Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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DIRETóRIO ACADêMICO >

O que é ser um jornalista

Por TT Catalão em 20/03/2006 na edição 373

Quando celebramos a formatura de jornalistas, não há nenhuma novidade na exaltação da ética, na essência para a democracia que é a liberdade de expressão ou no poder da mídia em construir ou destruir imagens, pessoas, corporações, idéias e ideais. Não há nada do que eu possa falar aqui capaz de acrescentar valores a cada um de vocês. Nada extraordinário que possa mudar opiniões ou virar comportamentos em nome da grandeza moral, política e social que é ser um jornalista radicalmente comprometido com a busca da verdade. Acontece que os discursos são volúveis, mesmo na pretensão de serem voláteis. E isso não é nenhum descrédito, desencanto ou pessimismo quanto a força das palavras ou recusa a evocar princípios tradicionais no exercício de uma profissão.

Acontece é que os discursos, hoje, ficaram ocos pela facilidade técnica com que se montam palavrórios. Qualquer manipulador pode recorrer ao repertório vulgar de termos ilustres e fabricar bandeiras. Qualquer mentira pode ser montada quando se consegue recortar frases de efeito.

Porém, aqui, recorro à grande e única diferença nisso tudo: as palavras só germinarão em substância, energia e luz se estiverem aliadas da atitude. A diferença será estabelecida por aqueles que sentem profundamente o que pensam; vivem o que falam; fazem o que a consciência determina. Sem isso todo discurso é peça de maquiagem no jogo das aparências e o próprio jornalismo deixa de ser uma ferramenta ativa da cidadania para ser mais um truque no espetáculo da sociedade que não deseja a verdade. Por isso as mentiras caem rápidas e as farsas não se sustentam. Ainda bem!

Nesse propósito, e desejo de um irmão mais velho, seria bom celebrar esta noite pelo resgate vivo, de verdade, na carne, das palavras, dos sons e das imagens. Por mais que as empresas de comunicação necessitem do lucro como negócio a notícia não pode virar mercadoria, e muito menos virar um jornalista mero joguete inconsciente sem a dimensão dos fatores ocultos em informações plantadas apenas para atender interesses de grupos ou indivíduos.

Difícil esconder

Nada errado em ser negócio. Isto é lícito e meritório se a empresa de comunicação construir a base da sua independência sob o canal direto com a própria sociedade. Ótimo se tal prática distanciar a mídia das verbas oficiais e corporações. Se quem paga, manda, é importante manter distância e evitar a perigosa promiscuidade entre quem informa e quem deseja dar a sua versão do que deve ser informado. A pressão de quem paga está no ar e nas páginas, discretos ou vergonhosamente explícitos, determinam o aquecimento ou omissão de notícias. Mas tais esquemas não contam com jornalistas realmente jornalistas. Esses também criam pressão: a pressão da dignidade.

O importante nesse jogo todo é que a diferença do fator humano pode desestabilizar as grandes armações contra leitores, ouvintes e espectadores. Um jornalista organizado e seguro da sua apuração pode criar um campo de pressão nas empresas para investigar tudo. A redação tem esse poder de provocar viradas na mesa e levar às últimas conseqüências fatos inconvenientes para algum grupo ou pessoa poderosa.

Jornalistas obcecados pela busca de contraditórios e sob reflexão permanente, sem medir esforço para dar os contextos, conectar antecedentes e projetar cenários provocam ondas de credibilidade e respeito que as próprias empresas precisam para sobreviver: chegamos a um ponto em que a notícia incômoda pode até ser desidratada ou manipulada, mas está difícil esconder. No jornalismo, como na vida, se perder o crédito é só limpar a ficha e abrir conta em outro banco, mas perder a credibilidade é fatal para quem lida com informação.

No centro do processo

Daí esse pacto que fazemos hoje pela atitude comprometida entre idéias, palavras e atos. Esse é o nosso poder. Mesmo assalariados com a cabeça sempre em risco. Mesmo frágeis, aparentemente, quando tentam nos isolar como perigosos românticos e utópicos. Será a nossa atitude que determinará se o nosso jornal faz realmente jornalismo ou é só um papel pintado com letras e figuras bonitinhas. Se a nossa estação de rádio faz realmente jornalismo ou apenas ocupa o vácuo com sons dispensáveis e vazios. Se a nossa emissora de TV faz realmente jornalismo ou virou um aquário eletrônico onde pipocam belezas e clipagens graciosas sem raízes com os valores da justiça, da fraternidade e da cidadania.

No meio dessa onda está a atitude de cada um de vocês para estabelecer a diferença entre mídia ativa e midiocridade. E no mais lembrar sempre o magnífico fato de saírem de uma universidade com a história da Universidade de Brasília e a dívida que temos com a sociedade para que mais e mais gente consiga chegar a esse privilégio. Para tornar vida o que era só blablablá e fazer das palavras, sons e imagens um caminho único entre a pessoa e o profissional.

Só assim o próprio valor do diploma encontrará sentido nos anos de aprendizado. Técnicas de edição, redação e tratamento da informação, usos de linguagens e expressões, consideração das referências culturais e a ciência da comunicação valem muito pouco quando não há uma pessoa no centro do processo. É assim que as utopias se cumprem e derrotam o deboche e o descaso dos que não acreditam e tentam impedir o avanço da liberdade e a criação de uma sociedade fraterna.

É com vocês. Muito obrigado pela honra de estar aqui, agora e no desejo de caminharmos juntos.

******

Jornalista, Brasília

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