Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > WEBJORNALISMO

O jornalista em busca de sua identidade

Por Luiz Carlos Damasceno Jr em 13/02/2007 na edição 420

Referências bibliográficas

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. A era da informação: Economia, Sociedade e Cultura. Volume 1

PRIMO, Alex e TRÂSEL, Marcelo. Webjornalismo participativo e a produção aberta de notícias. Disponível em http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/webjornal.pdf

RUELLAN, Denis. Le Professionalisme du Flou – Identité et savoir-faire des journalistes français. (1993)

Schopenhauer escreveu que o jornal é o ponteiro dos segundos no relógio da história. O filósofo alemão não dispensava elogios à toa e tinha a língua e a pena afiadas para produzir alegorias elegantes e com sólidos alicerces na realidade. Além da relação óbvia entre tempo diário e histórico, a metáfora revela-se poderosa, pois o ponteiro mais ligeiro é também o mais impreciso entre os marcadores, além de constituído pelos metais menos nobres nos relógios de qualidade. Se para um homem do século 19 já era possível perceber a incapacidade da mídia em espelhar seu tempo com a fidelidade desejável, em tempos de jornalismo e relógios digitais a metáfora parece ajustar-se com rara exatidão aos fatos.

A virtualização da sociedade humana levou a profundas alterações nas relações sócio-culturais, principalmente nas concepções de espaço e tempo. O drástico encurtamento das distâncias, o crescimento exponencial dos espaços de fluxo e os limites territoriais cada vez mais difusos de um mundo globalizado e interligado pelas novas tecnologias parecem ter ampliado a imprecisão do ponteiro de Schopenhauer. Ao mesmo tempo em que a quantidade de informações a serem registradas pela imprensa cresce exponencialmente na sociedade da informação, as dificuldades da mídia em contemporanizar os fatos e transformá-los em notícias fidedignas revela-se mais latente. É preciso reconhecer que tanto a teoria da comunicação quanto as reflexões sobre o fazer jornalístico encontram na cibercultura elementos que desequilibram seus mais sólidos paradigmas.

Fugindo dos extremos

As facilidades e comodidades que fazem desta cultura de bytes e números binários uma transformação duradoura e irreversível também aproximam a população dos processos que moldam a sua realidade. Nossa cultura da virtualidade é construída por um sistema midiático interconectado, diversificado e onipresente. Munido do ambiente em rede e diante do turbilhão de informações conflitantes e discursos acríticos que assolam a sociedade da informação, o público torna-se mais capaz de interferir no processo noticioso, direta ou indiretamente. Seja agregando valor às suas críticas, que, potencializadas pelos canais alternativos de comunicação, ressoam com uma amplitude cada vez maior, seja tomando o espaço tradicional do jornalista como vetor na produção de notícias, o leitor apropria-se das novas tecnologias para abandonar o papel de receptor passivo da informação.

Neste novo panorama, o jornalista vive em uma situação delicada quanto às suas atribuições profissionais. A abertura de sites de jornalismo online à construção participativa de notícias e a ampliação do interesse público pelo processo noticioso levantam novas questões não apenas sobre o webjornalismo, mas também ressaltam a necessidade de renovados debates em torno do sistema produtivo e dos próprios ideais jornalísticos. É provável que estejamos frente a uma alteração de cenário à altura daquela promovida por Gutemberg, mas, para tecer uma análise consistente do novo papel deste profissional que tanto mudou desde a invenção da prensa, é necessário fugir dos extremos.

Um reflexo de nosso tempo

A tentação dos arautos messiânicos que inspiram tantos debates sobre a cibercultura é de, após postular a morte do autor, anunciar a do jornalista. Ou que o próprio jornalismo deixou de existir (…). Já no córner oposto deste embate, encontram-se alguns que, mesmo tendo defendido em décadas passadas a democratização dos meios de comunicação, hoje se dedicam principalmente à defesa da demarcação do espaço profissional. O debate sobre a inserção do comunicador na sociedade e seu mercado de trabalho é mais do que legítimo, mas tal postura não pode ofuscar a reflexão sobre o impacto social que as formas mais abertas de webjornalismo hoje oferecem. Tanto o radicalismo otimista, que vê nas tecnologias digitais de cooperação a garantia de uma pseudo-democracia universal, quanto o extremismo corporativista, que enxerga nos noticiários participativos uma ameaça à profissão ou aos cursos de jornalismo, revelam suas limitações e baixo poder heurístico. [PRIMO, Alex e TRÄSEL, Marcelo. Webjornalismo participativo e a produção aberta de notícias. Disponível em http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/webjornal.pdf]

Em suma, a despeito dos prenúncios apocalípticos do fim do jornalismo e do senso de justiça histórica embutido na noção de informação livre e de produção popular independente, faz-se necessário examinar esse paradigma com redobrada atenção. E não apenas para garantir a sobrevivência da classe, mas por sua emergência como um fenômeno de profundo impacto sobre o fazer jornalístico da forma como o conhecemos. Evitamos, assim, esgotar a discussão antes que ela possa tomar forma real. Se o ponteiro dos segundos insiste em se retardar ou adiantar frente ao tempo exato dos acontecimentos, é dever de quem está na imprensa ajudar a regulá-lo e fazer dele um reflexo ligeiramente mais exato de nosso tempo. Nem que seja para poupar os recursos das gerações futuras.

Novas interações

Para escapar do tortuoso trabalho de definição epistemológica e de uma maçante recapitulação histórica da profissão, utilizarei a concepção proposta por Denis Ruellan. Segundo o autor, a multiplicidade de funções, meios e formas discursivas distintas do jornalismo beiram ao ofuscamento, entravando qualquer tentativa de compreensão objetiva de suas atribuições profissionais. Para expressar esta diversidade, Ruellan utiliza o termo francês flou, que designa a fluidez e imprecisão do estatuto profissional do jornalista, ao mesmo tempo em que lhe permite ampliar as fronteiras que delimitam sua área de atuação. Esta definição convém ao artigo, pois é justamente em meio ao cenário de emergência do webjornalismo participativo e da perda de sua identidade tradicional que o profissional precisa demonstrar sua versatilidade – advinda de uma formação acadêmica predominantemente generalista – e adaptar suas práticas em busca de um novo campo de atuação dentro de suas limitações.

A predominante ausência do trabalho de apuração durante a produção on-line sugere que o webjornalista, a exemplo de seu colega de redação, segue o papel de gatekeeper, conforme a definição originalmente postulada por David White. Mas Brums coloca em cheque esta tradicional interação entre jornalista e fontes, na qual o primeiro é responsável por selecionar as informações do segundo, reconhecendo vários processos que surgem com o avanço de novas interações entre leitor e notícia e que escapam a esta definição, passando a denominar esta nova função de gatewatching.

Moldar imagem da realidade

Se o gatekeeping faz sentido na análise dos meios de comunicação de massa, no ciberespaço ele tem menor força explicativa. (…) Devido à quantidade de informação circulando nas redes telemáticas, cria-se a necessidade de avaliá-la, mais do que descartá-la. Não é mais preciso rejeitar notícias devido à falta de espaço, porque pode-se publicá-las todas. Nota-se um deslocamento da coleta de informação para a seleção da mesma. (…) assume-se um papel semelhante ao de um bibliotecário. É claro que alguém ainda precisa entrevistar as fontes e analisar dados, e a maioria dos profissionais que lidam com o webjornalismo acaba por assumir ambos os papéis. O gatewatcher combinaria funções de bibliotecário e repórter. Do porteiro, passa-se ao vigia. [PRIMO, Alex e TRÄSEL, Marcelo. Webjornalismo participativo e a produção aberta de notícias. Disponível em http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/webjornal.pdf]

Ainda é necessário selecionar dentre uma infinidade de informações disponíveis – quer na própria Web, nas agências ou disponibilizadas pelas assessorias – quais devem ser publicadas como notícias. Mas a necessidade de priorizar certas notícias em detrimento de outras cai dramaticamente, em virtude do espaço virtualmente ilimitado disponível para a sua publicação. Assim, os ‘vigias’ contribuem para moldar a imagem que o receptor tem da realidade, não mais escolhendo o que deve chegar ao seu conhecimento mas, sim, priorizando as informações que merecem maior destaque no layout da web.

Pautado pelo público

Mas a mesma disponibilidade ilimitada de espaço que transforma o papel do jornalista de porteiro para vigia, traz a necessidade de alimentar constantemente o site com mais informações. Se a produção jornalística sempre foi marcada pela contradição entre tempo e precisão, esta tende a se agravar na era do tempo real. A solução encontrada pelo jornalista é simples: diminuir a necessidade de veicular informações corretas e contextualizadas. Qualquer acontecimento deve virar nota e ser transmitido o mais rápido possível. Assim, os grandes portais apostam na publicação de notícias rápidas, sem um viés analítico da informação e, por vezes, sem confirmação oficial. Se o material não procede, pode ser rapidamente corrigido, ao contrário do que acontece com o jornalismo impresso.

Este cenário é contraditório pois, ao mostrar-se incapaz de fornecer ao leitor um quadro mais completo da realidade através de matérias aprofundadas, o webjornalista dá a seus leitores o pretexto necessário para fugir da facilidade de acesso dos grandes portais e sair à cata das novas fornalhas da informação viabilizadas pela sociedade em rede; os weblogs, os fóruns, as listas de discussão e os agregadores de conteúdo construído por internautas. A interferência popular no processo noticioso já não é tão recente e, por todo o globo, eclodem iniciativas de produção independente de informação. Com o desenvolvimento desta tendência, pouco a pouco o jornalista deixa de ser o canal que faz a tradicional mediação entre público e fonte, por vezes passando a ser pautado por aqueles que antes eram seu público, mas que agora têm acesso direto às fontes.

Exclusividade e legitimidade

Na virada do milênio, a internet deu voz ao público e, com ela, eclodiram grupos de internautas com interesses em comum, antes limitados pela distância, mas agora unidos pelos nós da rede. Uma redação, composta no máximo por algumas dezenas de jornalistas sobrecarregados de trabalho, não tem condições de competir com um agrupamento muito maior de pessoas genuinamente interessadas em assuntos específicos, como acontece em fóruns e em sites agregadores de conteúdo de weblogs, como o Slashdot no cenário internacional ou o BrLinux no Brasil. Com efeito, os leitores especialistas encontram um forte motivo para não mais depender da mídia tradicional no que tange à coleta de informações.

A despeito dos rankings de páginas em sites de busca, que privilegiam as mais importantes ou mais visitadas, é possível, com poucos cliques, acessar qualquer tipo de informação com os mais variados níveis de procedência. A própria dinâmica da web, que faz com que blogs e sites alternativos se interliguem pela periferia do ciberespaço – sempre à margem dos grandes portais recheados de conteúdo variado e superficial –, favorece o surgimento de uma cultura da informação amplamente diferenciada daquela apregoada pela mídia tradicional. Como mostram as chamadas googlebombs, quando um grupo de blogs se une para alavancar um site para a primeira posição da ferramenta de busca, o poder do público muitas vezes ultrapassa a visibilidade dos grandes sites dos mass media, roubando-lhes a exclusividade e, o que é mais importante, a legitimidade como única fonte confiável de informação.

Uma nova tendência

Nos veículos, os comentários dos leitores deixaram de ser um atrativo extra e burocrático e começam a tirar o sono dos profissionais da mídia, em virtude dos dilemas e desafios surgidos por conta do novo tipo de relacionamento com os consumidores de notícias. Para quem observa rotineiramente o teor de comentários postados em weblogs e páginas noticiosas na web brasileira, fica claro que a esmagadora maioria contém críticas à imprensa, em graus que variam da boa argumentação até ataques desproporcionados. Embora a insatisfação com a qualidade do jornalismo entre a audiência não seja novidade, os meios pelos quais ela se manifesta na sociedade em rede o são. Até pouco tempo, leitores atentos, críticos ou polemistas dispunham apenas de cartas, telefones ou publicações de alcance pífio para expressar suas opiniões e se fazer ouvir pela mídia. Hoje, além de gozarem de todo o aparato tecnológico necessário para produzir suas próprias informações e distribuí-las a baixo custo, também representam uma voz que não pode mais ser ignorada pelos donos de redação. É dispendioso, e até arriscado, fechar os olhos à crítica de um leitor quando no dia seguinte o seu blog pode estar no topo do google.

Especialmente no Brasil, o inédito protagonismo do público possibilitado pelas interações da sociedade da informação pegou os chefes de redação on-line despreparados. O afluxo de público que migra das fontes oficiais para recorrer a grupos de discussão ou weblogs de especialistas ainda não parece ser grande o suficiente para despertar na mídia a necessidade de uma mudança significativa na estratégia de distribuição de conteúdo. Mas até quando? Na medida em que o acesso à web e à banda-larga se expande por todo o território nacional, interligando os mais distantes redutos a toda a miríade de opções de informação da rede, os portais devem experimentar um notável, mas superficial, aumento no número de visitas. Quando este público alcançar a maturidade na navegação, ao tomar conhecimento de formas de interação com a notícia mais enriquecedoras, disponibilizadas por fontes alternativas, bastará a produção desenfreada de notas rápidas e curiosidades para cativar o leitor a participar dos grandes portais?

Brincando de editor-chefe

A abertura de canais de webjornalismo participativo nos portais brasileiros é uma tática recente, mas que já representa uma mudança na percepção das novas demandas do público em tempos de Web 2.0. Além de aderir à tendência de dar voz aos leitores, os sites recebem novos conteúdos a custo zero e dão um passo à frente na fidelização do leitor. No entanto, tais iniciativas parecem restritas a preencher espaços de segundo plano nos veículos tradicionais. Além disso, leitores interessados em temas específicos continuarão a migrar para outros meios de obter informação ainda que o espaço para a participação do público nos grandes portais continue a crescer. No entanto, é possível que a rotina proibitiva de trabalho e o ritmo estafante de consumo de informações por parte do grande público garanta uma demanda permanente por notícias rápidas e superficiais na sociedade em rede, mantendo vivo o nicho de mercado atual do webjornalismo.

Mesmo que hoje a tecnologia permita a todas as pessoas com acesso a um computador e à Internet publicar informações ou buscá-las direto nas fontes, não apenas não é inevitável, como é muito pouco provável que todos venham a fazê-lo. Cabe a ressalva de Dominique Wolton frente ao ufanismo em favor da oferta ilimitada de informação: ‘ninguém quer brincar de editor chefe todas as manhãs’. (…) Além disso, como lembra Gillmor (2005), alguns esforços de reportagem só podem ser financiados por empresas com recursos para manter equipes de repórteres em campo, investir em equipamento, em transporte, bem como em honorários jurídicos. É o caso de coberturas como as de guerras, em que é necessário enviar correspondentes, ou de grandes escândalos de corrupção. [PRIMO, Alex e TRÄSEL, Marcelo. Webjornalismo participativo e a produção aberta de notícias. Disponível em http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/webjornal.pdf]

Conclusão

Ao adaptar as práticas e os valores do jornalismo tradicional ao meio on-line, o jornalista busca definir sua própria identidade. Assim, apesar da poderosa influência da web no fazer jornalístico, ainda é difícil vislumbrar quais serão as grandes transformações no ethos da profissão, que, empurradas pelo turbilhão de novas tendências da rede, deixarão marcas indeléveis nos cânones do ofício. Em parte, isso se explica pela forma consensual de conquista deste novo território profissional. Atendendo aos interesses dos atores inseridos no processo de produção noticiosa, entre jornalistas, patrocinadores e público, o jornalismo on-line da forma como hoje é realizado – entrando apenas timidamente no mar da Web 2.0 – permanece sustentável como negócio, embora sua compatibilidade com os ideais jornalísticos e utilidade como serviço de interesse público possam ser questionados.

Neste sentido, apesar de tornar-se evidente que o jornalismo on-line praticado nos grandes portais se adaptou bem aos interesses das fontes de informação e dos internautas causais, o que dizer do restante do público? Tudo indica que o processo de legitimação junto a este perfil de leitor é bem mais frágil. Assim, a conquista da internet como um mercado de trabalho pelo jornalista apresenta um grande desafio para o exercício pleno de sua profissão. Se, por um lado, este nicho lhe permite adaptar facilmente as peculiaridades do meio on-line às suas rotinas produtivas, por outro, é a comodidade produzida pelo fácil acesso às fontes que inviabiliza o cumprimento pleno de suas obrigações jornalísticas: entregar informação qualificada, precisa e focada no interesse público.

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Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

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