Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / LUIZ MARTINS

‘O jornalismo jamais pode se reduzir a uma mercadoria’

Por Thiago Campossano em 03/04/2006 na edição 375

A imprensa brasileira ostenta muitos troféus por seus grandes feitos. Porém, não na mesma proporção que comete erros. O que em muitos casos vemos hoje é uma imprensa hedionda interessada nos lucros, sem preservar os princípios éticos tão necessários à profissão jornalística e ao cidadão. Canal da Imprensa convidou o jornalista Luiz Martins para falar sobre o mau comportamento da imprensa. Ele coordena um projeto de extensão em Brasília contra a baixaria e falta de ética na imprensa, e criou uma espécie de disque-denúncia em favor daqueles que se sentirem prejudicados pela mídia.

Luiz Martins é jornalista desde 1974. Atuou em diversos órgãos de imprensa, entre eles Jornal de Brasília, O Globo, Veja, Brasil Comércio e Indústria e Ciência Hoje. Tem vários livros publicados e participação em antologias acadêmicas e literárias. Além de jornalista, é professor do Departamento de Jornalismo da Universidade de Brasília desde 1988. Nos últimos dez anos tem coordenado projetos de pesquisa e extensão na Universidade de Brasília, onde orienta doutorandos, mestrandos e bolsistas de extensão e de iniciação científica. Seu cargo mais recente é de coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UnB. Ele também coordena o Projeto de Extensão SOS-Imprensa, um disque-imprensa (61-33072024) em casos de erros, abusos e vítimas da mídia.

***

Quais os abusos mais freqüentes cometidos pela imprensa no Brasil?

Luiz Martins – O abuso mais freqüente começa com a falta de um procedimento técnico que é o da checagem. A falta da checagem em si parece não ser um abuso, mas quando se trata de responsabilidade, três figuras estão em jogo: o dolo, a culpa e a má fé. No dolo, a pessoa teve intenção de prejudicar; na culpa, a pessoa danificou, mas não tinha a intenção; e na boa fé, mesmo que a pessoa esteja trabalhando pode ainda incorrer na imperícia, na incoerência, na imprudência e na negligência. Se tudo isso for somado a algo que se chama impunidade, ou seja, se não houver quem reclame, você tem uma cultura de acúmulo de erros. E quando essa cultura degrada o meio técnico, isso degrada o meio como um todo. Então eu diria que o principal abuso profissional é uma falta de checagem. Ele é um abuso estrutural, ou seja, é a falta de um procedimento técnico-base.

No geral, eu diria que 90% dos erros da imprensa desaparecem se houver uma checagem prévia. Vou lhe dar um exemplo daqui mesmo. Numa escola particular e bem conceituada, uma aluna de jornalismo inventou uma história de um câncer no cérebro causado por um piercing na língua. Segundo a estudante, a moça da matéria estava na UTI. Ela citou até a empresa de convênio médico. Essa matéria passou pela professora que era a coordenadora da disciplina laboratorial e foi publicada. A história era tão interessante que o Correio Braziliense destacou um repórter para averiguar. Não havia absolutamente nada de verdadeiro. No entanto, a moça citou fontes médicas, citou convênios, citou tudo!

Eu estou citando um caso em que uma pessoa inventou a história, mas no dia a dia há inúmeras coberturas que as pessoas não estão inventando, mas que são imperfeições e que não são checadas.

Quais, em sua opinião, foram os maiores erros éticos da história da imprensa?

L.M. – O erro muitas vezes foi uma questão de imperícia, ou de imprudência, ou de negligência. Agora o pior erro é o profissional saber qual é a versão correta e insistir numa versão errada. Isso sim é desonroso. Isso é uma falta gravíssima! E acho que não tem situação mais vergonhosa para um profissional do que a vítima de um erro como esse chamá-lo para escrever um capítulo do seu livro dizendo: ‘Eu acabei com a carreira dele!’

O senhor seria a favor de um órgão que penalizasse essas posturas antiéticas?

L.M. – Um órgão que penalize não, pois já existe o Judiciário e o Ministério Público. Agora eu preferiria que houvesse mais cuidado e auto-regulamentação. Eu acho que a sociedade brasileira precisa saber o que ela quer com relação a uma coisa chamada decoro profissional de imprensa. Eu ainda prefiro a auto-regulamentação como várias categorias de profissionais fazem. Atualmente, uma pessoa, mesmo que tenha a sua matrícula sindical caçada, continua exercendo a profissão, ao contrário do que acontece na medicina, por exemplo. Então, a corporação jornalística hoje não tem como excluir um profissional que seja criminoso, doloso, venal; que seja absolutamente irresponsável e que não merece constar nos quadros do jornalismo. Falta isso.

O código de ética para o jornalista tem o mesmo peso que a lei para o cidadão comum?

L.M. – De jeito nenhum! O código de ética não é uma lei. Ele é um instrumento relativo ao decoro profissional que é ditado pelo código de ética. E atualmente já se pensa em fazer uma revisão desse código. Hoje cada um faz o seu procedimento na prática do jornalismo e uma categoria tem que ter procedimentos que sejam coletivos. Então eu diria que o código de ética do jornalista corre de maneira bastante frouxa. Nunca vi em nenhuma das redações que trabalhei o código de ética pendurado numa parede, sabe? Eu nunca vi o chefe de reportagem chamar o repórter e dizer que a matéria fere determinado artigo do código. Ele não só é insuficiente como também necessita de mudanças. Eu acho que é melhor quando as empresas passam a ter uma preocupação acentuada com a sua responsabilidade e os profissionais também.

Até que ponto a presença do viés nas notícias e reportagens pode ser considerada um deslize ético do veículo?

L.M. – Existe um fenômeno que se chama ‘encampação’. É você encampar a ideologia do veículo. Eu não sou favorável disso. O profissional não tem que encampar eventuais ideologias dos proprietários da empresa. Ele tem que fazer a matéria com fidelidade ao fato que ele cobriu. Se a empresa quiser exercer o viés ideológico, que exerça editorialmente e na seleção das notícias. É um direito que ela tem. A saída pra isso é a pluralidade dos pontos de vista. O que acontece em alguns países como Inglaterra e Estados Unidos é que os veículos declaram sua posição política, o que também não quer dizer que os repórteres têm que encampar. O jornalista não tem que encampar ponto de vista de empresa coisa nenhuma! Ele tem que ser um bom profissional e não ser vítima de um assédio moral que é fazer uma matéria com tal ponto de vista independente do fato. Isso é uma loucura!

O senhor concorda que o capitalismo é a maior fonte de contaminação no jornalismo?

L.M. – Fala-se muito sobre o condicionamento da publicidade ou a pressão do governo. Eu vou lhe dizer algo no qual acredito fervorosamente, caso contrário não estava trabalhando no jornalismo nem lecionando nessa área. O jornalismo é uma categoria social tal como a literatura, como a arte, como o folclore. Então, ele sendo uma categoria social jamais pode se reduzir a uma mercadoria. Eu digo isso porque o jornalismo existiu, existe e existirá mesmo nas condições mais adversas, porque senão ele não é mais jornalismo, é outra coisa. Então eu não acredito no empresário que quer usar a sua empresa jornalística com fins que não sejam jornalísticos, pois ele vai dar com os burros n´água.

Até que ponto é correto um jornalista omitir sua identidade, ou até se disfarçar para conseguir a verdade mesmo que seja em benefício da sociedade?

L.M. – Isso acontece quando um valor maior está em jogo, seja um interesse coletivo, seja uma vida, seja a dignidade humana que são os maiores valores do homem. Uma pessoa não pode dizer que nunca se deve usar a câmera oculta, porque se for para flagrar um abuso contra uma criança é válido. Mas isso depende da consciência moral de cada um. Ninguém pode pegar isso e justificar de forma genérica. Por mais que exista um código de ética, a decisão será sempre da consciência moral de cada um.

A respeito do caso Tim Lopes, a morte dele foi conseqüência de um despreparo, falta de amparo da empresa, prepotência?

L.M. – Esse é um caso perigoso de ser analisado porque envolve um profissional que foi as últimas conseqüências no exercício profissional. Mas eu diria que se até com um animal portando um chip de localização toma-se cuidados; com uma carga de caminhão que é monitorado pelo satélite que também toma-se cuidados; com as câmeras que filmam locais para que as crianças não corram riscos, miseravelmente eu acho que uma produção de uma emissora de televisão poderosíssima e com todos os recursos tinha que monitorar, ter retaguarda, reforço e busca quando seus profissionais estão em reportagens arriscadas. Eu acho que nesse caso faltaram muitas coisas e uma delas foi a responsabilidade da empresa sobre o que estão fazendo os seus profissionais em nome dela e para ela, em que horas, em quais circunstâncias e em quais locais.

Quais são as armas que os cidadãos dispõem para se defender dos abusos da imprensa? O direito de resposta é suficiente?

L.M. – Eu uso o método mnemônico bem didático para sala de aula. Então eu uso 5 erres que ajudam na memorização. Três são consensuais e dois são conflitivos.

** Retificação: apenas errei.

** Retratação: meu erro causou dano.

** Réplica: direito de resposta não-conflitivo.

** Resposta: argüido judicialmente.

** Reparação: argüido judicialmente por danos materiais, ou morais, ou os dois de forma conjugada.

Fale sobre o SOS Imprensa.

L.M. – Nós temos um ‘balcão’ para o lado de fora que é o de cidadania. É um serviço de utilidade pública. É um projeto de extensão da Universidade de Brasília voltado para direitos humanos e especificamente cidadania e mídia. E tem o ‘balcão’ interno que é o seguinte: nós monitoramos e coletamos material para servir de subsídio para alunos, professores e disciplinas. Estamos começando um trabalho na TV comunitária que é um programa onde vamos comentar questões polêmicas como privacidade, intimidade etc.

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Estudante de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp)

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