Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O primeiro livro-reportagem brasileiro?

Por Bárbara Dal Fabbro em 10/11/2009 na edição 563

A guerra de Canudos foi o primeiro acontecimento histórico brasileiro a ter cobertura diária na imprensa. Diante do grande enfoque dado ao evento, foram publicados muitos textos e livros sobre o tema. Dentre eles, destacam-se Os jagunços (1898), de Afonso Arinos; Última expedição a Canudos (1898), de Emídio Dantas Barreto; O rei dos jagunços (1899), de Manuel Benício; A campanha de Canudos (1900), de Aristides Milton; Descrição de uma viagem a Canudos (1900), de Alvim Martins Horcades; A guerra de Canudos (1902/1903), de Henrique Duque-Estrada de Macedo Soares.

Os Sertões foi um dos últimos livros sobre a Campanha de Canudos a serem publicados na época. Embora o manuscrito já estivesse pronto em maio de 1900 (BERNUCCI, 2002: 57), só foi publicado em dezembro de 1902 e é o relato mais conhecido, hoje, sobre a guerra ocorrida no sertão da Bahia.

Os Sertões é um livro classificado como pré-moderno (BOSI, 1980). Porém, sua linguagem não pode ser considerada estritamente como literária já que tem origem em matérias publicadas no jornal O Estado de S. Paulo nos anos de 1897 e 1898; embasadas nas anotações que compõem a ‘Caderneta de Campo’ (1975) em que Euclides da Cunha registrava suas impressões sobre o sertão baiano, o sertanejo e o conflito entre jagunços e o exército brasileiro. Segundo os dizeres de Olímpio de Souza Andrade (2002), trata-se da ‘mais bela das coberturas jornalísticas’ e, devido a isso, tanto o livro quanto as reportagens são analisados e estudados sob diferentes prismas por mais de um século. Nas palavras do jornalista Sebastião Jorge, publicadas no Observatório da Imprensa em 21 de agosto de 2002, ano do centenário do livro: ‘Os Sertões de Euclides da Cunha (1866-1909), considerado um clássico da literatura, de todos os tempos, não é apenas uma obra de mérito irretocável, como representa um marco no jornalismo brasileiro. O tema explorado se constitui na primeira e grande reportagem publicada num jornal.’

Recursos do jornalismo

A Guerra de Canudos – principal tema do livro – ocorreu no sertão da Bahia entre os anos de 1893 e 1897, sob o ‘direcionamento’ de Antônio Mendes Maciel, o Conselheiro, milhares de jagunços fundaram a vila de Canudos (15 mil casebres de pau-a-pique) com o intuito de estabelecer ali uma comunidade em que a partilha dos bens e da fé tornaria a vida no árido e abandonado sertão mais fácil e digna. Contudo, o arraial era considerado pelo governo brasileiro um foco monarquista que ameaçaria a República (HERMMAN, 1996). Assim, para cobrir o conflito, o jornal O Estado de S.Paulo enviou como repórter de guerra o engenheiro Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha.

Euclides trabalhou como jornalista concomitantemente ao seu trabalho como engenheiro; formado pela Politécnica (DEL GUERRA, 1998). O autor diz ser um ‘escritor por acidente’ (MARTINS, 2005). Tendo esta citação como base, é possível inferir que Euclides da Cunha não pretendia escrever livros e sim tecer relatos sobre o que viu, ouviu e presenciou durante suas viagens como repórter pelo Estadão. ‘Canudos é um fato que o livro de Euclides da Cunha transformou em fato histórico’ (ANDRADE, 2002).

Deste modo, como o próprio jornalista (autodidata, sem formação em jornalismo) afirma não ser um literato, seu texto possui em sua linguagem recursos característicos do jornalismo, já que o livro deriva de sua caderneta de campo e, conseqüentemente, de matérias publicadas no jornal.

Narrativa literária e objetividade

Como por exemplo:

‘Ali, em continuação à praça, acamparam sucessivamente todas as forças que aqui tem chegado e seguido para o sertão; um acervo informe de farrapos, trapos multicores do fardamento, botinas velhas, cantis arrebentados, bonés inutilizados – esparsos, disseminados numa área extensa, indica a estadia das tropas que desde a segunda expedição ali têm acampado’ (CUNHA, Euclides da. O Estado de S. Paulo – 09/08/1897)

Ao ser reescrita para o livro, a reportagem acima torna-se:

‘Ali tinham parado todas as forças anteriormente envolvidas na luta, no mesmo prolongamento do largo aberto para a caatinga cujos tons pardos e brancacentos, de folhas requeimadas, sugeriam a denominação da vila. Acervos repugnantes de farrapos e molambos; trapos multicores e imundos, de fardamentos velhos; botinas e coturnos acalcanhados; quepes e bonés; cantis estrondados; todos os rebotalhos de caserna, esparsos em área extensa, em que branqueavam restos de fogueiras, delatavam a passagem dos lutadores, que lá armaram as tendas, a partir da expedição Febrônio’ (CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Ateliê Editorial – edição de 2002, pág. 675).

Com este exemplo podemos verificar que há, sim, alguma adaptação da reportagem para o formato literário, porém não se trata de um romance-reportagem já que nele não há o uso da ficção como elemento de composição e de enredo (BORGES, 2003). Contudo os recursos jornalísticos se mantêm os mesmos (nesse caso, o elemento que mais chama atenção é a descrição objetiva e detalhada); o que fica bem claro na própria divisão do livro em subtítulos, como nas matérias de jornal. ‘É inquestionável, contudo, que Os Sertões faz uso tanto da narrativa literária quanto da objetividade jornalística’ (ARCOVERDE, 2003).

Um livro inclassificável

Em comemoração ao centenário da morte de Euclides da Cunha (1866-1909), voltaram-se as atenções, tanto de pesquisadores e literatos, quanto da imprensa, ao engenheiro-escritor. Um dos exemplos é a publicação semanal (aos domingos), no período de março a agosto, de um especial, no caderno Cultura, sobre o autor e suas obras n´O Estado de S. Paulo, onde trabalhou quando o jornal se chamava A Província de São Paulo. Muito já se escreveu sobre Os Sertões e Euclides da Cunha, todavia ainda não se aplicou uma mudança de conceito que abarcasse os conceitos jornalísticos inerentes à linguagem empregada no livro, porém nenhuma reclassificação foi feita. Se isso acontecer, o ‘livro vingador’ pode entrar no ranking de livros-reportagem (grandes reportagens investigativas que não estão ligadas à efemeridade das publicações impressas convencionais, em sua maioria, aos jornais) brasileiros.

Em Páginas Ampliadas (1993), Edvaldo Pereira Lima confirma que Os Sertões pode ser enquadrado como um livro-reportagem e ainda faz uma maior especificação, classificando-o como um livro-reportagem-epopéia (que abarca com grande magnitude, episódios históricos de grande relevância social), uma subclassificação de livro-reportagem-história. Este focaliza um tema do passado recente ou algo mais distante no tempo. O tema, porém, tem geralmente algum elemento que o conecta com o presente, dessa forma possibilitando um elo comum com o leitor atual.

Não se trata de uma tarefa fácil, pois a obra-mor do euclidianismo, para Andrade (2002), é um livro inclassificável, indefinido entre os gêneros, que justifica o espanto da maioria dos críticos. Contudo, ao ser reclassificado, o livro poderá servir como prova de que Euclides da Cunha é um dos pioneiros, no Brasil, nesse novo estilo de escrita que mistura recursos jornalísticos com elementos literários.

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Formanda em Jornalismo, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, SC

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