Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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O primeiro passo para a mídia plena

Por Guilherme Neves em 22/08/2006 na edição 395

Do telégrafo à internet, as mudanças tecnológicas na comunicação nunca permitiram muito tempo para se pensar na influência que exerceriam sobre consumidores e produtores de informação, atropelando a tudo e a todos, forçando a adaptação ao improviso. Em nenhum momento, como este, no entanto, estas duas pontas (produtores e consumidores) estiveram tão próximas, como que se confundindo, graças às possibilidades das novas tecnologias. E a discussão engendrada tem um nome bastante específico: jornalismo-cidadão.

Aqui mesmo no Observatório Luiz Weis comentou recentemente (‘A falta que fazem os profissionais‘) um texto do jornalista Nicholas Lemann, da revista New Yorker no qual, para Weis, lançava-se ‘um bem vindo olhar crítico sobre o jornalismo-cidadão’. A dita crítica é muito bem-vinda, uma vez que contribui para que se situe o movimento numa perspectiva mais realista.

Levantamento do Technorati reportou, até o dia 31 de julho, a soma de 50 milhões de blogs na expansiva blogosfera, que a cada dia aumenta em 75 mil novos weblogs, média de 18,6 posts por segundo. Este excesso pode inflar a empolgação dos apaixonados pelas novas tecnologias e suas possibilidades ‘democráticas’, levando à pregação apocalíptica de que as ‘velhas mídias’ darão lugar ao bloguismo, como se encarnassem uma batalha entre hipócritas de velha-guarda e sinceros de fraldas. Nessa idéia o próprio Lemann joga a água fria:

‘Por enquanto, há de tudo na blogosfera, mas nada que já tenha alcançado o patamar de uma cultura jornalística rica o suficiente para competir a sério com a velha mídia – para substituí-la em vez de complementá-la.’

BBC adere

Em se tratando de mídias, o radicalismo é sempre um chute perigoso, não se jogam décadas de modo de produção fora de uma hora para a outra. No entanto, novos ajustes são necessários em cada avanço tecnológico, muito mais num campo impulsionado pela tecnologia como é o jornalismo na sociedade atual.

Se a grande mídia dá espaço a um complemento significa que não ela é completa em si mesma. Há que se salientar que por trás destes blogs há justamente o público, razão de ser do jornalismo democrático. Por que não, então, dar o primeiro passo para a plenitude? Por que não integrar e educar a audiência para a produção de notícias? Por que não ampliar o campo de visão dos profissionais pelos olhos do público?

Esta tendência já aparece no mercado, onde gigantes corporativos têm incorporado a produção da audiência às suas listas de notícias. Steve Outing, editor do Poynter Institute, por exemplo, observa que ‘um crescente número [de corporações de comunicação] tem convidado o público a contribuir com suas notícias em troca de as terem publicadas sob o nome da empresa’, citando a BBC como exemplo.

Por qualquer um

No Brasil, casos como VC Repórter, do portal Terra, e EU Repórter, do Globo.com, demonstram a adesão à tendência, sem mencionar outras iniciativas mais centradas no envio de fotos por internautas. Logicamente, em todos estes casos o material oriundo do público passa por um crivo jornalístico, marcando uma grande diferença em relação à liberdade dos blogs. Ainda assim, iniciativas como a do Terra, por exemplo, chegam a dar o mesmo destaque a produções da redação e a matérias de seus internautas, valorizando a participação do público na home do portal.

Se tal participação melhorará ou não a oferta da mídia tradicional, caberá ao próprio público decidir, optando pelo bloguismo ou pela corporação, ou mesmo pelos dois.

Pode ser um trunfo do jornalismo-cidadão a sinceridade, o fato de não ter uma hierarquia por trás de suas expressões e a interação praticamente instantânea com o público, mas isso não significa que algumas destas virtudes já não se façam presentes nos atuais grandes meios de comunicação e mesmo que outros aspectos não cheguem às corporações algum dia. Jornalismo se trata de credibilidade e confiança, coisas que podem ser conquistadas por qualquer um, só depende das partes envolvidas no processo de comunicação.

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Estudante de Jornalismo, Porto Alegre

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