Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1062
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DIRETóRIO ACADêMICO >

O que penso a seis meses de me formar como jornalista

Por Susan Eiko Togashi em 23/06/2009 na edição 543

Pára tudo! Todo mundo brigando, pessoas já organizando manifestações contra a queda do diploma de jornalismo… Paro e fico pensando em um viés muito mais positivo para nosso futuro como comunicadores. Sou universitária, cursando o último semestre de Jornalismo. Passei pelas oficinas de televisão, escrevi milhares de textos para professores, aprendi a trabalhar com rádio, fiz oficina de revista e agora chego no famigerado TCC. Estou para bater o jogo e vejo uma valorização de nossa profissão com a decisão do STF.

Entrei no mercado de trabalho muito cedo. Passei por assessoria de imprensa, comunicação empresarial e há um ano e meio trabalho em redação. Quantos universitários e estagiários como eu conheci nesse tempo todo? Não consigo contabilizar. E quantos deles realmente estavam ou estão agora preparados para carregar o título de jornalistas com honra? O boom de universidades particulares cria MTBs novos todos os semestres, como uma produção em série sem criatividade, paixão e capacidade para levar a rotina de plantões e a correria de fechamento com o mesmo bom humor que tinham quando batiam papo pelos corredores das faculdades. E qual é a garantia de que eles se tornarão profissionais competentes? Nenhuma.

Ao passo que o diploma não é mais uma exigência, a tendência, de início, é a proliferação de milhares de pessoas se intitulando jornalistas, mas a exigência sobre nossa classe será ainda maior.

Agora, o mundo é de quem faz

Você se diz jornalista? Pois então prove passando uma boa pauta. Prove escrevendo um bom texto. Prove fazendo uma boa entrevista. Prove cultivando suas fontes. Se antes, aquele que se esforçava e que sempre levou jeito para a coisa era deixado para trás por uma bacia de jornalistas recém-formados, com diploma mas sem preparo algum para enfrentar o dia-a-dia da notícia, agora a corrida ficou mais acirrada. É na prática que as coisas vão ser esclarecidas. Tudo para um bem maior: o aumento da qualidade dos profissionais nas redações, aqueles que na prática mostram que têm jogo de cintura, que entregam uma notícia valorosa. Acabou o jogo dos ‘idiotas da objetividade’ de que tanto Nelson Rodrigues falava.

Ética? Nenhuma universidade pode moldar a ética pessoal de cada um, que não é aplicada há muito tempo no jornalismo, principalmente nos noticiários sanguinários que exploram a imagem de crianças e adultos humildes para mostrar a tragédia de maneira mais apelativa todos os dias na televisão. Ouvi uma vez em sala de aula, no semestre passado: ‘Se há autorização de imagem, o jornalista está protegido.’ Mas ética não é assim, ética presta atenção e zela pelo bem geral, sem abuso ou exploração do outro simplesmente por ter um pedaço de papel assinado. Frase de um quase jornalista. A seis meses de se formar.

A queda do diploma de jornalismo só tem a aprimorar a qualidade de nossa produção, valorizar a classe e destacar os profissionais que demonstram para que vieram. Não me arrependo de ter gasto os últimos quatro anos na faculdade porque nela aprimorei técnicas que já possuía, e foi cursando jornalismo que montei minha base para argumentar agora com mais propriedade a não obrigatoriedade do diploma. Vivi a experiência e sei que não foi exatamente o que aprendi que me colocou hoje no estágio que estou. Claro, nunca vou negar minhas raízes acadêmicas, mas sei que milhares de diplomas são melhor utilizados como jogo americano do que passaporte para a redação. Bem vindo os dispostos, os ligados, os curiosos.

Aos universitários que ainda têm alguns semestres pela frente: façam a diferença, aproveitem o conteúdo, absorvam a experiência de seus mestres. Pesquem com um olhar a notícia, no tom de voz do entrevistado, nas minúsculas particularidades dos fatos. Aplaquem sua raiva, persistam. Agora para nós o mundo é de quem faz, e não de quem diz que faz na teoria.

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Estudante de Jornalismo, foi assessora de imprensa, comunicação empresarial e trabalha como estagiária de fotojornalismo no Estado de S. Paulo

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