Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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O pensamento comunicacional alagoano

Por Tiago Eloy Zaidan em 27/06/2011 na edição 648

O hall do pensamento comunicacional alagoano é tão vasto e ilustre quanto olvidado. Do pioneiro Dias Cabral, do final do século 19, por exemplo, pouco se sabe além do fato deste nomear uma importante rua no centro de Maceió. Alguns dos protagonistas não são necessariamente comunicólogos no sentido estrito, como Craveiro Costa e Theo Brandão.

Durante todo o século 20, nomes do pensamento alagoano – dentre os que permaneceram em solo caeté e os que se trasladaram para outras localidades – integraram, não apenas como coadjuvantes, a malha do pensamento comunicacional brasileiro. É o caso de Costa Rego. Nascido no Pilar, o jornalista, secretário de redação do afamado jornal carioca Correio da Manhã, é considerado o primeiro catedrático de jornalismo do Brasil. Foi de sua responsabilidade a cátedra de Jornalismo na então Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, instalada anos antes da implementação da primeiro curso de Jornalismo do país, em São Paulo, em 1947.

Há ainda aquele que é considerado o pioneiro das Relações Públicas no Brasil, o penedense Eduardo Pinheiro Lobo, que fez história no primeiro departamento de Public Relations da América do Sul, criado em São Paulo em 1914. Embora seu legado esteja por toda parte, sua memória, em Maceió, praticamente restringe-se a uma rua no bairro do Tabuleiro dos Martins.

Mais recentemente, o comunicólogo palmeirense José Marques de Melo, professor emérito da USP e primeiro doutor em Jornalismo titulado por uma universidade brasileira, vem sendo aclamado como um dos maiores cientistas vivos do campo da comunicação no país, provando que a importância do pensamento comunicacional alagoano não se limita à primeira metade do século 20.

“Pratas da casa”

E é justamente de proposição do professor Marques de Melo – que, aliás, atuou como jornalista na Gazeta de Alagoas em meados dos anos 1960 – o projeto “Inventário da Fortuna Crítica legada pelas gerações constituintes do pensamento comunicacional em Alagoas”. Trata-se de um trabalho vinculado a um projeto maior, de cartografia do campo comunicacional do Brasil, realizado através da cátedra Unesco/Universidade Metodista de São Paulo de Comunicação para o Desenvolvimento Regional.

Com a pesquisa, espera-se tecer um acervo de referências úteis a docentes e discentes, especialmente de comunicação, permeado por evidências históricas e por perfis biobibliográficos, de modo sistematizado, da trajetória do pensamento comunicacional alagoano, contribuindo para que assim, os novos personagens do pensamento comunicacional do estado possam “prestigiar” o legado conterrâneo.

Atualmente, a menção aos significativos nomes da cartografia comunicacional alagoana é, de certo modo, relegada nas graduações e, quiçá, na academia como um todo. Trata-se de uma realidade reforçada, seguramente, pela conspícua ausência – ou indisponibilidade em acervo – de trabalhos referentes a tal cartografia, seja de caráter compilatório ou mesmo fragmentado.

Não à toa, a pesquisa, em determinados tópicos, não poderá prescindir de entrevistas, a despeito de incluir em sua vertente “arqueológica” referências documentais de instituições como a Academia Alagoana de Letras e Associação Alagoana de Imprensa e mesmo garimpagem bibliográfica. Trabalhos produzidos no seio de centros como a Universidade Federal de Alagoas (cuja criação do curso de Comunicação, em 1978, é emblemática), Cesmac, Unit e Nassau, dentre outras, também são previstas. Aliás, parcela significativa dos construtores e difusores do conhecimento do campo da comunicação está dentro da academia, seja como professores-pesquisadores, autóctones ou não, ou mesmo como “pratas da casa”, com pesquisas na graduação ou na pós-graduação, encetada dentro ou fora do estado.

Riqueza e identidade peculiares

Algumas dessas pesquisas, inclusive, compõem o quadro de movimentação – não raro inspirados pelo trabalho de Marques de Melo – relativamente recente e louvável, cuja produção joga luz sobre temas e objetos abrangidos pelo projeto cartográfico. Podemos citar, a título de exemplo, o artigo “Alagoas: Pastoril de Trágicas Jornadas”, do jornalista Ênio Lins (Fundação Joaquim Nabuco); o livro Pensamento Brasileiro em Relações Públicas – Eduardo Pinheiro Lobo: o pioneiro das Relações Públicas no Brasil, da professora Mirtes Torres (oriundo das pesquisas de mestrado e doutorado na Universidade Metodista de São Paulo); as pesquisas sobre Arnon de Melo arroladas pelo Núcleo de Crítica à Economia Política da Comunicação (Comulti/Universidade Federal de Alagoas) e os livros Costa Rego, esse esquecido e O legendário Costa Rego (este, publicado pela editora da Ufal), do jurista e escritor Antônio Sapucaia.

Mais do que fortalecer a autoestima das comunidades acadêmico-científica e profissional de Comunicação, o resgate do legado do pensamento comunicacional alagoano – e sua articulação com o pensamento brasileiro – não deixa de ser parte no processo de afirmação da alagoanidade; o que não deve ser visto de forma restritiva e com roupagem sectária, mas como um subsídio à propugnação da comunicologia alagoana, com riqueza e identidade peculiares, em sua constante e necessária interação com as tradições exógenas em um contexto de globalização.

***

[Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Núcleo de Crítica à Economia Política da Comunicação (Comulti/UFAl)]

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