Segunda-feira, 15 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
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DIRETóRIO ACADêMICO >

O rótulo dos jornais

Por Monitor de Mídia em 17/03/2009 na edição 529

A capa funciona para um jornal como as embalagens funcionam para os produtos. Por isso, deve atrair o público para que ele se interesse pelo conteúdo. Para que isso aconteça, o periódico deve seguir padrões jornalísticos.


Neste diagnóstico, o Monitor de Mídia voltou analisar o conteúdo presente na capa: manchete, fotodestaque, chamadas e presença ou não de publicidade. Além disso, examinou se foram considerados na hora da edição os critérios de proximidade e prestação de serviço.


Foram selecionadas aleatoriamente edições de jornais do Vale do Itajaí: Diário do Litoral – Diarinho e Correio Popular, de Itajaí; Jornal de Balneário Camboriú e Diário da Cidade, de Balneário Camboriú; A voz de Brusque e Município Dia-a-dia, ambos de Brusque. A seleção foi feita a partir de um exemplar de cada periódico, sendo a capa o objeto de análise. Em 26/03/2007, o Monitor de Mídia já havia examinado outros periódicos em busca das mesmas pistas: critérios de seleção e a qualidade do produto jornalístico.


Conforme já citado no diagnóstico anterior, o autor Jorge Pedro Sousa no livro Elementos de jornalismo impresso, evidencia algumas regras para compor os títulos – neste caso, manchete e chamadas: o verbo deve estar no presente do indicativo, na ordem direta e na voz ativa; devem-se evitar pontuação, gírias; sintetizar a informação ao máximo; evitar palavras negativas; evitar artigos sempre que possível, entre outros critérios. O autor Ricardo Noblat em seu livro A arte de fazer um jornal diário caracteriza como a manchete deve ser elaborada:




Manchetes de capa e de páginas internas devem ater-se ao factual, ser diretas e objetivas se forem capazes de surpreender os leitores com informações que eles desconheçam. Caso contrário, devem ser antes de tudo criativas, provocadoras, reflexivas. Elas estão ali para estimular a leitura das matérias. Se não cumprem a missão, para nada servem. (NOBLAT, 2007, p.116)


Segundo Nelson Traquina, em Teorias do Jornalismo (volume II), existem critérios de noticiabilidade que são considerados para elevar determinado fato ao patamar de notícia. Para ele:




Podemos definir o conceito de noticiabilidade como conjunto de critérios e operações que fornecem a aptidão de merecer um tratamento jornalístico, isto é, possuir valor como notícia. Assim, os critérios de noticiabilidade são o conjunto de valores-notícia que determinam se um acontecimento, ou assunto, é suscetível de se tornar notícia, isto é, de ser julgado como merecedor de ser transformado em matéria noticiável e, por isso, possuindo ‘valor-notícia’ (‘newsworthiness’). (TRAQUINA, 2005, p.63).


Dentre os critérios de noticiabilidade citados por Traquina, utilizamos o da proximidade nesta análise, por serem jornais de abrangência local, o que pressupõe que dêem prioridade aos eventos referentes às comunidades onde circulam. ‘Outro valor-notícia fundamental da cultura jornalística é a proximidade, sobretudo em termos geográficos, mas também em termos culturais’ (TRAQUINA, 2005, p. 80).


Correio Popular


A edição analisada foi a do dia 21 de fevereiro a 5 de março de 2009. A manchete de capa ‘Chegou a hora da folia’ procurou atrair e despertar a atenção do leitor junto com uma foto que ocupou mais da metade da página. O título informou apenas o início do Carnaval, evento de destaque no país inteiro, mas é uma notícia de interesse do público e não de interesse público. A página é composta por mais duas chamadas, cada uma contendo foto e dois anúncios. Uma das chamadas utilizou da forma imperativa pra chamar o leitor: ‘Confira a entrevista com o presidente da ACII, Marco Aurélio Seara JR’, entretanto, não adianta nenhum assunto abordado na entrevista. A outra chamada ‘Bairro São Vicente é destaque nesta edição’ foi evasiva e não informa o leitor. O bairro é destaque por quê? O título acaba instigando a curiosidade do leitor, porém não sintetiza a notícia em si. A capa não contém erros ortográficos, o jornal foi isento e a abrangência do seu conteúdo é municipal. Apesar destes elementos positivos, a capa da edição não trouxe notícias propriamente ditas, não informou concretamente algo.


Diário da Cidade


A capa da edição do dia 4 de março de 2009 trouxe na matéria principal o título ‘Destruição’, que chamou muito a atenção do leitor, estimulando-o a ler a matéria. A manchete, aliada à linha de apoio, informou com imparcialidade o leitor sobre algo de relevância pública, a precária situação do hospital municipal de Balneário Camboriú, e abrangeu todos os usuários do mesmo na cidade e na região. Outra chamada de grande destaque na capa foi ‘População recebe transporte coletivo gratuito’. Também acompanhada de linha de apoio, ambas informaram e também prestaram serviço por trazer ao público um benefício que ele terá. É de interesse e relevância a noticia contida ali. Das quatro chamadas, três foram de interesse e relevância pública, de abrangência regional e não continham juízo de valor: ‘Suspensa a pesca de camarão em Santa Catarina’, ‘Porto de Itajaí é referência na coleta de óleo de cozinha’ e ‘Dupla de Balneário Camboriú viaja para 2ª etapa do circuito nacional’. A outra anunciou algo ainda não concreto: ‘Prefeitura de Penha quer reduzir dívida ativa em 20%’; a prefeitura querer reduzir essa dívida, não quer dizer que ela vá reduzir, então não há uma notícia de fato ali.


Jornal de Balneário Camboriú


De 05/03 a 11/03. O Jornal de Balneário Camboriú, que também circula em Itapema, Camboriú e Itajaí, apresentou em todo o conteúdo da capa proximidade nas notícias com a comunidade. No que se refere à prestação de serviços, esta edição mostrou-se um pouco tímida ao divulgar apenas uma chamada ‘Show de Jazz ecoa em Itajaí’. A publicação cede espaço considerável para publicidade; só neste exemplar foram contabilizadas sete inserções.


O conteúdo divulgado, em sua maioria, seguiu as recomendações de uso da voz ativa, ordem direta, ausência de pontuação e construção no presente do indicativo. Apenas a manchete ‘O Piriquito é um mentiroso’, citação do Ex-prefeito Rubens Spernau, fugiu ao padrão, pois pode dar ao leitor a sensação de que o jornal concorda com a afirmação. Talvez houvesse menos comprometimento por parte do veículo se tivesse sido publicado: Rubens Spernau chama Piriquito de mentiroso, repassando mais claramente à fonte a autoria da frase. A fotodestaque, sobre o mesmo assunto, mostrava o ex-prefeito com uma aparência tensa, o que ilustrou bem o clima da matéria. A chamada ‘Campeão desconhecido’ merece destaque, não por estar errada, mas por ser um título enigmático, recurso pouco utilizado. Vale ressaltar que a linha de apoio referente a esta chamada esclarece a notícia para o leitor. Não foi encontrado nenhum erro de português na capa deste exemplar.


Diário do Litoral (Diarinho)


O Diarinho, conhecido por adotar uma linguagem chula, apresentou na capa um conteúdo que normalmente se encontra fora do padrão adotado pelo jornalismo de referência. Além da manchete do dia, ‘Bandidaço!’, ser uma gíria, o uso de pontuação (ponto de exclamação), que não é recomendado pelos estudiosos da comunicação, foi inadequado. A fotodestaque, também referente ao assunto, mostrava o homem algemado, posando para a foto. Dessa forma, fica clara a intenção do jornal em chamar a atenção dos leitores para o fato. Foram identificadas ainda chamadas evasivas como: ‘Ameaça destruir geladeira novinha na base da marretada’ e ‘Codetran retira lombadas da `curva da morte´’. Em ambos os casos não há como saber quem e porque quer destruir a geladeira e nem qual é exatamente o trecho de onde serão retiradas as lombadas.


Um ponto positivo é que o jornal cumpre a sua função local, ao apresentar proximidade e prestação de serviço no conteúdo veiculado em sua capa. No que diz respeito à publicidade, o Diarinho apresentou apenas uma inserção publicitária na capa.


Município Dia-a-dia


O jornal Município Dia-a-dia circula há 55 anos e abrange as cidades de Brusque, Guabiruba, Botuverá, Nova Trento e São João Batista. Na edição do dia 04 de março, o periódico trouxe como manchete ‘Cheias em Brusque serão previstas com antecedência’, o que comprova a atuação do jornal como prestador de serviço à comunidade brusquense e de regiões próximas, ao abordar o tema da prevenção das cheias no Vale do Itajaí, priorizando o critério de proximidade. Além disso, também houve chamada de capa e fotodestaque – a imagem do rio e do sistema de medição por metro das cheias – para ilustrar e esclarecer melhor a manchete.


A edição trouxe ainda mais sete chamadas, todas com o verbo no presente do indicativo, na voz ativa e sem pontuação. Uma delas trouxe foto, e, em outra, houve erro de digitação: ‘Homem morre em acidente de trabalho em’ – o final da frase parece ter sido cortado sem que o diagramador ou o editor percebessem. Não foi encontrada manifestação de opinião na capa, ou seja, o jornal procurou apenas informar, sem se posicionar contra ou a favor dos fatos ocorridos. Houve pouca publicidade, apenas dois pequenos anúncios.


A Voz de Brusque


A edição de 23 a 28 de fevereiro do semanário apresentou como destaque ‘Novo governo emplaca mais uma semana fúnebre’. Tanto a fotografia – um crocodilo engolindo uma mulher – como a chamada de capa que acompanham a manchete, podem ser classificadas como enigmáticas, pois elas dificultam a compreensão da informação. Além disso, a manchete evidencia a manifestação do periódico contra a nova administração pública da cidade. O jornal utilizou a capa como um espaço opinativo, visando chamar a atenção do público de forma satírica sobre os problemas do município, ao invés de priorizar a informação. Assim como a manchete, as chamadas não apresentaram pontuação, trouxeram o verbo no presente do indicativo e na voz ativa. O uso de letra maiúscula em algumas palavras comuns foi percebido em duas chamadas: ‘Paulo Bornhausen Pede Pelos Suinocultores’ e ‘Coro da Unifebe Completa 10 anos’. Ou seja, o jornal não utilizou um padrão ao compor a estrutura das frases. Houve pouca publicidade inserida na capa, porém os anúncios foram bem destacados, pois se encontraram próximos às chamadas.


O padrão jornalístico presente nos jornais locais


Os seis jornais considerados nesse diagnóstico seguiram os padrões jornalísticos na maioria do conteúdo publicado. Isto é importante não apenas para que os periódicos mantenham um mínimo de qualidade, mas também para que conquistem credibilidade por parte do público. Poucos erros ortográficos foram encontrados e quase não houve posicionamento dentro da notícia por parte destes veículos. Vale ressaltar que houve pouca presença de publicidade na capa dos exemplares. Por se tratarem de jornais locais o esperado é que pautem os eventos ocorridos nas regiões em que circulam e funcionem também como prestadores de serviços para os seus leitores, o que foi comprovado por esta análise. O destaque negativo ficou por conta do semanário A Voz de Brusque, que pecou tanto por erros relativos à língua quanto nas intenções que deixaram de ser jornalísticas.


Referências bibliográficas:


NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. São Paulo: Contexo, 2007.


TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: volume II : a tribo jornalística – uma comunidade interpretativa transnacional. Florianópolis: Insular, 2005.


SOUSA, Jorge Pedro. Elementos de Jornalismo Impresso. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2005.


***


Um diálogo que interessa à sociedade


O Monitor de Mídia fechou o ano passado com editorial que fazia um balanço do período, qualificando 2008 como atípico para o setor de Comunicação. Isso por causa das mudanças no mercado catarinense, setor onde quase nada se modifica. Em dezembro passado, nosso editorial ainda projetava novidades para 2009, como reforma nas Diretrizes Curriculares para os cursos de Comunicação e decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a polêmica do diploma obrigatório para jornalistas.


Aviso aos navegantes: 2009 já começou. O Ministério da Educação já compôs uma comissão de especialistas para revisar as Diretrizes Curriculares dos cursos, buscando maior especificidade para os de Jornalismo. A comissão é presidida pelo professor José Marques de Melo e tem representantes da academia e da categoria profissional. Os especialistas estão colhendo sugestões para o documento, e vão realizar três audiências públicas, ouvindo diversos setores da sociedade. Num prazo de seis meses, um novo documento deve ser apresentado ao Conselho Nacional de Educação e a partir daí, reorientar o surgimento de novos cursos de Jornalismo e instruir os já existentes. Antiga reivindicação de professores e pesquisadores, as novas diretrizes tendem a fortalecer o Jornalismo como um campo autônomo de conhecimento.


Passado o Carnaval e iniciado o ano pra valer, ainda perdura o impasse na discussão sobre a obrigatoriedade do diploma para jornalistas. O STF ainda não se pronunciou sobre a questão, e sua decisão é aguardada ansiosamente tanto pela categoria quanto por quem está querendo entrar no mercado.


Em compensação, um evento que não tinha nenhuma garantia de ocorrer neste ano já tem data marcada em 2009. Trata-se da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que está prevista para a primeira semana de dezembro. A conferência é resultado da pressão de diversas organizações sociais sobre o governo federal, e o objetivo bem claro: realizar um encontro que discuta direito à comunicação, concessões de radiodifusão, inclusão digital e outras políticas públicas ligadas à área. A realização da primeira edição da conferência pode ser um marco para as relações entre mídia, sociedade e estado, pois pode abrir um diálogo essencial para a democracia. Um diálogo que interessa não apenas as redações.

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Monitor de Mídia

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