Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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DIRETóRIO ACADêMICO > IMPRENSA CATARINENSE

O segundo tempo já começou

Por Monitor de Mídia em 08/07/2008 na edição 493

Parece que passou rápido, mas não é impressão não: o ano está voando mesmo! Já estamos na segunda etapa de 2008, justamente a metade mais movimentada em termos de fatos e de trabalho para a mídia.

O segundo semestre reserva, ao menos, duas importantes coberturas jornalísticas: os Jogos Olímpicos de Pequim, em agosto, e as eleições municipais, que se estendem até o final de outubro. Em ambos os casos, são desafios para jornalistas e meios de comunicação, tanto pela dimensão dos fatos quanto por seus alcances junto ao público. No entanto, as dificuldades se diferenciam conforme o tamanho dos veículos e seus focos e abordagens. Em tese, a grande mídia tem mais condições de fazer uma cobertura melhor dos jogos na China porque pode dispor de recursos humanos, operacionais e financeiros. É um serviço caro, não é curto – só os jogos vão de 8 a 24 de agosto -, e é bem abrangente: são mais de 300 eventos esportivos reunidos em 34 modalidades esportivas distintas. Cobrir essas Olimpíadas não será fácil, e os deslizes poderão ser inevitáveis. Mesmo as empresas de comunicação mais bem preparadas podem se perder.

Possíveis erros arranham sim a credibilidade dos veículos, mas equívocos em outra cobertura podem ser piores. Se a grande mídia tem mais vantagem no acompanhamento dos Jogos Olímpicos de Pequim, os veículos menores tendem a cobrir melhor as eleições municipais deste ano. Isso porque estão mais próximos dos eleitores e dos candidatos, das demandas populares e das promessas, dos problemas das cidades. Os jornais locais, as pequenas emissoras de rádios e as televisões regionais podem dar conta deste que é serviço público, o de observar de perto a disputa por vagas no Executivo e no Legislativo. Neste caso, eventuais erros nas coberturas são mais comprometedores porque influenciam diretamente na vida dos eleitores. Os resultados das eleições podem afetar o cotidiano geral porque a condução das políticas públicas das cidades está intimamente ligada a quem vai ocupar as cadeiras nas prefeituras e nas câmaras municipais.

Diante dos desafios deste segundo semestre, o que resta então ao público? Informar-se bem, por um lado, e interferir positivamente nos processos, por outro. Acompanhar as coberturas dos Jogos Olímpicos e a movimentação dos palanques, votar bem e torcer muito.

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Jornais respeitam lei eleitoral

A campanha eleitoral começa oficialmente em 6 de julho segundo o calendário das eleições 2008, do Tribunal Superior Eleitoral Brasileiro (TSE). A lei eleitoral (nº 9504/97) define que são proibidas as propagandas e qualquer outra forma de promoção pessoal dos candidatos ao pleito nos meios de comunicação de massa – aqui incluídos televisão, rádio e impressos, dentro do prazo estabelecido (Art. 36. A propaganda eleitoral somente é permitida após o dia 5 de julho do ano da eleição). Mas a lei nem sempre é seguida à risca.

Recentemente, alguns casos ganharam repercussão ao se chocarem com o entendimento da Justiça. Isso aconteceu com os jornais Gazeta Regional e Gazeta de Pirajuí, com o blog do jornalista Pedro Doria que sofreu impedimento legal em promover uma candidatura e a Folha de S.Paulo. A Folha, por exemplo, sofreu processo do Ministério Público, devido à publicação de uma entrevista com a ex-prefeita de São Paulo e pré-candidata Marta Suplicy, que foi interpretada como propaganda eleitoral antecipada.

Mas e as publicações de Balneário Camboriú e Itajaí? O Monitor de Mídia debruçou-se sobre os cinco principais jornais – Diário do Litoral e Diário da Cidade (ambos de Itajaí), Página 3, Tribuna Catarinense e Jornal de Balneário Camboriú, da cidade vizinha, para analisar como os pré-candidatos apareceram nos jornais. Verificou-se se os pré-candidatos e a imprensa local infringiram, de alguma forma, a lei eleitoral, fazendo propaganda antes da definição dos nomes dos concorrentes.

Lei rege etapas das eleições

A análise desta edição compreende os jornais publicados entre 9 e 23 de junho. Neste período, segundo o calendário das eleições de 2008, são realizadas as convenções partidárias, ou seja, os partidos definem quais serão seus candidatos ao pleito municipal.

O conteúdo analisado tomou como base a totalidade dos jornais, exceto as editorias e colunas exclusivas de ‘Política’ – já que estas, naturalmente, apresentariam os movimentos partidários da época (sob o pressuposto de informar). A intenção do diagnóstico foi mostrar como a influência política se propaga pelas outras editorias, para angariar novos espaços e, assim, o público leitor. Ou seja, do aproveitamento dos veículos de comunicação para divulgação antecipada da imagem dos pré-candidatos, o que poderia influenciar no processo eleitoral.

Para Ronald Kuntz (1998), o candidato do mundo moderno deve valorizar os veículos de comunicação de massa para suas campanhas, pois:

À medida que aumenta a abrangência geográfica de sua campanha e a densidade populacional das comunidades a que deva dirigir-se, maiores serão suas necessidades de ter acesso aos meios de comunicação capazes de atingir um maior número de eleitores, uma vez que a tecnologia facultará ao candidato um dom que até o momento só a Deus pertencia: a onipresença. (p. 135)

Visto que os meios de comunicação de massa são instrumentos de propagação de idéias, propostas, entretenimento e informações em geral, seu público é amplo e diverso. Como explica Kuntz (idem): ‘por ser o jornalismo a área que mais interessa aos candidatos em campanha, uma vez que neles reside o principal sustentáculo desse veículo de comunicação (…) que é a credibilidade junto ao eleitorado’. Ou seja, uma matéria jornalística tem mais credibilidade com o leitor do que uma publicidade, já que a última tem a clara intenção de convencer, enquanto a primeira é normalmente encarada como um meio sério de esclarecimento. A imprensa também é um instrumento formador de opinião, já que o público se baseia nela para determinar suas posições e atitudes. Assim, o autor conclui: ‘como credibilidade é um cacife decisivo, o jornalismo se revela mais eficaz do que a propaganda política, pois apresenta maiores índices de aceitação ou assimilação’ (KUNTZ, 1998, p. 138).

Também é importante avaliar o motivo do candidato estar presente na publicação. Para Kuntz (idem), ‘um veículo de imprensa também fica impedido e usar seu espaço em prol de um candidato, se este não conseguir criar fatos de importância que mereçam ser noticiados, como de interesse público’. Aqui, vale ressaltar que figuras públicas atuantes podem aparecer, devido a sua proeminência. Já a menção de políticos não atuantes deve ser feita com cuidado, para não demonstrar simpatia do meio com o candidato – e não parecer propagandas implícitas.

O juiz auxiliar da propaganda da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Francisco Carlos Shintate, em decisão contra a Folha de S. Paulo, no caso Marta Suplicy, caracteriza a propaganda eleitoral antecipada na imprensa como:

(…) uma entrevista à imprensa, a partir de referências como qualidades pessoais, para influenciar os eleitores e angariar votos, mesmo que não haja menção direta ao cargo que se pretenda disputar. (…) entrevista concedida antes do período permitido para propaganda eleitoral ultrapassa o mero interesse jornalístico.

Ou seja, a imprensa deve informar e não julgar a atuação dos pré-candidatos, para que não seja caracterizado apoio. O controle jurídico é sim necessário, visto que muitas vezes pode ocorrer o abuso – caso fosse livre, por exemplo, o horário eleitoral e toda a poluição visual de candidatos poderiam infestar nosso cotidiano em todos os dias do ano. Kuntz (1998) detalha melhor as leis que regem as propagandas eleitorais:

O poder desses veículos obrigou os legisladores a disciplinar seu emprego com fins políticos eleitorais, baseando essa regulamentação no fato de que sua utilização indiscriminada seria capaz de distorcer até os resultados dos pleitos e a representatividade legítima e democrática, pois favorece nitidamente os candidatos mais privilegiados financeiramente, caracterizando o abuso do poder econômico. (p. 135)

Confira abaixo a relação dos periódicos analisados e a presença dos políticos em outras editoriais, além da política. Em alguns casos, foram transcritos trechos dos jornais (que foram interpretados como linguagem implícita), para que o próprio leitor do texto possa tirar suas conclusões.

Diarinho

O Diário do Litoral, mais conhecido como Diarinho, foi a publicação que acompanhou o maior número de pré-candidatos. A concentração de nomes citados ficou a cargo da Coluna do JC, na parte opinativa. Esta que, apesar de tratar de assuntos também ligados à política, foi considerada no diagnóstico por estar fora da editoria em questão e abordou outros temas que fogem da cobertura de cabinetes. Nela, a abordagem foi de acompanhamento aos movimentos políticos de coligações e especulações das possíveis candidaturas e fusões partidárias – de forma consideravelmente descritiva, o que implica ‘isenção’ por parte do jornal. O periódico não usou de opinião, somente publicou quem fez o quê, sem discutir resultados. Muitas vezes, as pessoas não foram identificadas em seus respectivos partidos. O colunista deixou de lado as siglas para mostrar os personagens políticos. Para os não habituados aos círculos políticos, foi difícil identificar as pessoas que o colunista tratou.

Outro aspecto negativo, para quem não conhece as figuras políticas da região, foi o uso de apelidos ou somente o sobrenome. Por exemplo: VM, Galo, Prefa, Piriquito, Chuck Norris, Leko e Koedermann – respectivamente são: Volnei Morastoni (prefeito de Itajaí, PT), Édson Olegário (prefeito de Camboriú, PSDB), Rubens Spernau (prefeito de Balneário Camboriú, PSDB), Edson Periquito Dias (PMDB), Ciro Roza (prefeito de Brusque, DEM), José Benvenutti (PT) e Dão Koedermann (PSDB). O jornal, que deveria deixar claro para o leitor quem é quem, apresentou nesta situação personagens o invés de pessoas. Isso dificulta na hora do leitor associar imagem com ações, para, posteriormente, julgar seu candidato.

Por ocuparem cargos públicos, Volnei Morastoni (PT), Rubens Spernau (PSDB), Ciro Roza (DEM) e Édson Olegário (PSDB) tiveram maior visibilidade, visto que promoviam ações administrativas em suas cidades.

Chamou atenção a matéria ‘Esperidião Amin será o candidato do PP em Floripa’, no dia 17/06, editorial ‘Geral’. A matéria de página inteira com foto destaque detalhou a convenção que confirmou a pré-candidatura do ex-prefeito de Florianópolis, ex-senador e ex-governador de Santa Catarina. O texto descreveu como ocorreu a votação, bem como publicou declarações de Amin com um tom de campanha: ‘Queremos mandar pra fora de Florianópolis métodos administrativos que aqui estão sendo experimentados pela primeira vez, como administrar negócios para si’, uma crítica implícita à atual administração da ilha.

Página 3

O Página 3 é uma publicação semanal da cidade de Balneário Camboriú. No período, foram analisadas três edições. O foco do jornal foi a cidade administrada pelo prefeito Rubens Spernau (PSDB) – nas duas primeiras edições analisadas, foi mostrada a ida e a cobertura do recebimento de um prêmio da cidade (‘Balneário recebeu prêmio em São Paulo’, na editoria Geral). O Página 3 também destacou a pré-candidatura de Esperidião Amin (PP), na coluna ‘Dedo na Moleira’, na edição de 14 a 21 de junho. Além disso, o periódico descreveu as convenções políticas com foco nos partidos e não nos pré-candidatos. Foram muitas siglas, em alguns casos não desdobrados, o que dificultou a interpretação. Como foi o caso da edição de 7 a 14 de junho, na coluna Canard, em que constou: ‘Surgem comentário na cidade que o frentão estaria sendo formado com PMDB, PPS, PDT, PP, PR, PDT e PV (…)’.

Chamou atenção a carta de Delia Pavan, na edição de 14 a 21 de junho, vereadora de Balneário Camboriú pelo PSDB. Ela, que também é irmã do vice-governador e ex-prefeito da cidade, Leonel Pavan, descreveu todo o processo de investimentos do governo em Balneário. Nas palavras dela: ‘São sucessivos os anúncios de investimentos do estado em obras e ações aqui realizadas, algo que em outros tempos poderíamos classificar em ‘impossível’ ou como um ‘milagre’. Isso se deve a consolidação da descentralização e sobretudo, a força da representatividade política que a cidade vem conquistando nas últimas eleições, fruto do trabalho e progresso de sucessivos governos que tornaram Balneário Camboriú o município mais (…)’. Mesmo sem citar nomes ou partidos, as referências feitas por Delia são claras. Por estar filiada ao mesmo partido da atual administração, por vínculos de parentesco com o vice-governador e a crítica implícita às outras gestões, o conteúdo da carta pode vir a ser interpretado como um apoio político ao partido que os políticos pertencem – PSDB.

Jornal de Balneário Camboriú

O Jornal de Balneário Camboriú é uma publicação local e a mais recente no mercado entre as analisadas, lançado no final de 2007. De forma geral, se comparado aos outros, o periódico foi o que menos trouxe assuntos políticos fora da editoria de política. Pela proeminência e pelo cargo de gestor da cidade, o prefeito Rubens Spernau (PSDB) foi citado em todas as três edições analisadas – na editoria ‘Cidade’, nas edições de 5 a 11, 12 a 18 e 19 a 25 de junho. Os demais pré-candidatos apareceram em colunas de opinião relacionados às convenções de forma descritiva.

O editorial da edição de 19 a 25 de junho destacou a importância da ética jornalística, principalmente nos períodos eleitorais, em que os periódicos sofrem maior pressão – assunto recorrente à análise: ‘(…) Cabe ao veículo separar publicidade e notícia. O bom jornalismo manda ter prudência, sem tender para nenhuma das dezenas de cores partidárias que se apresentarão em mais uma corrida eleitoral que começa a partir de agosto. O poder econômico tenta impor, muitas vezes avançando o sinal da ética e criando embaraços para quem busca criar a sua identidade própria e isenta (…)’. Interessante posicionamento, já que os veículos de comunicação exercem influência ao mostrar os passos dos políticos, influenciando assim a opinião pública – tanto de forma negativa, quanto positiva.

Diário da Cidade

O Diário da Cidade é uma publicação de Itajaí. No período analisado, o jornal deu pouco espaço aos pré-candidatos e políticos da região fora da editoria política. O mais citado foi o prefeito Volnei Morastoni (PT) e suas ações – tratado de forma descritiva. Como no caso de 12 de junho, na matéria ‘Prêmio Gestão Nota 10 vem para Itajaí’, na editoria ‘Região’. O Diário da Cidade deu um panorama dos principais candidatos da região em editorial do dia 13 de junho: ‘A lista que corre pela cidade entra Claudir Maciel (PPS) e agora se espantem o DEM. Não, não é o Ciro Roza que vem para vice do Piriquito, a bola da vez também não será o Bola. Parece que o todo poderoso do DEM, Ciro Roza, vai mandar de Sérgio Pereira (diretor do colégio Margirus). Já o PT de Balneário vem a chapa própria, como todo o partido no país. Por aqui, o vereador Fábio Flor já fechou com o PT’. Ou seja, no editorial tratou de forma pessoal os políticos – a parte onde que o jornal dá sua opinião sobre os fatos -, através de adjetivos como ‘poderoso’ e a expressão ‘bola da vez’.

Tribuna Catarinense

O Tribuna Catarinense é uma publicação semanal de Balneário Camboriú. No período analisado, a aparição de políticos não foi expressiva. Na edição de 7 a 13 de junho, na matéria ‘Novos Deputados tomam posse’ na editoria ‘Santa Catarina’, o Tribuna Catarinense relatou o afastamento de deputados e a tomada dos suplentes para as eleições de 2008. O texto chamou a atenção por não estar dentro da respectiva editoria política. As ações foram expostas de forma descritiva e sem mais detalhes. Além disso, os prefeitos da região estiveram presentes por sua proeminência e ações. Todos os demais assuntos relacionados à política ou políticos ficaram restritos à editoria de ‘Política’.

O que foi visto

Analisados todos os jornais, pôde-se observar que as publicações mostraram a política de forma descritiva. Isso cumpriu o papel de informar, sem influenciar diretamente o leitor. Alguns casos chamaram a atenção, porém não foram expressivos ao ponto de caracterizar propaganda política. Também não demonstraram irregularidades perante a lei eleitoral, que rege a propaganda política e a própria apresentação ao público dos aspirantes a cargos políticos.

Foi natural o aparecimento de pré-candidatos que ainda ocupam cargos públicos (como o prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni (PT)) e a referência a pessoas públicas (como foi o caso de Esperidião Amin (PP), que sua fama ultrapassa os gabinetes políticos). O fato do pouco aparecimento fora da editoria esperada mostra que os jornais organizam seu conteúdo, para melhor mostrar a informação.

A ausência da imagem política ou a não citação favorável à pessoal fora da editoria política é algo positivo, pois significa que o periódico sabe organizar seu conteúdo. Além disso, isso não significa censura, mas uma forma de mediação, pois, como explica KUNTZ (1998):

(…) a censura de determinadas notícias são até necessários e salutários para manter a boa imagem da organização, sempre que elas possam despertar reações de repúdio generalizado por parte do público, provocar situações de conflito social, racial ou moral (…) a imprensa adota a posição de eqüidistância, como simples mediadora entre correntes opostas (p. 159).

O Monitor de Mídia entendeu que nenhum jornal analisado infringiu a lei de propaganda política. Também concorda com o distanciamento dos jornais no sentido de apoio direto aos candidatos, visto que a informação deve ser passada de forma mais isenta o possível. Quando o político aparece, seja qual for o caso, sua imagem acaba sendo reforçada, como no ditado popular: ‘quem aparece sempre é lembrado’. Mas a questão é: será que o leitor, possível eleitor, vai lembrar dos fatos necessários e da índole do candidato na hora da eleição? Cabe aos meios de comunicação tratar deles de forma mais detalhada e parcial possível, dentro dos limites legais e do compromisso com o leitor.

Referência Bibliográfica

KUNTZ, Ronald A. Marketing político: manual de campanha eleitoral. São Paulo: Global Ed, 1986.

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www.univali.br/monitor

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