Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > TAM, VÔO 3054

O trágico e os seletores da notícia

Por Larissa Grau em 24/07/2007 na edição 443

Dependendo do ponto de vista eleito por um determinado pesquisador da mídia, são várias as possibilidades de classificação da diversificada programação veiculada nos meios de comunicação de massa. Entretanto, não é incorreto afirmar que dentro de uma tipologia sistemática, são três as categorias de manipulação de códigos de informação: notícias/reportagens, entretenimento e publicidade.

Dentro do espaço da programação, notícias/reportagens talvez seja a categoria mais facilmente reconhecível por sua própria apresentação dentro de um espaço delimitado, seja nos meios impressos ou nos meios televisivos, embora se saiba que é cada vez mais complicado discernir somente uma das categorias em seu estado puro. Notícias se confundem ora com entretenimento, ora com aspectos publicitários e não raro os dois de uma só vez. E vice-versa.

Dentre as peculiaridades de cada categoria, as notícias devem ser sempre renovadas e a própria natureza dos sistemas de comunicação constroem uma estrutura para que assim se suceda. Os acontecimentos são dramatizados. Personalidades públicas se transformam em personagens conhecidos e mais ou menos previsíveis. Em uma crise política, um escândalo é acompanhado no formato de capítulos com todos os lances diários prometendo mais emoções para o noticiário seguinte.

Um fato pressupõe um conhecimento prévio e assim por diante. Há que se acompanhar para compreender.

Liberdade editorial

Outra característica: pressupõe-se a verdade nessa categoria. Mesmo sob a desconfiança eterna por parte dos receptores da manipulação dos fatos, o ato de assistir ou ler algum material noticioso envolve uma relação, ainda que tênue, de credibilidade. Sabemos que aquilo não é uma peça de ficção. Alguém disse, falou, fez alguma coisa que pode ser verificada.

Da apuração devida dos fatos, inclusive, advém o grau de credibilidade de veículos e dos profissionais do jornalismo. Quanto aos erros inevitáveis, às falhas de informação, conta-se em certa medida com eles e, dentro do possível, com a boa vontade dos produtores da notícia, eles são corrigidos na errata do dia seguinte.

O sociólogo alemão Nickolas Luhmann afirma que o problema das notícias não se encontra em sua verdade, mas no processo inerente de sua seletividade e é daí que advém o nosso sentido de uma realidade construída pelos sistemas de comunicação. É na seletividade do material noticioso que se manifesta, em certa medida, a liberdade editorial dos veículos: no peso, no espaço, na cobertura, no enfoque que se dá a cada fato transformado em notícia.

Proximidade e relevância

Alguns são esses seletores da informação que será publicada. Ela deve ser trabalhada sob a perspectiva do novo, da surpresa que será renovada pela ‘notória descontinuidade’. Ela quebra, assim, todas as expectativas e, por isso, conflitos de qualquer natureza são as estrelas dentro de um noticiário. Eles são imprevisíveis. Tudo pode acontecer.

Eles ocasionam a incerteza que será sanada, ou minimizada, com o ato de adquirir a informação através dos meios de comunicação de massa. ‘Quantidades’ também fazem sucesso e esse é outro dos principais seletores da informação. Nos números, nas taxas, nos índices, o valor informativo pode ser aumentado, seja por estatísticas precisas, seja por acontecimentos de grande proporção. Como diz o sociólogo, ‘quantidades não são assim tão inocentes como poderiam parecer’.

Afinal, se alguma coisa ‘sobe’, outra desce.

Outro seletor – ou valor de notícia – importante é a proximidade e a relevância de um determinado fato para uma comunidade circunscrita dentro de um limite espacial. Há certas coisas que somente dizem respeito ao local. E, nesse caso, a distância será compensada pela gravidade de uma determinada informação.

Entretenimento e esporte

No Brasil conhecemos bem outro seletor da informação: a transgressão às normas, que o diga o nosso Congresso, nossas instituições e órgãos públicos. Essas notícias reforçam nossa indignação e, de uma forma indireta, a própria norma já estabelecida. Nos escândalos fazemos nossas preleções morais e nesse sentido os meios de comunicação têm – ou deveriam ter – uma considerável importância na manutenção dessa ordem. Na mídia, distinguimos o que é bom e o que é ruim. Uma boa e uma má ação. Geralmente, para que o receptor tenha uma percepção cognitiva dos fatos, cada ato realizado e noticiado é atribuído a um grupo ou a um determinado e único agente. Contextos mais complexos são descartados. Demandam páginas que não existem e aspectos que não são apreendidos pelo texto, seja ele qual for.

Há espaço também para a manifestação de opiniões, geralmente dos especialistas em determinada área que o tema aborda. Dessa maneira, os meios de comunicação se juntam a seus receptores gerando uma oportunidade, inclusive, para que se perceba uma alteração na opinião pública. O comentário nos jornais permanece ainda no reforço do tema abordado.

Atualidade também é relevante e não é raro que uma tragédia recente se referende às anteriores semelhantes a ela, de modo a ilustrar o acontecimento. Nesses momentos, é hora de recordar.

Entretenimento também é notícia e isso é facilmente percebido em um evento esportivo.

Escândalo político

Nosso país, por essas e outras, vive hoje um momento propício para a mídia. Temos o caso Renan Calheiros com o privilegiado seletor de escândalos políticos, de transgressão às normas. E ainda há a recente operação Águas Profundas, deflagrada pela Polícia Federal sobre concorrências fraudulentas na Petrobrás, e outros favorecimentos partidários escusos. Temos uma série de outros escândalos ainda sem solução jurídica que, entretanto, já foram esquecidos e substituídos pela incessante busca do ‘novo’ dos sistemas de comunicação.

No campo de entretenimento/informação, temos as competições do Pan-Americano 2007 na cidade do Rio de Janeiro e todas as emoções advindas do esporte que dramatiza as incertezas da vida, só que com começo-meio-e-fim, o que é um alívio para nossas angústias diárias.

E mais uma vez nos arromba o trágico com o novo acidente aéreo brasileiro – o segundo em menos de dez meses –, que coloca bruscamente em segundo plano os escândalos, os esportes, as medalhas e a falta de ética porque condensa, em um só tema, todos os seletores de notícias aqui apontados. Um fato trágico que vem na esteira de uma outra catástrofe – o acidente com a Gol que matou 154 pessoas – que se transformou em escândalo político, em quebra da conduta, das normas e que também não foi resolvido.

Um mundo estranho

‘As notícias produzem e reproduzem inseguranças em relação ao futuro’, afirma Luhmann, contra o continuísmo previsível que pretendemos ordenar em nossa vida cotidiana. Nos elementos do trágico, há muito pouco que realmente possamos fazer. Ele nos atropela, arrancando todas e quaisquer explicações. Ele é e não pretende ser. Mas a roda tem que girar dentro dos sistemas de comunicação e nas próximas semanas – quiçá meses – vamos ouvir, assistir, ver e ler toda a espécie de busca de explicações, coerência e sentido para que possamos nos sentir um pouco mais seguros. Mas será insuficiente, porque a mídia mantém a sociedade em estado de alerta.

‘Eles produzem uma disposição continuadamente renovada para que esta esteja preparada para surpresas.’ E é neste sentido que os sistemas de comunicação se ajustam à dinâmica dos outros sistemas da sociedade que não nos deixam descansar: economia, política, educação, ciência ou saúde – que ‘confrontam continuamente a sociedade com novos problemas’. É um mundo estranho este que construímos para nós.

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Estudante do último período de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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