Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > PERFIL COMO GÊNERO

O lugar do personagem na escrita jornalística

Por Amanda Tenório Pontes da Silva em 08/12/2009 na edição 567

Referências bibliográficas

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LAGE, Nilson. A reportagem – Teoria e Técnica da entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001.

SODRÉ, Muniz; FERRARI, Maria Helena. Técnica de reportagem: notas sobre a narrativa jornalística. 5ª ed. São Paulo: Summus Editorial, 1986.

VILAS BOAS, Sérgio. Biografias e Biógrafos: Jornalismo sobre personagens. São Paulo: Summus, 2002.

Ao se falar em imprensa, e mais precisamente em jornalismo impresso, pensa-se automaticamente em diversos gêneros cujo enfoque gira em torno do personagem. O perfil é o mais comentado deles, mas a entrevista e a reportagem também trazem o compromisso da prática jornalística com o lado humano dos acontecimentos, afinal, indivíduos ocupam sempre espaço em todas as etapas da ação midiática, seja como fonte ou personagem.

As fontes e a importância na elaboração dos perfis

No jornalismo, as fontes são geralmente testemunhais, neste caso deve-se ficar atento para a questão da memorização e conservação da história por meio da oralidade.

Ao jornalista cumpre perceber a memória não como tentativa de reviver o passado, mas de chegar a novos entendimentos a partir dele, sendo desnecessário relembrar toda a vida do personagem, mas sim um fato que por si a marcou e sucintamente caracteriza. Para Ecléa Bosi (1998, p. 20)

‘A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado `tal como foi´, e que se faria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto, de representações que povoam nossa consciência atual.’

No que tange ao profissional, o importante desse fato constitui-se em destacar a continuidade entre presente, passado e futuro da história de vida, de forma sadia, sem se aproveitar da incerteza de ocasiões ou informações.

Dito isso, mesmo com toda praticidade e velocidade em torno do jornalismo moderno, a boa seleção de fontes para solucionar, questionar ou se posicionar diante de um fato jornalístico, ao contrário do que se pensa, não está com seus dias contados. O critério essencial para escolha das fontes continua sendo a confiança.

Nos perfis jornalísticos quase sempre as fontes se transformarão nos perfilados. Nilson Lage (2001 p. 63-71), no seu A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística, propõe uma classificação das fontes em relação à segurança:

** Oficiais, oficiosas e independentes. As oficiais são as mantidas pelo Estado ou instituição que preserva poder do estado. Oficiosas são reconhecidamente ligadas a uma instituição, mas não são autorizadas a falar diretamente em nome dela. As independentes são desvinculadas de poder e interesse direto com as instituições;

** Primárias e secundárias. As primárias são aquelas em que o jornalista se baseia para colher a parte principal da sua matéria com fatos, versões e números. Já a secundária serão aquela surgidas com o decorrer do tema a ser desenvolvido, isto é, fontes envolvidas indiretamente com o acontecimento;

** Testemunhas e experts. No caso dos perfis, a mais utilizada para o colhimento de dados será a testemunha. Quase sempre seu relato é cercado por emotividade, mas não necessariamente só quem vivenciou fisicamente um acontecimento irá testemunhar. Experts são geralmente os especialistas chamados para discorrer acerca de um caso. O cuidado maior é escolher perguntas pertinentes a eles.

Construindo personagens

A palavra persona deriva do latim e deve ser entendida aqui como uma função do sujeito voltada ao mundo externo, na busca de adaptação. No teatro, seu sentido aproxima-se ao de máscara, já nas narrativas jornalísticas diversas personagens são criadas baseadas na realidade.

Personagem, de acordo com o escritor e pesquisador do gênero perfil, Sergio Vilas Boas (2002, p. 125) ‘(…) refere-se ao que é esperado de um sujeito e a maneira como ele acredita que sua imagem deve aparecer publicamente. É uma espécie de compromisso entre o indivíduo e a sociedade’.

Ao contrário do que se pensa, o jornalista não busca apenas construir a sua visão acerca da história, mas também se vê impelido a adequá-la ao cotidiano social. Daí surge a idéia do ser humano como personagem da sociedade, expresso pela linguagem jornalística. Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari (1986, p. 134-137) citam no livro Técnicas de Reportagem: Notas sobre a Narrativa Jornalística três potenciais personas que podem surgir ao longo de um perfil. São eles:

** O personagem-indivíduo. Neste tipo, tem-se quase sempre um relato de características principais do personagem, um retrato mais psicológico que físico;

** O personagem-tipo. O traço marcante a ser destacado é aquele que deu notoriedade ao indivíduo. Mesmo se, por ventura, posteriormente ele ressurja nos meios com outro evento, será sempre lembrado pelo motivo inicial. Os autores acentuam as lembranças como tônico do texto;

** O personagem-caricatura. Muitos sujeitos cometem gestos e atitudes estranhas, com tendência à exibição. Personagens caricaturais são escolhidos pelas situações embaraçosas às quais foram expostos.

Como desfecho, a prática jornalística pode ser analisada mediante a capacidade de criar personagens, enfatizando o dever de averiguar se o papel identifica-se ao exercido na realidade pela figura exposta.

Escolhendo um entre tanto gêneros presentes neste campo, é possível retratar não apenas os fatos, mas os indivíduos que participam ativamente da construção do dia-a-dia, sabendo que sem as diferenças, alteridades e subjetividades não se faria jornalismo.

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Jornalista, João Pessoa. PB

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