Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > IMPRENSA & GEOPOLÍTICA

O jornalismo, os jornalistas e a União Européia

Por Pedro Celso Campos, de Sevilha (Espanha) em 27/11/2007 na edição 461

As 80 poltronas do Salão de Grau da Faculdade de Comunicação da Universidade de Sevilha (Espanha), no bairro Cartuja, estão parcialmente ocupadas por estudantes de Jornalismo. Na mesinha ao lado da mesa principal, instala-se a monitora da classe. Durante três semanas, entre outubro e novembro de 2007, os professores se sucederam, aula após aula (cada uma com cerca de duas horas). O tema é: ‘União Européia – Aspectos Básicos’. A matéria optativa vale dois créditos; portanto, faz quem quer.

Até aí, tudo bem. O detalhe é que a monitora que administra a classe não é da Faculdade de Comunicação. É do Centro de Documentação da Universidade de Sevilha (US) e os professores não têm experiência com lead, pirâmide invertida ou programação gráfica: eles são professores-doutores da Faculdade de Direito da US (que funciona em prédio histórico, no centro da cidade) e ensinam Direito Internacional.

O curso tem o objetivo de aprofundar os conhecimentos dos futuros jornalistas nessa engenharia da geopolítica que se chama União Européia, algo tão complicado e difícil como congregar interesses conflitantes de países, Estados, pessoas, organizações etc. no Parlamento de Bruxelas e, ainda por cima, respeitar a autonomia de cada um, além de manter um relacionamento regular com o resto do mundo e equilibrar o fluxo imigratório em uma região do globo onde o imigrante é necessário e dispensável ao mesmo tempo.

Nada mais burro que o especialista

Recentemente a representação diplomática da União Européia no Brasil criticou a ausência da imprensa brasileira na cobertura da reunião de cúpula de Lisboa que discutiu, em outubro de 2007, importantes alterações no Tratado da UE. Lembravam, na ocasião, que a Europa não é só Londres e Paris, enquanto os jornalistas brasileiros argumentaram que a imprensa européia também não percebe que o Brasil tem muito mais que carnaval, samba e futebol…

Este parágrafo aí em cima é só para explicar porque o Centro de Documentação da Universidade de Sevilha resolveu falar de União Européia para estudantes europeus de Jornalismo. E foi exatamente porque muito jornalista europeu revela, em seus artigos e comentários, um grave desconhecimento sobre a UE, segundo foi explicado na abertura do curso. A idéia é, mais ou menos, ‘matar no ninho’ – como se diz no Brasil – a ‘cobra do desconhecimento’. Afinal, o jornalista precisa saber um pouco de tudo, mas precisa saber um pouco mais de algumas coisas e o nível de prioridades será dado por diversos fatores, entre eles as características regionais, a cultura local, o contexto social etc. É bem isto que está contemplado na flexibilização curricular do ensino de jornalismo em nosso país desde 2002, facultando a adoção de currículos regionalizados. Também na Espanha está em andamento esse tipo de flexibilização para todos os cursos superiores, devendo vigorar a partir de 2008.

Atividades interdisciplinares como esta da Universidade de Sevilha, aproximando especialidades, certamente podem ser muito úteis na luta por cursos de jornalismo com mais qualidade e mais ‘oxigenados’, do ponto de vista do interesse do aluno pelas disciplinas curriculares. Já foi dito que não existe nada mais burro e obtuso do que o especialista, principalmente quando, ao se especializar, faz uma opção preferencial por não saber mais nada, bastando-se em si mesmo, na clausura da especialidade.

Existem várias Europas

Entretanto, quando as especialidades dialogam, então o conhecimento se enriquece e fica menos chato. Não sei se os professores de Direito das universidades públicas, no Brasil, poderiam dar um curso de aprofundamento sobre o Mercosul aos nossos estudantes de Jornalismo porque o Mercosul ainda não atingiu o nível de organização política e jurídica da União Européia, cujos estatutos originais remontam a meio século atrás, logo após a II Guerra Mundial, quando os líderes europeus concluíram que o melhor caminho era a união política e comercial dos países membros sobreviventes de duas grandes guerras. Quer dizer, a cultura européia finalmente conseguiu contrariar (até agora com pleno êxito) o provérbio, tão clássico quanto belicista Si vis pacem, para bellum (Se queres a paz, prepara a guerra).

Mas há muitos outros temas que mereceriam esse ‘olhar externo’ que joga luz onde há dúvidas e desconhecimento. Também no Brasil, muita gente comete graves erros pelo simples fato de achar que basta ter um espaço cativo na mídia para ‘deitar falação’ sem necessidade de se dar ao gesto humilde de aprender (e ‘reaprender’, como ensinava Paulo Freire).

A primeira palestra do curso, ‘La Unión Europea – Aspectos Básicos’, dia 25/10/07, foi ministrada pela professora Eulália Petit de Gabriel, titular de Direito Internacional da US. Para ela, ‘a União Européia é um processo em permanente construção’, mas advertiu que ‘a entidade jurídica a que se dá o nome de União Européia é apenas uma das caras da Europa após a II Guerra Mundial, pois existem várias Europas’.

A guerra cedeu à paz

Conhecido, também, como Tratado de Maastricht (cidade holandesa onde foi assinado em 1992), o Tratado da União Européia é peça fundamental no processo de união dos países do velho continente. Ele mudou e aperfeiçoou o Tratado de Paris de 1951, que criou a CECA (Comunidade Econômica do Carvão e do Aço), os Tratados de Roma de 1957, que constituem a CEE e a Euratom (Comunidade Européia da Energia Atômica) e ainda a Acta Única Européia, de 1986.

Maastricht é um tratado que ultrapassa o objetivo econômico inicial do acordo sobre aço e carvão proposto pela França em 1948 e assinado em 9/5/1950 por França, Alemanha, Itália, Países Baixos e Bélgica, numa iniciativa arquitetada pelo internacionalista francês Jean Monet que visava o controle comum desses minerais estratégicos para evitar novas guerras e estimular a cooperação em uma região destroçada pelo enfrentamento bélico. Maastricht abre caminho para a unidade política, oficializando o nome de União Européia em substituição a Comunidade Econômica Européia.

A união dos países europeus, segundo a professora, foi prevista pelo escritor Victor Hugo em 1849: ‘Chegará um dia em que a França se unirá com todos os países da Europa e, junto com os Estados Unidos, intercambiarão cultura e mercadorias’. Entretanto, desde os filósofos gregos já se imaginava a união de todas as monarquias do velho mundo.

O que a filosofia grega não podia imaginar é que o mundo não se restringia à própria Europa, África e Ásia. A descoberta da América levou os europeus a deixarem para mais tarde a idéia de união das monarquias. A colonização da América absorveu todos os esforços de cada país envolvido com o Novo Mundo, gerando disputas de grosso calibre. Mais tarde, as duas grandes guerras deixaram claro que não havia mais futuro para a Europa a não ser pela paz. Assim, em pouco mais de 50 anos, a disputa deu lugar ao diálogo, o enfrentamento transformou-se em cooperação, a guerra cedeu à paz…

Protecionismo agrícola

Hoje, no mundo globalizado, todos aqueles que estão em busca de um outro mundo possível, sem guerras, sem violência, sem armas, voltam-se para o exemplo da Europa e se perguntam: se o plano de Jean Monet, colocando em comum os minerais estratégicos, funcionou em 1950, levando antigos beligerantes à paz e à prosperidade, por que isto não pode ocorrer no resto do mundo, mesmo sabendo-se que hoje o aço e o carvão deram lugar ao petróleo e à energia nuclear? Se na atual Sociedade do Conhecimento a informação é o grande capital social da humanidade, por que e para que passar pela dura experiência da guerra para chegar à paz? Esta sim é uma pergunta que não pode calar…

Na construção jurídica da União Européia, o mais difícil, certamente, é fazer valer o interesse comum e, ao mesmo tempo, respeitar a autonomia soberana dos Estados membros. Por isto a professora Petit disse que se trata de um processo, porque o sistema sofre pressões todo o tempo e precisa se recriar permanentemente através da reforma dos tratados (daí, a importância da reunião de cúpula de Lisboa). Também não pode se fechar em si mesmo. Os países-membros, que eram apenas seis em 1950, foram incorporando novas adesões e hoje são 27 porque a expansão faz parte do processo, sendo considerada imprescindível.

De igual modo, no mundo globalizado todos têm muito claro que a Europa não é mais ‘o mundo’ da visão grega. É ‘parte do mundo’ e por isto os tratados também incluem ajudas humanitárias à África e demais países em desenvolvimento, do mesmo modo que a União Européia sofre pressão dos organismos internacionais, inclusive da Organização Mundial do Comércio, em cujo âmbito nações como o Brasil lutam contra as leis da UE que, por exemplo, sobretaxam os produtos dos países pobres para proteger a produção agrícola dos países europeus.

Pagar para não produzir

Chama-se PAC (Política Agrícola Comum) a sigla da União Européia que mais irrita os produtores da África, América Latina, Ásia e Austrália. A sobretaxa que os produtos externos pagam à aduana européia ajuda a abastecer o fundo comum destinado a regular a produção agrícola dos países membros. É uma engenharia complicada, tanto assim que a PAC é revista a cada três anos. Acusada por alguns de injusta e artificialista, a PAC já provocou excesso de determinados produtos em algumas regiões da Europa e escassez do mesmo produto em outras, do mesmo modo que em alguns anos foi acusada de financiar grandes proprietários de terra que recebiam para não plantar, em detrimento dos pequenos. Portanto, as críticas à Política Agrícola da UE são também internas, e não somente externas.

Atualmente está em vigor um sistema que financia parte da produção, mas também deverá ser revisto. Estão previstas profundas alterações para a revisão trienal programada para 2008, quando o sistema deverá ser simplificado, conforme explicou outra conferencista do curso, Teresa Garcia Azcárate, doutora em Engenharia Agrícola.

Outra crítica que a PAC recebe, segundo a conferencista, é do próprio setor industrial dos países-membros que não vêem razão para a União Européia investir tantos recursos na área agrícola que emprega apenas 3% da mão de obra economicamente ativa, ao invés de priorizar a pesquisa e a tecnologia, que fazem diferença na competitividade dos mercados.

Depois da Rodada uruguaia do GATT (sigla inglesa para Acordo Geral de Tarifas e Comércio), a PAC iniciou um processo gradativo de redução dos preços garantidos aos produtos agrícolas, mas passou a dar uma ajuda compensatória por área plantada, conforme o rendimento médio de cada região. Esse sistema está assegurado até 2013, mas, segundo Teresa Azcárate, prevê-se uma redução drástica nesse tipo de financiamento, que muitas vezes acaba pagando para o empresário rural não produzir, na tentativa de equilibrar oferta e demanda em toda a UE. A idéia é que esse controle da produção agrícola passe a ser feito pelo próprio mercado, naturalmente.

Revisão permanente de tratados

É próprio do gênero humano – portanto, da própria imprensa – interessar-se mais pelo ruído que pelo silêncio, pelo grandiloqüente que pelo simples, pela guerra que pela paz. Por isto, Bagdá é notícia diária – e aqui vale lembrar que também Bagdá, tanto quanto Londres ou a União Européia, pouco sabe do Brasil, o que é assunto para outro artigo – porque tem (e enquanto tiver) ‘imagem’, já reuniões de paz como a reunião de cúpula de Lisboa ressoam, falsamente, para a mídia, como ‘mais do mesmo’.

Entretanto, nem tudo é tão simples. Na verdade, o arcabouço jurídico que mantém a União Européia de pé faria Montesquieu se remexer no túmulo, no bom sentido, claro. O filósofo francês imaginou o Estado moderno funcionando em paz – com certo grau de entropia sistêmica – com base em três poderes independentes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Mas como introduzir um quarto poder soberano sem violar a soberania de cada nação?

A idéia inicial de Monet era genialmente simples: se a guerra depende do carvão e do aço para acontecer, se tivermos um controle comum sobre o carvão e o aço não teremos guerra. Mas era preciso ir além, introduzindo a variável política de Maastricht e é necessário seguir adiante porque hoje a União Européia é um aglomerado de meio bilhão de pessoas, com 23 idiomas oficiais, segunda potência econômica do planeta (embora ainda sem uma correspondente presença política no mundo) e é preciso conciliar os interesses de 27 nações, e não mais de seis países, como em 1950. Daí a importância da permanente revisão dos tratados e dos acordos, como se fez agora em Lisboa.

Não há direito horizontal

Para tratar do intrincado ‘Ordenamento Jurídico Comunitário e sua relação com o Direito Interno’, quem compareceu diante dos estudantes de Jornalismo, na palestra seguinte, foi o professor Rafael Zafra Espinosa de los Monteros, titular de Direito Internacional Público da US. Lembrando que em nenhum lugar do mundo existe ‘união de soberanias’, já que nos sistemas federativos os estados não têm autonomia, ele considerou a União Européia ‘um invento raro, do ponto de vista jurídico’, baseado em duas diretrizes principais: o Direito Comunitário Original (consubstanciado nos tratados originais de Roma e Paris) e o Direito Derivado (construído através dos tratados e acordos discutidos e firmados pelos países membros, como no caso da cúpula de Lisboa).

Vale dizer que nenhum tratado pode alterar a base jurídica inicial que regula a convivência e cooperação. Talvez resulte daí a relutância de França e Holanda em aprovarem a Constituição da União Européia – e enquanto todos os países não homologarem o texto, ele não poderá entrar em vigor, pois também esta é uma norma original de respeito à livre determinação.

O professor explicou como o sistema funciona: ‘O Direito Comunitário Institucional funciona através do Regramento e das Diretivas. O Regramento é o instrumento mais importante. Publicado, entra em vigor em trinta dias, gerando direitos e obrigações independentemente do Estado. Já a Diretiva depende da aprovação do Estado-membro para entrar em vigor. Surge o impasse quando o Estado demora a sancionar a Diretiva ou sequer o faz. Nesse caso, a Comissão Européia, órgão executivo da UE (motor da integração, guardiã dos direitos comunitários), pode acionar o Tribunal de Justiça, com sede em Luxemburgo, contra o Estado. Por outro lado, a Diretiva não gera direito horizontal, isto é, um particular não pode reclamar de outro particular o cumprimento de uma diretiva. O particular deve se dirigir diretamente ao Estado.’

O controle do euro

Quem explicou o funcionamento da União Européia na prática foi a professora Marycruz Arcos Vargas, com a palestra ‘As Instituições Comunitárias’. Segundo ela, nada na UE é feito às pressas. Todos os processos de aperfeiçoamento do sistema exigem longas e cautelosas consultas, segundo os princípios democráticos de participação e autodeterminação. Tanto assim que o Tratado da Reforma, um dos temas da cúpula de Lisboa, só entrará em vigor em 2014, incluindo a cláusula que fixará o prazo para a sua própria reforma.

O sistema de governo da UE inclui a Convenção (formada pelos representantes dos governos e dos parlamentos dos Estados-membros) e a Conferência Intergovernamental (reunião dos governantes). Entretanto, a Convenção tem mais poder. Convocada pelo Conselho da UE, a Conferência Intergovernamental se reúne a cada novo tratado (como neste último de Lisboa) para aprovar o Tratado de Aplicação, que faz as vezes de Constituição. Com Lisboa, a UE adquire personalidade jurídica. Entretanto, segundo a professora, mais que repartir poderes entre os Estados-membros, trata-se de repartir funções, pois ‘não queremos ser os Estados Unidos da Europa’.

O chamado Marco Institucional Único da UE é formado por cinco instituições: Parlamento Europeu (com 785 membros atualmente), Conselho de Ministros, Comissão Européia , Tribunal de Justiça e Tribunal de Contas, localizados em Bruxelas, Luxemburgo e Estrasburgo. Há ainda um grande número de agências que tratam dos mais variados temas. Destaca-se o Banco Central Europeu por seu papel de independência no controle da moeda única, o euro, introduzido há cinco anos.

O ‘guarda-chuva’ do monopólio

O professor de Teoria Econômica e Economia Política da US Luis Palma Martos falou sobre a política de competência (no sentido comercial, de competição) na União Européia. Para ele, esta é uma área delicada porque, naturalmente, as empresas não gostam de competição. Preferem os monopólios. Entretanto, embora a União deva admitir monopólios temporários em áreas da iniciativa privada envolvidas com a pesquisa e a tecnologia de ponta, é necessário também estimular a competição de preços em benefício do consumidor. Nisto consiste a Política Comercial Comum, setor estratégico para a sobrevivência da UE.

Por outro lado, planejar o futuro de um gigante econômico como o velho continente pode levar a equívocos e nem sempre as coisas saem como previsto. Até porque, como já vimos, a Europa apenas faz parte do mundo, ela não é o mundo, e, portanto precisa se relacionar com os mercados mundiais, o que implica o envolvimento político com as nações. Nesse delicado jogo de poder, muitas vezes é preciso abrir mão de alguns benefícios internos, como na questão do protecionismo, em favor da estabilidade e da presença internacional. Em 2000, o documento chamado ‘Estratégia de Lisboa’ previa, por exemplo, que em 2010 a Europa seria a maior potência econômica e cultural do mundo. Faltam apenas dois anos para se comprovar que não vai ser assim, pois são graves os desequilíbrios regionais, o problema do desemprego, os baixos salários, a desigualdade social, o endividamento geral etc.

Na opinião do professor Martos, a Europa é uma região do mundo onde alguns temas são inegociáveis quando se trata de escalar posições no comércio mundial. Uma dessas questões está relacionada aos salários. Pelo seu nível de mobilização, o trabalhador europeu jamais aceitará uma política de achatamento salarial (como ocorre na China) para reduzir o custo dos produtos na conquista de novos mercados. Na verdade, o que se vê é o contrário, como no caso da Política Agrícola que protege o produtor rural.

Para o professor, a saída, então, é investir em tecnologia, em inovação técnica, em pesquisa, para gerar produtos inovadores. Entretanto, esta é uma atividade de risco, que demanda enormes investimentos. Por isto, a União precisa administrar um adequado sistema de concessão de patentes que permita e assegure o desenvolvimento da pesquisa, embora se saiba que o maior problema do monopólio é a corrupção, uma vez que o empreendedor tende a eternizar esse ‘guarda-chuva’ do monopólio, passando a servir a si mesmo, e não à sociedade ou ao consumidor final. Para fazê-lo, não hesita em corromper e agir com deslealdade. Quanto ao funcionamento do mercado internacional, o que a Europa tem defendido é que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) regule a concorrência global, punindo, por exemplo, o trabalho infantil, o trabalho escravo, as empresas que impedem o trabalho das mulheres, dos índios etc. ou que não respeitam os direitos trabalhistas.

Imigração é tema difícil

Na palestra seguinte, a professora de Direito Comunitário Casilda Rueda Fernandez discutiu um dos calcanhares de Aquiles da União Européia, que é a imigração. Até o momento, não se chegou a um acordo que possa interessar a todos os países membros por igual. Por isto, continua em vigor o Tratado de Amsterdã, de 1999, por sinal pouco conhecido e, portanto, pouco utilizado. As boas intenções desse tratado, como a questão do asilo; a cooperação penal, jurídica e policial; o controle de fronteiras; as passarelas comunitárias… nunca foram plenamente aplicadas porque há divergências inconciliáveis no ordenamento jurídico das nações que integram a União. Nos casos mais complicados, incluindo o asilo político, recorre-se à Convenção de Genebra, de 1951.

Segundo a professora, em todos os tratados de reforma são aprovadas recomendações sobre a urgência do tema, mas até hoje não existe uma política comum. A União Européia tem uma obsessão justificada com a imigração ilegal e isto é mais significativo nas fronteiras externas, notadamente na península ibérica (Portugal e Espanha), segundo observou a professora, acrescentando que o problema da imigração é uma carga difícil de suportar devido ao conflito de legislações. A questão estava bem encaminhada no projeto da Constituição Européia, que introduzia a comunitarização da imigração, adotando normas de integração com direito a recurso junto ao Tribunal de Justiça. Entretanto, como o Tratado da Constituição foi substituído pelo Tratado de Lisboa, que deve entrar em vigor em 2008, a esperança é que se consiga, finalmente, implantar a Política Comum de Imigração. A professora adiantou que é um tema difícil, pois ‘os Estados têm muito receio de transferir suas competências na área a um organismo internacional como a União Européia’.

Noção holística de meio ambiente

‘Sem justiça e sem segurança, não há liberdade’, disse a palestrante seguinte, professora Elena Cano Bazaga, de Direito Internacional Privado da US, ao falar sobre ‘O Espaço de Liberdade, Segurança e Justiça’. Ela disse que, embora a passos lentos, a União Européia caminha para a criação de uma verdadeira comunidade regional onde as fronteiras entre os países serão quase imperceptíveis para o livre trânsito das pessoas e de modo que as leis tenham validade em toda a região. Por enquanto, todavia, o que tem avançado mais é a cooperação policial na repressão ao crime, especialmente contra o terrorismo, a lavagem de dinheiro e o tráfico de drogas e de mulheres.

O fracasso do Tratado da Constituição atrasou o processo de integração das normas de justiça, segurança e liberdade. Mas já foram dados passos significativos, como a agilização da tramitação dos processos internacionais, com a criação da Rede Judicial Européia. Notificações que antes demoravam seis a sete meses de um país para outro, agora são feitas em seis ou sete semanas. Isto agiliza o andamento do Direito Civil e do Direito Privado. Mas, na verticalidade do Direito Penal, em que se contrapõem o infrator e o Estado, há muita discrepância sobre competências legais.

Ao surgir, em 1972, a política ambiental da União Européia era ainda muito antropocêntrica, preocupando-se mais com as condições de vida do ser humano. Com as Diretivas seguintes, entretanto, evoluiu para a biosfera e o entorno natural, incorporando, corretamente, a noção holística de meio ambiente que não dissocia a parte e o todo. A explicação é do professor de Direito Administrativo José Sanches Sáez, que falou sobre ‘Política Meio-ambiental da União Européia’.

Independência legal

No momento, estão em vigor seis programas regulados pela Decisão 1.600/2002 da Comissão Européia e do Conselho de Ministros sobre Política Ambiental. Entre as principais preocupações, nesses programas, está a mudança climática, que poderá afetar gravemente a saúde humana com a proliferação de enfermidades endêmicas. O princípio normativo da política ambiental está baseado no desenvolvimento sustentável, que subjuga o interesse econômico à capacidade de sobrevivência da espécie, portanto em respeito às gerações futuras, como explicou José Sanches.

Para ele, nota-se uma preocupação, também, com o agravamento da crise energética, com o fim do carvão e do petróleo previstos para os próximos 30 anos, enquanto a aposta atual da União Européia é na energia nuclear. Há, ainda, o cenário mundial futuro que aponta para a China e a Índia como primeira e segunda potências mundiais respectivamente.

Segundo o professor, percebe-se uma acentuada conscientização ambiental entre os habitantes da Europa, mas também aqui tem sido difícil adotar medidas únicas para todos os países, uma vez que os Estados nacionais zelam muito pela independência legal na área do meio ambiente. Alguns têm legislação mais avançada, como a Alemanha, por exemplo. Na Espanha, foi aprovada em agosto último uma lei que proíbe investimentos imobiliários em áreas de interesse ambiental como regiões de praias e mesmo em áreas rurais.

A ‘eurogeração’ de jornalistas

A última palestra do curso foi proferida pelo jornalista Eduardo Sanches Garcez, coordenador do portal de notícias especializado em União Européia Café-Babel. Ele confirmou que a própria imprensa européia tem dificuldades para tratar da UE. Segundo ele, não existe ainda uma ‘imprensa européia’ porque os veículos ainda são muito nacionalistas. ‘Nunca há artigos de nível europeu sobre temas que interessam ao conjunto de países-membros’, explicou.

O jornalista entende que é necessário conhecer melhor a União Européia, ‘um organismo internacional que representa quase 500 milhões de habitantes e que, no entanto, tem um orçamento de apenas 1% do PIB europeu para realizar o importante papel de equilibrar e integrar a região, contando com cerca de 15 mil funcionários’. Em sua palestra, Eduardo lembrou, em termos comparativos, que nos EUA o orçamento da União corresponde a 19% do PIB, para uma população bem menor. Segundo ele, tais assuntos não são discutidos na imprensa de cada país e só há alguns anos está se firmando uma imprensa de viés europeu, porém ancorada na internet, em sítios especializados.

Ele também não viu, na imprensa, um debate de nível europeu sobre o fracassado projeto da Constituição Européia, comprovando-se, assim, que os interesses nacionalistas são priorizados, a ponto de não existir um jornal essencialmente europeu.

Por isto, o palestrante desafiou os estudantes de Jornalismo da Universidade de Sevilha (e de toda a Europa) a estudarem a fundo o significado da integração européia para fazerem um novo jornalismo ao saírem da faculdade, um jornalismo de aprofundamento, de apuração séria, para falar de União Européia a partir de uma perspectiva verdadeiramente européia, e não meramente nacionalista. ‘Há mais de 200 anos que o jornalismo vive de notícias oficiais e vocês são a primeira `eurogeração´ do jornalismo e têm a responsabilidade de fugir do comodismo do jornalismo oficialista, criando a opinião pública européia, promovendo a política comunitária. Vocês entendem o mundo de um modo que seus pais não entendem. Serão capazes de fazer as necessárias relações para compreenderem a Europa como um todo. Por que há fome no sul da Itália? Por que os preços são diferentes entre os Estados-membros? E os impostos? Por que alguns países se queixam que estão à margem do banquete, enquanto outros, como Turquia e Croácia, querem entrar? Como a Europa se relaciona com o mundo? Existe uma imagem da Europa Integrada no mundo? A Europa é um mundo integrado, por isto é preciso comparar e explicar sem nacionalismo exacerbado. Não podemos fazer um jornalismo que só trata sempre do mesmo, só dos problemas domésticos, só da alternância política que envolve os poderes de mando local e nacional. A política européia está no centro de nossos interesses, como cidadãos europeus. No entanto, a imprensa não reflete isso. Por exemplo, precisamos de um Exército em cada país ou de um Exército Europeu? Na verdade, para que a Europa precisa de um exército, se lutou tanto para chegar ao clima de paz? Não poderíamos ter um exército que tivesse a missão de prestar serviços humanitários, ao invés de fazer guerra? Será que um dia vamos eleger o presidente da Europa no lugar do presidente de cada país da Europa? Vamos eleger o Congresso Nacional da Europa, ao invés de parlamentos de cada Estado-membro? Tudo isto poderá vir a ser discutido pela nova geração de jornalistas, isto é, por vocês’, concluiu.

Quem compreende, informa melhor

O curso sobre aspectos básicos da União Européia foi encerrado pelo decano da Faculdade de Comunicação da Universidade de Sevilha, professor Francisco Sierra Caballero. Ele cumprimentou o Centro de Documentação da US pela organização do seminário destinado a aclarar a visão dos estudantes de Jornalismo sobre o tema. Também agradeceu pela oportuna contribuição interdisciplinar da Faculdade de Direito.

Concordando com a opinião do último palestrante, Sierra Caballero reconheceu que ainda não existe uma integração de fato. Para ele, as fronteiras estão muito presentes. No entanto, ‘toda fronteira é uma ferida, um lugar que nos recorda o que somos e o que podemos ser. O ideal é que as fronteiras sejam suprimidas e que a Europa possa tomar o caminho da África e da América Latina, como na metáfora de José Saramago, A Balsa de Pedra. Só há sentido em falar em União Européia se for uma união de todos com todos, abolindo fronteiras e valorizando os princípios de justiça e igualdade, acolhendo e respeitando a diversidade, muito ao contrário dos abusos coloniais. No sistema mundo, Bruxelas é parte do mundo e o mundo espera da Europa exemplos de justiça e humanidade, mas ainda não chegamos a uma sociedade mais justa e eqüitativa. O primeiro passo é tomar conhecimento da realidade a fundo, é estudar para compreender, pois quem compreende informa melhor’.

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Professor de Jornalismo na Unesp/Bauru, está em Sevilha (Espanha) para pós-doutorado em ‘Comunicação para o Desenvolvimento’

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