Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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O velho jornalismo e os novos jornalistas

Por Samira Moratti em 10/03/2009 na edição 528

Na edição nº 242 de janeiro/fevereiro da revista Imprensa, a reportagem ‘Lá se vão os cabelos brancos…’ é mais do que pertinente aos debates que devem ser discutidos não só nas redações como, e principalmente, nas academias de jornalismo. Na reportagem, Sérgio M. Garschagen aborda questões como a demissão ou não contratação de repórteres veteranos; a falta de especialização e maturidade profissional por parte dos focas e profissionais mais novos; a redução de jornalistas nas redações, inclusive de figuras como os pauteiros, entre outros temas. É uma forma de tocar na ferida que se abriu e que poucos têm coragem de mencionar, a não ser em veículos especializados em imprensa e meios de comunicação.

A cada semestre são inúmeras as pessoas que buscam entrar no ensino superior a fim de continuarem os estudos ou mesmo conseguirem entrar mais facilmente no mercado de trabalho. Cursos como administração, inclusive comunicação social, tanto com habilitação em publicidade e propaganda quanto em jornalismo, acabam por ser alvo fácil para aqueles que ainda ‘não sabem o que querem da vida’. Dos que estão em dúvida, alguns poucos conseguem se ‘achar’ na profissão. Mas muitos são os que concluem o curso sem compreender o real objetivo do profissional. Julgam que apenas a parte técnica é a necessária para atuar na área e que o resto se aprende no dia-a-dia. É verdade, porém em parte.

O desejo de aparecer

Em diversas profissões – e aqui enfatizo o jornalismo –, centenas de profissionais atuam, seja com especializações, seja só com a graduação – ou ainda sem ela. O problema é que, em jornalismo, estão se tornando cada vez mais freqüentes erros na apuração dos fatos, divulgação de barrigas (notícias falsas ou com erros), publicação de inverdades ou mesmo distorção das informações. O que poderia apenas parecer erro banal de um jornalista é a morte cada vez próxima de um jornalismo sério e ético para com a sociedade. Mas qual a relação desta discussão com a questão do ‘enxugamento’ das redações e a demissão dos veteranos?

Quem faz jornalismo sabe que nas várias disciplinas teóricas – ainda existentes, mesmo sendo poucas – aprende-se que a profissão tem como objetivo maior informar a sociedade, agindo com a verdade e ética. No entanto, tal premissa tem sido cada vez mais esquecida, restando lugar para ela apenas nas gavetas e nos livros teóricos. Alguns estudantes, mesmo aqueles que têm em mente atuar no jornalismo, ainda entram na faculdade querendo tornar-se um profissional ‘tipo Fátima Bernardes’. Outros tantos têm como objetivo maior atuar nos telejornais. Algo que envolve, sobretudo, a fama, a luxúria, o desejo de aparecer na tela. E não só eles, já que, caso fosse o contrário, não existiriam milhares de pessoas se metendo em reality shows aos montes, inclusive jornalistas (exemplo disso pode ser observado na atual edição do Big Brother Brasil…).

O dinheiro investido na faculdade

As faculdades, por sua vez, estão priorizando a formação técnica em detrimento da formação teórico-crítico-humanística. Ora, para as empresas jornalísticas será muito mais fácil ‘adestrar’ um foca que não vai reclamar dos mandos e desmandos de um editor-chefe do que aquele que possa requerer os direitos éticos da profissão. Além disso, mesmo durante a graduação são muitos os estudantes que almejam estagiar nas grandes empresas de jornalismo. Muitas vezes se deixam ‘escravizar’, ficando além do horário ou mesmo fazendo trabalho que, em tese, somente um profissional regularmente diplomado e registrado poderia fazer. A ganância por poder fazer parte antes do tempo de um mundo o qual se fará integrante, definitivamente, ao final da graduação, enche a cabeça dos acadêmicos. Muitos são os que, diante da falta de um salário, trabalham até de graça. Se esquecem, contudo, que, depois de formados, muitas vezes não terão oportunidades concretas de trabalho, uma vez que as empresas estão pouco a pouco substituindo profissionais formados por estagiários, que são mão-de-obra bem mais barata e fácil de lidar.

É triste ver que alguns novos profissionais não estão ligando muito para o real, ou teórico, sentido de sua profissão: o de lutar pela informação, isenta – mesmo que utópica – para que a sociedade seja mais crítica e informada. Parece que o importante é ganhar novamente o dinheiro investido na faculdade, o que não é de todo descartado, porém não é tudo.

Criticidade e reflexão

Afinal, as pessoas nascem para fazer a diferença, lutar por ideais, ou será que atualmente é mais importante ganhar dinheiro e viver uma vida mais ou menos? Fugindo desses questionamentos, muitos usam o argumento de que têm muitas dívidas a pagar, que os salários são cada vez mais precários – o que é fato, inclusive mencionado por Garshagen em sua reportagem. Todavia, o que aparentemente parece é que o necessário na vida de um jornalista é aumentar a própria estima, aparecendo nos veículos, tendo holofotes sobre si. O problema é contagioso e popular: jornalista querendo ser notícia, quando, na verdade, quem deveria se esquecer da ‘fama’ e, sim, correr atrás da notícia, apurá-la e construí-la de forma diferente dos outros veículos é o próprio que dela se esquiva.

Informar, mostrar os lados envolvidos no fato, aprofundar a notícia e tentar resgatar a criticidade e reflexão da sociedade é o mínimo que os novos jornalistas, mais comprometidos com a ética profissional, poderiam fazer. O velho jornalismo agradece.

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Estudante de Jornalismo, Faculdade Estácio de Sá, Florianópolis, SC

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