Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

DIRETóRIO ACADêMICO > JORNALISMO LITERÁRIO

Opiniões e divergências sobre um gênero

Por Christiano Britto em 22/12/2009 na edição 569

Imagine, nos dias de hoje, estudar as campanhas de Canudos sem o olhar crítico do correspondente de guerra Euclydes da Cunha. Seria desastroso para a história do país, pois afinal só haveria a predominância da versão oficial de época, que declarava existir um ‘foco monarquista’ liderado por Antônio Conselheiro no sertão baiano. Por desconfiar de suas fontes, Euclydes da Cunha acabou constatando uma realidade de miséria para o sertanejo, a qual o motivou a escrever Os Sertões. Foi com esta obra que ele não só realizou a denúncia social, mas também incursionou em uma vertente jornalística diferenciada, o jornalismo literário.

A respeito desse gênero, ainda não existe aceitação unânime entre os profissionais de imprensa. Para o jornalista e escritor Ruy Espinheira Filho, jornalismo e literatura são áreas distintas. ‘O jornalista é um informante, é um opinativo, um sujeito que interpreta os fatos, mas ele não cria nem pode ser criador e o que se espera dele é o máximo de fidelidade ao factual’, pontua. Espinheira Filho ainda enfatiza que literatura é uma arte, enquanto o jornalismo apenas se ocupa dos fatos. Em sua opinião, o crítico literário Alceu Amoroso Lima cometeu uma ‘mancada’ ao escrever Jornalismo como gênero literário porque não percebeu a diferença de objetivos de cada área.

Contudo as divergências sobre jornalismo literário não se restringem à questão de gênero ou de nomenclatura. No caso de jornalistas que já incorporaram a seu ofício diário os critérios de noticiabilidade, aprendidos durante a graduação, eles demonstram, em sua maioria, desinteresse pelo jornalismo literário e até o julgam fictício. E quem rebate essa concepção é o professor Edvaldo Pereira Lima, da Universidade de São Paulo que, em palestra na Faculdade 2 de Julho, no dia 1º de outubro, reiterou o caráter não fictício do jornalismo literário, pois este ‘não abandona os fatos’. Edvaldo Lima evocou o exemplo de Euclydes da Cunha que, interessado pela revolta de Canudos, decidiu ir a campo e se propôs a fazer um mergulho naquela realidade. Além disso, ele escapou da rotina de buscar fontes e garimpou personagens.

Nada a ver com jornal

De acordo com a jornalista e blogueira Tatiany Cavalcante, o jornalismo literário tem maior recepção entre o público que possui maior repertório de leitura. Na ausência deste requisito, os leitores comuns teriam dificuldades com a percepção do texto, dentre elas ‘entender uma metáfora, perceber questões lingüísticas, ler as entrelinhas do texto’. Pela ótica da jornalista Flávia Vasconcelos, repórter do blog À Queima-Roupa, existe resistência da maioria da mídia impressa em assimilar o jornalismo literário, porém ela atribui outras causas, tais como o preconceito de mesclar ciência e intelectualidade com sensibilidade e emoção e o pouco incentivo das faculdades nessa prática jornalística. ‘O ideal’, para Flávia, ‘é ser sensível ao fato, mas não inventá-lo, não fantasiá-lo. Isso é jornalismo literário.’

Em diálogo por telefone, o jornalista Carlos Amorim, atuando em revisão de texto desde 1989, não encoraja os estudantes de Jornalismo a investirem tempo e dinheiro com jornalismo literário na realidade local. ‘Os estudantes enveredam em pesquisa e informação acadêmica e isso não tem nada a ver com o dia-a-dia de jornal. A realidade é outra’, adverte. No entanto, a observação de Amorim poderia ter fundamento se os talentos locais resolvessem migrar de vez para outros estados e lá se firmarem profissionalmente. Movimento contrário realizou o jornalista e escritor baiano Hélio Pólvora, que atuou em vários periódicos da imprensa carioca há cerca de 30 anos. Ele mudou-se do Rio de Janeiro para a capital baiana em 1984. Desde então, escreve para um jornal de grande circulação da cidade, aproveitando sua bagagem literária no jornalismo local.

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Sugestão de leitura

** A sangue frio, de Truman Capote; Editora Cia das Letras, 2003.

** Super-homem vai ao supermercado, de Norman Mailer; Editora Cia das Letras, 2006.

** Jornalistas literários, de Sérgio Vilas Boas; Editora Summus, 2007.

** Os Sertões – edição comemorativa pelos 100 anos da 1.ª edição; Ateliê editorial, 2009.

** Jornalismo literário, de Felipe Pena; Editora Contexto, 2006.

** Provas de contato, de Raul Rivero; Editora Barcarolla, 2006.

** Jornalismo e literatura, de Alex Galeno e Gustavo de Castro; Editora Escrituras, 2003.

** Fama e anonimato, de Gay Talese; Editora Cia. das Letras, 2004.

** Páginas ampliadas, de Edvaldo Pereira Lima; Editora Manoel, 2008.

** A vida literária no Brasil, de Brito Broca; José Olympio Editora, 2005.

** Jornalismo como gênero literário, de Alceu Amoroso Lima

Na internet

** Academia Brasileira de Jornalismo Literário

** Blog Jornalismo Literário

** Blog À queima-roupa

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Estudante de Jornalismo, Faculdade 2 de Julho, Salvador, BA

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