Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

DIRETóRIO ACADêMICO > ONDAS & MAROLAS

O presidente vai segurar a crise?

Por Richard Jakubaszko em 09/12/2008 na edição 515

Mesmo com 70% de aprovação, Lula vai segurar a crise? Esta parece ser a pergunta que ainda não tem resposta, nem do povo e nem da mídia.

Sabemos que índices de popularidade presidencial não seguram crises, políticas ou econômicas, mas não tenhamos dúvidas de que ajudam. Até porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcança esse espantoso e inédito índice de aprovação ao final do sexto ano de mandato, e isso não é normal. Já deveria haver algum sinal de desgaste, apesar da mídia oposicionista. Lula chega aos 70% de ‘ótimo e bom’ na pesquisa do Datafolha, mas nos tempos de FHC a mídia considerava o quesito ‘regular’ como aprovação.

Assim, neste raciocínio, hoje Lula teria 93% de aprovação, e apenas 7% de desaprovação. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, em todas as classes sociais. A razão desse fenômeno? É simples: Lula faz um governo com inclusão social das classes menos favorecidas, não massacrou a classe média como fez FHC, e ainda deixou a classe que está no topo da pirâmide ganhar mais dinheiro ainda. Fez um governo para todos os brasileiros.

Cadê a crise?

As explicações acima não são minhas, são dos cientistas políticos e das pesquisas. As minhas explicações incluiriam afirmar que Lula é um excepcional comunicador, é espontâneo, é natural, autêntico, não dissimula, fala a linguagem que o povo entende, vai do sífu à diarréia, do pão com margarina e mortadela, do ‘pergunta pro Bush‘, de criticar a seleção brasileira quando joga mal, é um brasileiro integrado com as classes sociais menos favorecidas, está sempre rindo, é corintiano, toma suas biritas, gosta de churrasco, gosta de pagode, de futebol… E ainda está fazendo um bom governo, na opinião do povão e até dos banqueiros e industriais.

É um fenômeno! Se ele irá eleger um poste para presidente, transferindo votos, ainda não se sabe, mas que deve levar o poste ao segundo turno, isso é bem possível, depois desses índices de 93% de aprovação, ou melhor, 70% como querem os jornais…

Noticia-se tanto nos jornais e telejornais que ela deve chegar por aqui que já tem até alguns setores industriais colocando o pé no freio, demitindo, reduzindo investimentos, os bancos segurando os créditos, mas vejo as lojas cheias, os supermercados idem, a rua 25 de março, em São Paulo, sábado pela manhã, dia 6, não tinha espaço para ninguém caminhar, pareciam turistas na Capela Sistina. Na Saara, tradicional comércio popular no Rio de Janeiro, tinha gente saindo pelo ladrão…

Uma variável chamada China

Por enquanto, ao menos no comércio, a crise ainda não chegou, mas tem sido anunciada a sua iminência a qualquer momento pela imprensa. Nuvens negras são pintadas diariamente, como se houvesse o desejo de que ela chegue, até para derrubar os índices de popularidade presidencial. Depois chamam a nós, jornalistas, de pessimistas, de urubus, e quando ouço isso tenho de me calar, é o mínimo a fazer, não dá para defender a classe nessas horas.

Mas imagino o comércio neste Natal batendo recordes de vendas, pois essas são as expectativas anunciadas pelos próprios comerciantes. Na mídia, os colunistas de economia informam que a crise vai chegar brava mesmo é a partir de janeiro e fevereiro de 2009… Entretanto, o Datafolha contrapõe: 78% dos brasileiros estão otimistas e acham que a vida vai melhorar em 2009.

Tem uma variável muito interessante e relevante para 2009 e que não vi colunista algum de economia analisar até agora. Chama-se China. Se ela vai entrar em crise, também é outro problema, ou se vai chegar por lá só umas marolinhas, conforme Lula previu para nós. É claro que a China deve sentir os efeitos na queda das suas exportações para os EUA e Europa. Deve reduzir seu crescimento anual de 9 ou 10% para, digamos, uns 6% ou 8%, e toda a mídia vai dizer que a crise também chegou lá.

Vão dizer que é sorte

No que diz respeito ao Brasil, somos fornecedores dos chineses na exportação de alimentos, soja e carne, frango, alguma coisa de café, um pouco de laranja e o nosso porco deve crescer em 2009. Tudo isto porque a China fez inclusão social de mais de 350 milhões de chineses nos últimos 15 anos, vindos da área rural para as cidades, para trabalhar na indústria. Antes de serem urbanizados, produziam a própria comida num pequeno pedaço de terra e hoje compram no mercadinho na esquina.

Alguém aí, que me lê nesse momento, acha que o governo chinês vai deixar o equivalente a esses dois brasis de 350 milhões de consumidores com fome? Ou melhor, 1,3 bilhões de pessoas com fome? Com um fundo de caixa em moedas fortes perto dos 2 trilhões de dólares? Para acreditar nisso, precisa ser muito pessimista. Nem precisa falar da Índia e da Rússia, os outros dois componentes do BRIC. Também, tudo isto, independentemente de haver acordo na Rodada de Doha, ainda este ano, para liberalizar o comércio.

Como lembrete final: as exportações do agronegócio representam mais da metade da nossa balança comercial e saibam que os estoques de alimentos (grãos) são os mais baixos da história contemporânea no pós-guerra. Parece-me que a isso se chama de ‘fundamento de mercado’, ou isso não tem mais importância? As coisas vão melhorar a partir do momento em que o etanol da cana-de-açúcar virar commodity internacional, mas isso é outra história.

Que ladrem os pessimistas, mas observem os índices de popularidade do presidente Lula, pois eles podem continuar subindo nas próximas pesquisas, mesmo que não segure a crise. E aí, vão dizer o quê? Ah! Tem uma coisa, vão dizer que é sorte…

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Jornalista, publicitário e escritor, editor da revista DBO Agrotecnologia

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