Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém

Por Leandro Colling em 23/06/2009 na edição 543

No dia 1º de junho, os jornais A Tarde, O Globo, Estado de S. Paulo e
Gazeta do Povo publicaram um texto do jornalista e professor Carlos
Alberto Di Franco que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no
Brasil. Imediatamente, redigi e enviei para os mesmos jornais um texto para
rebater Di Franco. Apenas o Estadão publicou o texto, na sua página na
internet. A Gazeta informou que preferiu publicar um texto de Toni Reis,
presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e
Transexuais. Os demais nada informaram.


Ironicamente, Di Franco diz que se o Conselho Federal de Jornalismo tivesse
sido criado, ele ‘certamente’ não poderia publicar o seu artigo. Este caso
mostra, mais uma vez, que quem não pode publicar os seus artigos são aqueles que
contrariam os textos publicados nos jornais brasileiros. Por isso, resolvi
enviar o meu texto para este Observatório, depois de esperar 20 dias pela
sua publicação nos jornais.


Outra informação relevante é a de que Di Franco, como representante no Brasil
da Universidade de Navarra, presta ou prestou assessoria a vários jornais
brasileiros, inclusive para aqueles que publicaram seu texto claramente
homofóbico (ver http://www.consultoradifranco.com/index.php?page=carlos-alberto-di-franco).
A revista Época informa que ele já treinou mais de 200 editores
brasileiros. Talvez por isso não devamos estranhar a qualidade de nossos
periódicos na atualidade. Também fico a imaginar o que esse professor de ética
está ensinando aos seus alunos. Seria ele mais ético se assinasse seus textos
como representante da Opus Dei no Brasil. Mas como ele disse, em entrevista para
Época, isso não acrescentaria nada aos seus textos. Eis meu texto,
seguido do de Di Franco, o virgem celibatário que usa cilício duas horas por dia
(ver http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1106784-1664-9,00.html).


De quem é a intolerância?


O artigo publicado em vários jornais (A Tarde, O Globo,
Estado de S. Paulo e Gazeta do Povo – ler abaixo), no último dia
1º de junho, com o título ‘Totalitarismo e intolerância’, do jornalista e
professor Carlos Alberto Di Franco, é recheado de contradições e fruto de um
pensamento conservador, disciplinador (no pior sentido), totalitário e
intolerante.


O autor, para tentar persuadir o leitor, tenta ligar duas questões distintas
para reforçar o preconceito contra a comunidade LGBTT (lésbicas, gays,
bissexuais, travestis e transgêneros) e, de uma forma mais geral, contra a
discussão da sexualidade nas escolas. O texto poderia ser desconstruído de
várias maneiras, mas, em função do espaço, vou eleger apenas algumas.


Franco tenta sustentar o argumento de que estamos vivendo ‘uma onda de
intolerância’ porque ‘discriminados assumem a bandeira da discriminação’. Isso
porque o governo federal deseja que a temática LGBTT seja incluída nos livros
didáticos e que os professores sejam capacitados para combater a homofobia nas
escolas. O que é um avanço no combate à intolerância, capaz até de diminuir um
alto índice de suicídios entre os jovens, motivados pela homofobia no ambiente
escolar, Di Franco chama de ‘espasmo de totalitarismo’, pois o governo estaria
fazendo um ‘proselitismo de uma opção de vida’ e que a escola, via materiais
didáticos, não deveria ‘formatar a cabeça dos brasileiros’.


Orientação compulsória


Ora, em primeiro lugar, quem deseja formatar (ou manter formatada) a cabeça
das pessoas é Di Franco. Pregar o respeito à diversidade sexual não é um
‘proselitismo de opção de vida’, mas a defesa do respeito à diferença. E ser
LGBTT não é uma opção, pelo menos não no sentido de que é plenamente possível o
indivíduo optar por determinada orientação sexual ao seu bel prazer.


Todos nós, inclusive os heterossexuais, possuímos uma orientação sexual (que
pode ser também uma que transite entre as várias possíveis), adquirida ao longo
dos nossos processos de formação de nossas identidades, o que é realizado, em
boa medida, de forma inconsciente.


A sociedade impõe, exige, apenas uma orientação, ou seja, quer que todos
sigam a heterossexualidade, por isso ela mesma também não é uma opção, pois é
compulsória. No entanto, centenas de pessoas acabam por não se adequar nessa
heteronormatividade e sofrem sérias conseqüências. E é por causa delas que o
governo, muito tardiamente, começa a criar políticas públicas para combater o
preconceito.


Filiações ideológicas e religiosas


Di Franco diz que o governo deve combater os ‘abusos da homofobia’, mas ‘não
pode impor um modelo de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e
sequer está em sintonia com o sentir da imensa maioria da população’. Eu
gostaria de saber o que ele entende por abusos de homofobia. Pode discriminar,
desde que não mate? Esse seria o único abuso a ser combatido? O modelo de
família que temos no Brasil e no mundo também é uma imposição, construída por um
regime de poder que Di Franco representa muito bem. Regime esse que não consegue
conviver com o diferente.


Ironicamente, esse regime se revela também como uma construção cultural
exatamente nesses momentos, pois o texto de Di Franco mostra como a
heternormatividade precisa ser diariamente reforçada para continuar sendo a
norma preponderante, que tenta, a qualquer custo, aniquilar o diferente através
da coerção e da manutenção da hierarquia de uma norma sobre os outros.


Por fim, ainda é preciso tratar sobre o outro exemplo do texto de Di Franco,
a polêmica questão do livro, adotado pelo governo de São Paulo, que conteria
palavrões. Não conheço o livro, que realmente pode ser inadequado para a faixa
etária proposta. No entanto, até quando a escola continuará sem discutir
profundamente a sexualidade? Por mais que o poder conservador e disciplinador
tente o contrário, a sexualidade é tema recorrente nas conversas dos alunos e
alunas. Se o professor não fala, os estudantes falam, e muito, e inclusive
praticam, cada vez mais cedo e com mais intensidade. Tudo isso sem a devida
orientação, tanto para heterossexuais ou não. E assim vemos aumentar o índice de
doenças sexualmente transmissíveis entre os adolescentes. Ou Di Franco seria um
defensor do sexo somente depois do casamento e apenas com fins procriativos? Não
duvidaria nem um pouco dessas possibilidades, dadas as suas filiações
ideológicas e religiosas conhecidas (ser membro da Opus Dei, por exemplo),
novamente evidenciadas em um dos seus textos.


 


***


Carlos Alberto Di Franco


Totalitarismo e intolerância


Reproduzido do jornal O Estado de S. Paulo, 01/06/09


Dois episódios recentes, em Brasília e São Paulo, desnudam a visão
totalitária e a intolerância ideológica que dominam estratégias de longo alcance
na formação das novas gerações.


Comecemos por Brasília. O governo quer que sejam incluídos nos livros
didáticos a temática de famílias compostas por lésbicas, gays, travestis e
transexuais.


Ainda na área da educação, recomenda cursos de capacitação para evitar a
homofobia nas escolas e pesquisas sobre comportamento de professores e alunos em
relação ao tema. Essas são algumas das medidas que integram o Plano Nacional de
Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais,
travestis e transexuais), documento firmado por representantes de 18 ministérios
do governo Lula. ‘É um marco na busca da garantia dos direitos e cidadania’,
afirmou o secretários de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, durante o lançamento
do plano.


Vamos, caro leitor, a São Paulo. A Secretaria Estadual da Educação distribuiu
em escolas um livro com conteúdo sexual e palavrões, para ser usado como
material de apoio por alunos da terceira série do ensino fundamental (faixa
etária de 9 anos). O livro (‘Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol’) é
recheado com expressões como ‘chupa a rola’ e ‘chupava ela todinha’. São 11
histórias em quadrinhos, feitas por diferentes artistas, que abordam temas
relacionados a futebol – algumas usam também a conotação sexual.


Novos dogmas e tabus


O governo de São Paulo afirmou que houve ‘falha’ na escolha, pois o material
é ‘inadequado para alunos desta idade’. Ótimo. Reconhecer o erro é
importante.


Mas, aparentemente, o governo entende que o conteúdo seria adequado para
alunos de outra faixa etária.


Lamentável! É assim que se pretende melhorar a qualidade de ensino? São Paulo
que foi capaz de produzir uma USP assiste hoje à demissão do dever de educar. A
pedagogia do palavrão e a metodologia da obscenidade estão ocupando o lugar da
educação de qualidade.


Espero, sinceramente, que o episódio seja pontual e que o governador José
Serra, homem de sólida formação acadêmica, e seu secretário da Educação, o
ex-ministro Paulo Renato, tomem providências definitivas.


Na verdade, amigo leitor, uma onda de intolerância avança sobre a
sociedade.


Discriminados assumem a bandeira da discriminação. O tema da sexualidade
passou a gerar novos dogmas e novos tabus.


Absoluta liberdade


E os governos, num espasmo de totalitarismo, querem impor à sociedade um modo
único de pensar, de ver e de sentir.


Uma coisa é o combate à discriminação, urgente e necessário. Outra,
totalmente diferente, é o proselitismo de uma opção de vida. Não cabe ao
governo, com manuais, cartilhas e material didático, formatar a cabeça dos
brasileiros.


Tal estratégia tem nome: totalitarismo.


O governo deve impedir os abusos da homofobia, mas não pode impor um modelo
de família que não bate com as raízes culturais do Brasil e sequer está em
sintonia com o sentir da imensa maioria da população.


Se tivessem aprovado o Conselho Federal de Jornalismo, uma frustrada
tentativa de garrotear a liberdade de imprensa e de expressão, eu, certamente,
não publicaria este artigo. Não conseguiram.


Felizmente. Escrevo com absoluta liberdade. E outros, que de mim discordem,
podem defender seus pontos de vista com a mesma liberdade.


Virtudes e competências


A intolerância atual é uma nova ‘ideologia’, ou seja, uma cosmovisão – um
conjunto global de ideias fechado em si mesmo –, que pretende ser a ‘única
verdade’, racional, a única digna de ser levada em consideração na cultura, na
política, na legislação, na educação, etc. Tal como as políticas nascidas das
ideologias totalitárias, a atual intolerância execra – sem dar audiência ao
adversário nem manter respeito por ele – os pensamentos que divergem dos seus
‘dogmas’, e não hesita em mobilizar a ‘inquisição’ de certos setores, para
achincalhar – sem o menor respeito pelo diálogo – as ideias ou posições que se
opõem ao seu dogmatismo.


Aborrece-me a intolerância dos ‘tolerantes’.


Incomoda-me o dogmatismo das falanges autoritárias. Respeito a divergência e
convivo com o contraditório.


Sem problema. Mas não duvido que é na família, na família tradicional, mais
do que em qualquer outro quadro de convivência, o ‘lugar’ onde podem ser
cultivados os valores, as virtudes e as competências que constituem o melhor
fundamento da educação para a cidadania.

******

Jornalista, professor adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, da Universidade Federal da Bahia, onde coordena o grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS)

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