio, por isso além de divulgar notícias sobre o presidente e o governo, o jornal fez uma campanha, através de diversos artigos escritos por colaboradores, durante o período da posse de Médici, para que a população local aderisse aos ideais do novo chefe do governo ‘revolucionário’.

Imagem de herói

‘[…] Nosso ilustre conterrâneo, general Emílio Garrastazu Médici, guindado à presidência da República numa hora tão grave para nacionalidade, reafirmou seu firme propósito de reavivar a chama da amizade com todas as nações, indo ao encontro de uma pregação que tem sido uma bandeira para esta folha, órgão da imprensa brasileira que surgiu ainda quando as chamas de uma revolução envolviam o Rio Grande do Sul e continua, ainda hoje, fiel na defesa daquilo que motivou sua fundação. Vislumbramos, então, um porvir com perspectivas assaz alvissareiras ao desenvolvimento de nossa pátria. Portanto, fazemos votos a que todos os brasileiros atendam ao chamamento formulado por Sua Excelência, o sr. presidente da República’ (Correio do Sul, 23 de outubro de 1969, ‘Perspectivas alvissareiras’, Mario Barreto, p. 3).

Através da observação de um veículo de comunicação podemos compreender como o jornal ‘vende’ um produto de ‘fabricação diária’, dentro do conceito de indústria cultural, que funciona em sistemas perfeitamente estruturados por classes que consomem bens simbólicos. No campo das representações sociais, entende-se que elas funcionam a partir da relação sujeito e alteridade em meio ao espaço social onde acontece a comunicação verbal e a troca simbólica. Em decorrência desse processo, são criadas formas simbólicas que caracterizam a cultura de um povo. Quando da divulgação de notícias por um veículo de comunicação, as representações construídas contêm símbolos que remetem aos significados de afeição, proximidade e orgulho, aspectos que determinam um conceito universal de sociedade, ajustado à realidade local. Portanto, a representação do contexto político nacional realizado pelo Correio do Sul trabalhará de forma sintonizada com as relações sócio-econômicas, que divulgadas rotineiramente, transfigura-se em ações presentes em um sistema natural da sociedade.

É assim que o jornal trabalhará com o sentimento patriótico que irá unir o povo ao seu líder, tendo como elo fundamental dessa relação, o fato de que o ‘escolhido’ é um representante da comunidade. Tal sentimento de pertencimento a um grande grupo, associado ao fato de terem características ligadas à mesma origem e trazerem consigo a mesma cultura, faz com que o jornal divulgue a imagem de Médici idealizada como a de um herói; personalidade que ao conquistar o posto máximo do país, jamais esquecerá seus ‘semelhantes’, o povo de Bagé. Por isso, o jornal conclama em seu discurso a ‘obrigatoriedade’ do apoio da comunidade para com o novo presidente.

Discurso positivista

O veículo de comunicação de Bagé mais do que reiterar o apoio ao general Médici cuidou de organizar a festa para comemorar a posse do novo presidente. A revista Veja de 15/10/1969 ressalta a afirmação do editor do jornal de que: ‘Desde a confirmação do `Milito´ (apelido de Médici) na presidência passamos a organizar a festa da posse’. Ao jornal não bastou o papel de criar representações sociais favoráveis ao regime, ele também acabou interferindo de forma profunda na esfera pública ao preparar um evento para a posse de Médici, espetacularizando, assim, a própria notícia que iria publicar quando da posse.

Bagé assistiu, certamente, sua maior festa popular, não só pelo número de pessoas que saiu às ruas, como, principalmente, pelo entusiasmo e alegria de todos. Era tal a vibração de todos que, antes da hora marcada, foi iniciado o desfile, que se prolongaria por quase 2 horas. Em todas as janelas dos edifícios de nossa principal avenida, viam-se bageenses irradiando alegria e vibração, evidenciando que Bagé estava realmente em festas. E de todas as janelas eram jogados papéis picados, dando ao espetáculo uma beleza maior […] (Correio do Sul, 30 de outubro de 1969, ‘Espetáculo maravilhoso’, Edição extra, p. 3).

Outra característica explícita nas matérias publicadas é a presença de símbolos do positivismo na figura representada do general. A simbologia empregada pelo Correio do Sul torna a imagem do presidente Médici, bem como do Estado ditatorial – que usa o progresso como bandeira maior – um posicionamento recorrente ao discurso positivista. Se o progresso positivista ocorre pela noção de desenvolvimento ordenado pela sociedade, qualquer ação contrária a esse posicionamento torna-se prejudicial, logo subversiva, termo muito utilizado pela imprensa brasileira para quem se opunha ao regime ditatorial naqueles tempos.

‘Filho de Bagé’

Declarando-se a favor do lema de dinâmica social ordenada rumo a um futuro de esplendor econômico, com um desenvolvimento seguro, como era exposto à propaganda totalitária pós-AI-5, pode-se vincular às idéias de Augusto Comte, que defendia a ditadura republicana como única forma de atingir os objetivos propostos – tais como a estacidade social, ordem e o ajustamento do cidadão à sociedade – com a proposta política dos militares.

O jornal que nasceu por uma ideologia contrária aos preceitos republicanos, divulgava com força a imagem do militar, imagem exaltada pelo positivismo e que tem presença marcante na cidade de Bagé pela sua localização geográfica, desde os tempos em que a região era disputada por espanhóis e portugueses.

Em relação à influência positivista, forte na história do estado do Rio Grande do Sul, ela é trabalhada de forma excessiva em notícias, artigos e fotos. Na edição de 08 de outubro de 1969, além das imagens do General Médici, devidamente fardado, há citações de discursos do militar que garantem a ideologia positivista de ditadura republicana, tendo como objetivo, segundo o jornal, a construção de uma sociedade mais segura e com vistas ao progresso: ‘A democracia brasileira, implantada pela Revolução, através dos homens que a fizeram e dos que estão impulsionando a com execução, está abrindo o clarão do futuro e garantem transformar em realidade essas legítimas aspirações de todos os brasileiros’ (‘Bageense na Presidência’, Correio do Sul, 08 de outubro de 1969: capa).

Em nenhum momento, durante o ano de 1969, o Correio do Sul trabalhou com temas como tortura, prisões e violência por parte do regime militar. Notícias externas à política nacional, quando divulgadas, passavam a ‘sensação’ de que o país estava à mercê de uma ameaça comunista e, com a escolha de Médici ao cargo de presidente do Brasil, o tom do discurso jornalístico era de apoio ao ‘homem certo no lugar certo’, por isso tais símbolos quando empregados pela folha de Bagé ganhavam novos sentidos em relação aos da imprensa nacional, isso porque Médici era um ‘filho de Bagé’ que alçava tal posto, partia-se, assim, do princípio que a própria comunidade ao apoiar o governo e idolatrar o novo mandatário da política nacional, teria dado sua contribuição para o desenvolvimento econômico e a segurança nacional.

A barbárie do governo militar

O Correio do Sul não criou um universo simbólico próprio e original durante o governo Médici. Em relação aos outros meios de comunicação, que na época, ou eram controlados pela censura ou apoiavam de forma integral o regime militar, o diário irá ‘re-trabalhar’ as informações e opiniões geradas pelo resto da imprensa. Por sua vez, a diferença está em como será moldada a ‘realidade’ a partir das representações desenvolvidas pelo jornal.

As notícias divulgadas oferecem um discurso de conclamação irrestrita ao povo da cidade e região da campanha gaúcha. É de suma importância, segundo o jornal, que a população apóie e defenda os interesses do presidente, visto que ele trará desenvolvimento para uma região que já sofria de históricos problemas econômicos. Essa idéia é compartilhada pelo então editor do diário, Mário Lopes, que em entrevista à revista Veja, na época da posse, declarava que a cidade já estava recebendo investimentos do governo. Com manifestações desse teor, sendo publicadas rotineiramente no único jornal da cidade, a subjetividade dos receptores sofrerá alterações com um discurso de apoio necessário ao presidente escolhido de forma indireta, sendo que os laços de afetividade, proximidade, e os aspectos de liderança heróica, serão veiculados pelo jornal, dando um sentido próprio para figura de Médici.

Imagem que ainda hoje é forte na cidade de Bagé, mesmo que a recente história brasileira mostre toda a barbárie cometida pelo governo militar nos vinte e um anos de ditadura.

******

Respectivamente, jornalista e estudante de Psicologia, Bagé, RS

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem