Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DIRETóRIO ACADêMICO >

O tempo do fim da obrigatoriedade

Por Renato Rovai em 19/06/2009 na edição 542

O debate sobre a exigência do diploma de jornalismo sempre foi algo tenso e cheio de paixões. Desde minha época da estudante de graduação na Universidade Metodista de São Bernardo, nos anos de 85 a 88, que convivo com a questão. Recordo-me, inclusive, que em 1986 a Folha de S. Paulo liderava a campanha pelo seu fim e que numa das edições em que tratava do tema simplesmente trocou a legenda de uma foto de uma reunião de deputados do Centrão por outra de bois gordos eram confiscados pelo governo Sarney. Pois é, leitor, imagine, como aqueles bois não ficaram ofendidos com a confusão.


Pra gente, que achava que a Folha estava de sacanagem, foi uma festa. Era a prova cabal de que o diploma precisava ser mantido. Afinal, a Folha já descumpria a lei naquela época e muitos dos que trabalhavam no jornal tinham formação em outras áreas.


Bem, o tempo passou na janela e, sinceramente, suspeito que até Carolina viu – aliás, minha filha com esse nome já tem 18 anos. Em 1985 quem tinha 18 era eu. Mas muita gente continuou com a mesma posição.


Nos últimos 25 anos a comunicação virou de cabeça pra baixo. Hoje o processo de informação pode ser realizado de forma muito mais horizontal e democrática do que no passado. Mas para que isso aconteça é fundamental que o maior número possível de pessoas, de todas as partes e com todas as formações (ou não-formações) possa participar da festa. O direito a informação não pode ser exclusividade de uma elite de diplomados. Muito menos de diplomados num único curso.


É por isso, fundamentalmente por isso, que já há alguns bons anos (pra ser franco mais que uma década) que não defendo a manutenção da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Acho que ela vai na contramão da democratização midiática.


Não costumo tornar essa opinião pública, porque ela é muito controversa e acaba dividindo o campo dos que lutam contra o domínio das grandes corporações no setor. Também nunca fiz questão de torná-la muito pública, porque acho que na prática há algum tempo a exigência do diploma já é letra morta.


Costumava brincar com minha amiga Ivana Bentes, diretora da ECO-UFRJ, que as pessoas só se lembravam que o diploma era uma exigência porque ela sempre trazia o tema à baila. Ivana, até por conta da sua atividade acadêmica, em muitas de suas participações colocava sua posição a favor do fim do diploma. Parecia um contrassenso, já que é diretora de uma escola de comunicação. Ela não acha isso. Nem eu.


Creio que pouco ou quase nada vai mudar com o fim da obrigatoriedade do diploma. As empresas vão continuar contratando em sua maioria gente oriunda das faculdades de jornalismo, como o fazem as agências em relação aos formandos de publicidade. Como o colega deve saber, não existe obrigatoriedade de diploma para o exercício da atividade publicitária. Ou seja, os recém-formados não precisam queimar seus diplomas. Podem e devem, inclusive, usá-lo para tentar buscar um mestrado na área de comunicação. E ao fazê-lo poderiam pesquisar formas de ampliar a mídia livre, por exemplo.


Agora, algumas faculdades vão fechar. E só as melhores vão se manter. Qual o problema disso? Nenhum. Hoje há uma quantidade imensa de cursos de jornalismo que não formam pessoas nem com preparo técnico nem cultural para o exercício profissional. E até por isso, poucas pessoas formadas por eles tornam-se de fato jornalistas. Muitas acabam dirigindo-se para outras áreas de atividades e ficam com o diploma na gaveta. E com vergonha, inclusive, de dizer que curso fizeram por conta do imenso sentimento de frustração.


Ou seja, não perdemos nada com o fim do diploma. Aliás, essa luta apaixonada pela sua manutenção nos últimos tempos me remetia ao que acontecia nos início da revolução industrial na Inglaterra, quando ao invés de se organizar para entender como proceder no novo contexto, grupos mais radicais de operários invadiam as fábricas para destruir as máquinas.


Muitas das novas tecnologias permitem que o direito à comunicação possa vir a ser de fato um direito humano de todos. E ao invés de a gente, que se reivindica democrata, gastar energia pensando em como agir nesse novo ambiente, estávamos nos dividindo por conta do que pensamos em relação à obrigatoriedade do diploma.


Sei que essa página ainda vai demorar um tempinho para ser virada. Mas acho que o tempo vai nos mostrar que perdemos muito tempo debatendo algo que não merecia tanto tempo.


Claro que estou brincando com o exagero de vezes que usei a palavra tempo. É que já não era sem tempo de deixar essa história para trás. Agora, nossos sindicatos da categoria têm que começar a pensar em como construir novas formas de regulamentação que preservem as conquistas que acumulamos. E formas de unificar nossas lutas com de outras categorias que também fazem os veículos de comunicação. E a gente tem que se desafiar a construir um novo tempo na área, que não seja vinculado às estruturas verticais da corporação. Quem disse que obrigatoriamente para ser jornalista é preciso ter patrão? Será que não podemos também virar esta página? Será que de alguma forma já não estamos virando-a.

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