Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O fim das ilusões

Por Emanuelle Najjar em 31/03/2009 na edição 531

No artigo intitulado ‘O
jornalismo no imaginário popular
‘, publicado neste Observatório,
foram descritos os rótulos destinados aos jornalistas. Velhas imagens que
envolvem televisão, câmeras, salas fumacentas, intelectualidade, falta de
rotina, a eterna busca pela verdade, os riscos e a recompensa em forma de
prêmios. Não exatamente mitos, mas elementos que certamente nem todos alcançam,
seja por acaso do destino ou por uma discrepância de épocas históricas.


A televisão, William Bonner e prêmios acontecem com poucos. Poucos e
predestinados. Além do fato de a televisão não ser o único caminho, uma carreira
no jornalismo global – por assim dizer – exige mais que dedicação. Também se
pede um rostinho bonito. Talvez não bonito, mas a realidade é que existe um
padrão Globo de produção para isso também. De modo que, não vai adiantar os
homens fazerem mechas brancas em seu cabelo. Tem que ter ‘borogodó’.


A rotina, do qual os outros profissionais de qualquer área reclamam, no caso
do jornalista ou do pretenso foca, envolverá telefone, email e releases. O risco
de vida ainda existe, mas ao invés da ditadura – ou ‘ditabranda’, segundo a
Folha – será pelo crime organizado, milícias ou por prefeituras de
cidades do interior, ou ainda em países de guerra. Talvez para os focas, a idéia
de morrer em uma favela não faça jus ao imaginário glamouroso daqueles que
morreram nos porões na época do AI-5.


Trabalho duro e mandiinga


Nessa mesma época histórica ficaram as salas fumacentas e os ‘intelectuais de
esquerda’ – sim, uma coisa estava associada à outra de forma indissociável.
Agora, uma parte da antiga esquerda está no poder, fazendo com que a aura
intelectual se desfizesse e mostrasse apenas pessoas comuns, geralmente
birrentas e com síndrome de ‘donos da verdade’. E as salas impregnadas de fumaça
foram substituídas em nome dos hábitos saudáveis de nossa era, onde a nicotina
deixou o glamour para ser veneno.


A eterna busca pela verdade, ou imparcialidade, descobre-se um mito. Podem-se
ouvir os dois lados ou descobrir todas as facetas, mas a cobertura sempre será
tendenciosa. O velho mito norte-americano vira pó quando se está editando uma
matéria e escrevendo um texto. Cada escolha de palavra e cada vírgula pode ser
usada de forma a atribuir sentidos diferentes… ou seja, puxar sardinha mesmo.
Não é preciso estar no mercado para descobrir isso, basta a primeira aula na
faculdade.


A verdade é cruel, mas ela tem que ser dita. Jornalistas têm uma vida
difícil, não necessariamente emocionante, não obrigatoriamente bem remunerada.
Este último quesito dependerá de sorte, trabalho duro e muita mandinga, pois uma
boa parte dos que tentam fica no meio do caminho.


Muito chão pela frente


O começo de carreira pode ser bem conhecido; aliás, uma boa parte dos
universitários sabe como é: trabalhando em algum lugar a preço de banana, sendo
chamado estagiário, ou ‘escraviário’, como queiram, geralmente fazendo o
trabalho duro, talvez executando a função de seu chefe, mas com custo muito
menor. Talvez essa seja a única coisa que não tenha mudado com o passar dos
anos. Estagiário é estagiário em qualquer lugar do mundo.


No fundo, tudo o que o jornalista tem, e muito do que precisa, é o seu ego. A
profissão exige muito, quase dedicação integral. Estudo constante. Exige faro,
feeling. Sangue frio também. O mundo não é bonito, as pessoas não são
gentis, a realidade não é cor-de-rosa. Talvez possa ser, quando alcançar um
patamar de jornalista de turismo, ou de cobertura mais leve, mas até lá há muito
chão pela frente, e uma trajetória que deixa marcas.


E aí, crianças? Ainda sonham com seu lugar na Globo?

******

Jornalista, São José do Barreiro, SP

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