Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA RADIOFÔNICA

O rádio e o desenvolvimento da cultura

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 26/08/2008 na edição 500

O rádio sempre foi e continuará sendo um instrumento pleno de desenvolvimento da cultura e do conhecimento. O número de pessoas que se educou via rádio é imenso e o processo de conhecimento do mundo é um dos elementos mais importantes deste meio de comunicação que continua fazendo a vida dos brasileiros e fazendo parte de todos os aspectos do cotidiano de homens e mulheres no contexto de sua luta incessante e na lida diária. Este meio de comunicação teve um papel importantíssimo na campanha contra o analfabetismo e na luta política contra regimes autoritários que se instalaram no país.

Nos dias de hoje temos um processo de sucateamento deste meio, seja em termos técnicos ou em termos de conteúdo, porém seu valor não acaba, pois o povo sempre o procura, seja em casa, seja no carro, na bicicleta ou no trabalho. Rádio é informação, é cidadania e, sobretudo, cultura. O rádio provoca uma emoção especial em quem o ouve. Já disserem ser este o teatro da mente, pois imaginamos o que ouvimos no rádio e sempre temos a curiosidade de conhecer quem está por trás das emissões radiofônicas.

É de grande importância que reconheçamos o valor deste meio de comunicação que faz parte da vida de grande parte das pessoas que o ouvem e que merecem todo o respeito por parte dos que o fazem. O rádio deve ser valorizado e precisa ser reconhecido como elemento de cultura, de debate e de questionamento da sociedade na luta pela resolução dos problemas que afligem as pessoas. O mundo radiofônico suscita um processo de discussão sobre o mundo e sobre as relações socioeconômicas entre as pessoas. É preciso aliar a informação que vem deste meio a um processo de educação e formação crítica de nosso povo que constrói a cultura, que cria idéias e provoca um turbilhão de conhecimentos e criatividade por parte dos que dele fazem parte.

Debate e engajamento

É de grande importância primar por um rádio produtivo e de engrandecimento cultural, pois precisamos desenvolver um processo de análise crítica das programações, verificando sua importância na construção da cultura e na irradiação do conhecimento. O rádio precisa ser mais cidadão para aprofundar o debate e fazer com que seu processo comunicativo desenvolva nos indivíduos que o ouvem o senso crítico e fenômenos de reconhecimento da cultura popular e da integração dos interesses do povo.

O processo de cultura deve ser uma meta perseguida por todos os que fazem o rádio, promovendo uma dinâmica de entendimento dos aspectos culturais e reconhecimento do conhecimento produzido pelo nosso povo, fazendo com que tenhamos um meio de comunicação interativo e gerador de conhecimento valoroso para o engrandecimento educativo da comunidade. A cultura é um elemento de grande importância para o povo, pois aqueles que valorizam sua cultura crescem em todos os sentidos e podem desenvolver medidas de estímulo ao questionamento produtivo do povo.

Precisamos com urgência desenvolver mecanismos de crítica do modelo de rádio que está sendo feito e que, muitas vezes, promove discriminação, desvaloriza a cultura popular e desenvolve um processo de invasão cultural. O rádio meramente musical que procura poluir a mente de jovens com músicas de duplo sentido deve ser rechaçado na tentativa de construir uma programação que seja a língua popular sem agressões, que seja divulgadora de conhecimentos, que preste serviços à população e que faça de suas emissões elementos de crítica, debate e engajamento popular na construção plena dos anseios do povo.

Reivindicações e questionamentos

O povo merece um rádio que se alie ao engrandecimento cultural e faça de sua programação uma batalha de enaltecimento da educação, da valorização do que é nosso e da criatividade de nosso povo. É preciso desenvolver uma prática comunicativa que faça com que os ouvintes sejam artífices de um novo conhecimento e construtores de uma prática que faça com que os ouvintes encontrem no rádio mensagens edificantes, debates construtivos e conhecimento voltado para a valorização do homem e de suas manifestações culturais. O rádio é um meio centenário de comunicação que sempre esteve ao lado dos anseios populares e jamais pode deixar de desenvolver a cidadania, a cultura e a formação de uma massa crítica que acredita em um mundo solidário, justo e, sobretudo, ético.

A cultura deve fazer parte do desfilar de informações que o rádio sempre traz para os indivíduos que merecem conhecer o que é seu e estão sempre em busca do conhecimento para descobrir as nuances que o mundo oferece e que podem se esconder nas programações radiofônicas. O rádio pode desenvolver cultura e mobilizar o povo na escolha de modelos alternativos de vida e na construção de um mundo onde a justiça seja bandeira de todos. É preciso que transformemos a programação de rádio em um elemento a mais na concretização de um processo de formação cultural que envolva a todos na construção da cidadania.

Temos casos de programações radiofônicas que dão preferência maior ao que vem de fora e esquecem as manifestações populares que fazem parte da história e da vida do povo. Precisamos identificar esta prática e questioná-la de forma veemente exigindo uma programação que envolva a música popular nossa, a informação sobre os nossos problemas, o conhecimento da nossa vida política e as reivindicações populares para questionar os modelos de governo e as políticas públicas geralmente atreladas a interesses que não são da maioria de nosso povo.

Mensagens de mau gosto

A cultura de nosso povo tem de ser enaltecida no rádio para que não tenhamos um processo de alienação cultural nem destruição da memória. Precisamos que espaços para discussão sobre cultura e educação popular sejam abertos para que haja um processo de construção plena de conhecimento aliado à voz do povo e ao processo de enaltecimento do ritmo de desenvolvimento de nossas sociedades.

O papel dos que fazem rádio e de seus usuários e importantíssimo para a valorização da cultura. É preciso exigir que as programações radiofônicas se baseiem num processo de reconhecimento dos valores culturais de nosso povo, de suas lutas e de seu caminho interminável de geração de idéias e construções de conhecimento popular. O rádio deve falar a língua do povo sem ser popularesco e de baixo calão. Precisa ser voltado para os interesses reais de nosso povo e buscar sempre o conhecimento gerado pelas novas e futuras gerações.

É preciso questionar programações radiofônicas que geralmente trazem a música sem mensagens e de péssimo mau gosto, mostrando infelizmente mensagens de estímulo à bebedeira, ao sexo fácil e inseguro, à desvalorização da mulher ou a mensagens que geralmente ocultam discriminação, estímulo a atitudes anti-populares e à formação de uma cultura que não gera nenhum tipo de crescimento intelectual do povo.

Dinamismo e desenvolvimento

É importante incentivar o rádio informativo, de mensagens acolhedoras, de ideais de justiça e solidariedade e de busca constante da construção da cidadania coletiva. O rádio é importante para desenvolver uma cultura que envolva sentimentos de valorização popular e de engrandecimento cognitivo de nosso povo. O rádio não pode esquecer a arte do povo, suas manifestações e anseios, rádio é intimamente ligado a um processo de formação cultural e de movimentação de ideais de valorização de nosso caráter e nossa identidade.

O rádio deve enaltecer a música popular, a poesia de nosso povo, as mensagens de nossos escritores e as idéias geradas no processo histórico de nossa sociedade. Precisamos de um rádio que traga no seu processo comunicativo o questionamento dos modelos alienantes de comunicação da geração de mitos que em nada contribuem para a melhoria de vida das nossas populações.

Precisamos de um rádio que emita mensagens de engrandecimento cultural e de formação cidadã para que o povo encontre neste meio de comunicação um aliado a mais na construção de seus interesses e na proposta de um desenvolvimento cultural que traga ao povo o desejo de valorizar o que é seu. O rádio é um elemento a mais na melhoria da sociedade e na construção do processo de cidadania tendo responsabilidade vital na formação do povo e na busca plena por dias melhores para todos. O rádio precisa de um dinamismo que envolva o processo de valorização da cultura popular e o desenvolvimento de uma sociedade que se reconheça nas programações e que acredite sempre na construção de um mundo melhor e mais justo para todos.

Mutualismo da informação

A programação de rádio deve ser aliada aos interesses do povo e deve buscar um processo de desenvolvimento cultural que possa ser voltado para um novo mundo em que a tecnologia sirva para aproximar as pessoas e gerar ações de solidariedade e melhoria do padrão de vida do povo. O rádio deve buscar os interesses populares e deve primar pela valorização daqueles que construíram nossa história cultural nos vários setores da vida moderna.

A modernização do meio rádio deve ser pautada numa lógica de valorização das mensagens cidadãs e na geração e idéias que promovam um mundo onde tenhamos sempre iniciativas de construção de um processo de engrandecimento cultural e de valorização do que o povo constrói no dia-a-dia. O rádio deve e pode ser um elemento a mais na valorização da cultura popular, pois o povo deve valorizar o que é seu e enaltecer sempre o que foi produzido pelos indivíduos que constroem a história na luta, na produção da vida e na busca incessante da satisfação de suas necessidades materiais e espirituais.

Precisamos de um novo modelo de rádio onde a interatividade seja um instrumento de discussão da cultura e valorização do que é produzido pelo povo no cotidiano. O rádio é um instrumento por excelência de modificação da sociedade e de transformação do nível cultural do nosso povo. É preciso que todos se dêem conta da importância deste meio na valorização da cultura e engrandecimento intelectual de nosso povo, que merece e luta por uma programação de qualidade pautada na solidariedade e busca um processo educativo em que todos sejam ouvidos, valorizados e educados através do mutualismo da informação que só o rádio pode proporcionar.

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Mestre em educação, radialista, professor da rede pública e privada de ensino no Ceará e vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará

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