Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Os desafios da produção descentralizada

Por Elias Machado em 06/10/2009 na edição 558


1. A descentralização como um elemento paradigmático


Ao contrário do se que pensa, não é a primeira vez que o Jornalismo passa por um processo de produção descentralizada de informações. Durante pelo menos 300 anos, entre os séculos 17 e 19, antes da constituição dos jornalistas como uma categoria profissional, da consolidação das empresas jornalísticas e da formação de um público massivo de leitores, a publicação de informações na imprensa dependia quase totalmente da entrega de conteúdos pelos colaboradores. Somente depois da estruturação das redações, no século 19, do aparecimento do repórter e da criação de gêneros como a notícia e a reportagem, predominou no Jornalismo o modelo centralizado de produção de informações, controlado verticalmente por uma categoria especializada de profissionais, os jornalistas.


Ao longo do último século, este modelo centralizado de produção de informações centrado na mediação especializada de profissionais sofreu diversas alterações, condicionadas por mudanças estruturais na sociedade, cada vez mais complexa, pela democratização das relações entre jornalistas e fontes e, em particular, pela adoção de novas tecnologias como telégrafo, rádio, telefone, telefone celular e pela convergência de meios deflagrada pelo uso massificado das redes telemáticas. O primeiro movimento de descentralização da produção de informações, mais restrito do que o atual, ocorreu ainda no começo do século passado e esteve a cargo dos profissionais, que passaram a atuar na criação de assessorias de imprensa para governos durante a primeira e a segunda guerras mundiais e para as grandes corporações. Como principal resultado deste movimento identificamos, a um mesmo tempo, o aparecimento de um novo profissional na área de comunicação, o Relações Públicas, e a ampliação da área de atuação dos jornalistas para além das redações.


A atuação para além das redações, nas assessorias dos órgãos de governo, empresas privadas, movimentos sociais ou ONGs, ainda hoje provoca acirradas polêmicas e, em alguns países, como Portugal, é motivo suficiente para que o jornalista seja banido do exercício da profissão. Em outros, como no Brasil, vez por outra, se discute até que ponto o assessor de imprensa pode ou não ser considerado um jornalista, como voltou a acontecer agora durante a elaboração das Diretrizes Curriculares para os Cursos de Jornalismo. Na maioria das vezes, quem defende que seja considerado jornalista somente quem trabalha nas redações de empresas jornalísticas comete dois equívocos básicos: 1) não percebe que, ao longo do tempo, o perfil deste profissional sofreu várias mudanças e 2) que a atuação em outras organizações representa um efeito de adaptação às demandas de tratamento especializado de informações decorrente da descentralização da produção de informações.


A descentralização da produção de informações representa uma mudança paradigmática das sociedades contemporâneas que, cada vez mais, consolida-se entre nós porque revela diversas vantagens aos sistemas centralizados até então existentes. Em primeiro lugar, contribui para a democratização das vozes e a diversificação das fontes utilizadas pelos profissionais. Em segundo lugar, facilita o monitoramento dos diferentes setores, cada vez mais amplos, de uma sociedade complexa em permanente expansão. Em terceiro lugar, incorpora os representantes dos diversos setores envolvidos com os fatos publicados, nos processos jornalísticos de produção de informações, aumentando o controle da sociedade sobre as ações desenvolvidas pelos jornalistas.


2. Os perigos da descentralização da produção


Se por um lado, identificamos a descentralização da produção de informações jornalísticas como uma mudança paradigmática na produção de informações, que apresenta inúmeras vantagens em relação aos modelos mais centralizados, como vimos acima, por outro, como este processo implica em riscos para a qualidade final do produto jornalístico, faz-se necessária uma discussão mais sistemática sobre os perigos de que este fenômeno social seja interpretado de forma superficial. Em primeiro lugar, deveria ficar claro que a descentralização da produção de informações não significa que, a partir de agora, todos serão jornalistas, independentemente das competências conceituais, técnicas e deontológicas que cada um possua. Na verdade, a produção descentralizada em vez de suprimir exige uma crescente mediação especializada das informações produzidas. Não é por outro motivo que, cada vez mais, os jornalistas estão por toda parte, nas assessorias dos órgãos públicos, de jogadores de futebol, de artistas, das empresas, das ONGs, dos organismos multilaterais como Banco Mundial ou FMI, do Pentágono, do Exército e do MST, para citar apenas alguns exemplos, e não apenas nas redações das organizações jornalísticas, como defendido por alguns teóricos ou profissionais mais ortodoxos.


Em vez de suprimir a exigência da mediação dos profissionais, a descentralização da produção de informações, impõe uma maior complexidade do processo, estabelecendo a necessidade de novas relações entre profissionais e fontes, com qualquer cidadão sendo agora uma fonte potencial, e entre profissionais, com os próprios jornalistas que atuam nas assessorias assumindo a condição de fontes para seus colegas. Mais que transformar todo cidadão em um jornalista profissional, a descentralização da produção de informações amplia as funções tanto das fontes, quanto dos próprios profissionais.


Se antes apenas uma pequena parte do público (as fontes profissionais) contribuía na produção dos conteúdos, agora existe a possibilidade concreta de incorporação de todos às diversas etapas do processo de produção de informações. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, o próprio jornalista inclui como uma das suas funções a de fonte. E, em alguns casos, como no brasileiro, esta função desborda as demais, com a maioria dos profissionais trabalhando fora das redações convencionais das empresas jornalísticas.


Em segundo lugar, deveria ficar claro que as mudanças no processo de produção impõem uma rediscussão dos pressupostos teóricos, técnicos e deontológicos da profissão. Evidentemente, se as relações entre jornalistas, fontes e membros do público são diferentes e, atualmente, muitas funções antes desempenhadas apenas pelos profissionais são compartilhadas pelas fontes e outras antes exclusivas das fontes são executadas pelos profissionais, existe a necessidade de identificar as particularidades da prática profissional neste novo contexto.


Mais do que sustentar uma posição, simplista, normativa e categórica do tipo: assessoria não é jornalismo ou todos são jornalistas, como muitas vezes, ocorre, caberia aqui o esforço conjunto dos acadêmicos, profissionais e da própria sociedade, para definir e regulamentar a prática profissional do Jornalismo de acordo com as competências necessárias e em consonância com as demandas sociais pela democratização do processo de produção de informações e com o Jornalismo existente nas sociedades contemporâneas.


3. A descentralização exige novas competências profissionais


Ao implicar formas diferentes de relações entre profissionais e fontes (todos os cidadãos são fontes em potencial) e entre profissionais e profissionais (os profissionais assumem a condição de fontes), a descentralização do processo de produção de informações, que decorre de mudanças estruturais na sociedade, da demanda pela democratização da comunicação e do uso das novas tecnologias, exige um novo perfil de profissional que seja capaz de aproveitar as vantagens da realidade emergente, minimizando ao máximo os riscos decorrentes da incorporação de leigos nas diversas etapas de produção de informações jornalísticas.


Como nas sociedades contemporâneas, a prática do Jornalismo, ainda que inconscientemente, em alguma medida pressupõe a utilização de bases de dados complexas para apurar, produzir, compartilhar, consumir, circular e vender informações em ambientes de múltiplas plataformas, o jornalista profissional hoje deve ter condições para apurar, produzir, compartilhar, consumir, circular, vender informações utilizando as novas tecnologias da comunicação. E, mais importante, conceber e gerenciar processos e produtos inovadores, adaptados às novas demandas sociais.


Ao longo dos últimos dez anos os jornalistas profissionais brasileiros vêm apresentando alguns exemplos de práticas inovadoras muito adaptadas à realidade de uma sociedade ancorada na produção descentralizada de informações, paradoxalmente, muitas vezes, subaproveitados na atual cobertura jornalística, centrada nos velhos paradigmas implantados no período de plena verticalização da produção. Atualmente órgãos públicos como Presidência da República, Supremo Tribunal Federal, Câmara dos Deputados, Senado Federal, Embrapa, SENAC, Petrobras, ONGs como Contas Abertas, Transparência, ANDI, movimentos sociais como MST e UDR, igrejas como a Católica, a Universal ou a Assembléia de Deus, todos possuem páginas estruturadas em complexas bases de dados, com diversos produtos, serviços e mecanismos que possibilitam acesso às informações produzidas por estas organizações e a interação com as suas assessorias de imprensa e com seus diretores e responsáveis.


Além das organizações, a disseminação das chamadas redes sociais com o aparecimento de plataformas como blogues, twitter, Orkut, Facebook, Flicker, entre muitas outras, abriu espaço para que cada pessoa, independentemente de sua posição social, transforme-se em uma fonte potencial de informações, ao poder publicar livremente suas idéias, opiniões e testemunhos sobre fatos que presencia, vivencia ou acompanha através da cobertura da própria imprensa.


Hoje, desde jogadores de futebol, treinadores, deputados, governadores, artistas de televisão, cantores, empresários, pesquisadores universitários, advogados, engenheiros, arquitetos, professores, policiais, enfim qualquer pessoa pode disponibilizar informações em pequena ou grande escala para todos, fazendo com que o problema dos profissionais do Jornalismo não seja a escassez, mas sim a filtragem do excesso de informações em circulação.


Algum exemplo de como a cobertura que poderia mudar segue atrelado aos velhos paradigmas. No caso do Congresso Nacional a cobertura segue refém das intrigas políticas e das denúncias de corrupção, quando poderia ser mais centrada no acompanhamento de projetos em tramitação. Na maior parte das vezes, sabe-se pela imprensa que projetos importantes serão votados quando entram na reta final de aprovação em plenário. A ampla cobertura diária dada dos trabalhos das comissões pelos órgãos das assessorias do Congresso Nacional como TV Câmara e TV Senado, torna, muitas vezes, patética, superficial e dispensável a cobertura superficial feita pela chamada grande imprensa. Veja-se o caso da recente tramitação do acordo Brasil – Santa Sé, que praticamente não mereceu uma cobertura que a importância do tema merecia por parte da imprensa e que foi transmitido em detalhes pelas duas emissoras.


Um segundo caso: a cobertura do julgamento do ex-ministro Antonio Palocci pelo Supremo Tribunal Federal. Praticamente toda a imprensa somente noticiou que o ex-ministro seria julgado na antevéspera do dia do julgamento. Tratava-se de um julgamento controvertido e que, certamente, teve um rico processo de bastidores. Embora o sistema de alerta do STF possibilite que qualquer jornalista acompanhe o passo a passo de todos os processos em andamento na Corte, a falta de utilização destes recursos mantém a cobertura feita pela imprensa atrelada a velhos modelos, incompatíveis com a existência de sistemas descentralizados de produção de informações. Em casos como estes, dependendo do grau de abertura das assessorias, qualquer cidadão pode se cadastrar nos órgãos e obter informações sobre processos que a imprensa deixa em segundo plano ou sequer divulga os seus trâmites.


Um terceiro caso: Blogue da Petrobras. Uma boa parte da imprensa, que antes detinha o poder de publicação em um processo centralizado de produção de informações, revela que ainda apresenta dificuldades para aceitar as mudanças de relações e funções existentes em um ambiente descentralizado de produções de informações. Na verdade, neste novo contexto, a Petrobras, como qualquer outra fonte, pode se comunicar diretamente com seus clientes, acionistas e inclusive com a própria imprensa. E, mais importante, a empresa pode contestar as informações que considera incompletas, mal interpretadas ou equivocadas publicadas pela imprensa. Evidentemente, pela importância que a empresa tem, o Blogue da Petrobras pode vir a atrair mais interessados que o portal de um jornal regional ou local e abalar a credibilidade das organizações jornalísticas convencionais. Não é que as empresas jornalísticas perderão a sua função, mas não se pode negar que a função delas está sendo radicalmente alterada nas últimas décadas.


Um quarto caso: o Blogue do Planalto. A assessoria de Comunicação do Planalto anunciou com estardalhaço o lançamento do Blogue do Planalto. Contra todas as expectativas dos ativistas, o Blogue do Planalto se revelou um mecanismo de produção verticalizada de informações, elaborado por uma equipe de profissionais, sem sequer possibilitar a inclusão de comentários, ao final das informações publicadas. Como reação imediata apareceu um clone do Blogue do Planalto, que prevê uma série de possibilidades de interação com os leitores e que explora melhor as potencialidades de compartilhamento de relações em um ambiente descentralizado de produção.


Um quinto caso: os anúncios pelo twitter da demissão do treinador Wanderley Luxemburgo, da contratação de Muricy Ramalho pelo Palmeiras e da renuncia da liderança do PT no Senado pelo senador Aloizio Mercadante. Nas três situações, a imprensa acabou furada pelas fontes e o que é pior, ao ser furada, a imprensa aceitou como verdadeiras informações difundidas pelas próprias fontes, sem cumprir com a sua função social de apurar as informações antes de divulgar, garantindo a veracidade das informações publicadas. Confundiu-se aqui informação interessada, divulgada pelas fontes, com informação jornalística, necessariamente contrastada, publicada com interesse jornalístico.


Nos primeiros casos, menos mal que as informações postadas pelo próprio Luxemburgo e pelo presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, estavam corretas. Mas, ao não ser contrastada, pouco se soube do porquê da demissão do treinador ou porquê houve tanto atraso na contratação de Muricy Ramalho pela Palmeiras. Para piorar, no último dos três episódios, publicaram-se informações erradas porque a imprensa tomou como informação jornalística uma simples declaração de uma parte interessada no fato: o próprio Mercadante. Em vez de apurar a possibilidade de renuncia, que dependia como o próprio Mercadante anunciara, de um encontro com o presidente Lula, a imprensa simplesmente reproduziu a informação postada no twitter pelo senador. E o que é pior, no outro dia, quando Mercadante voltou atrás, a imprensa queria culpar ao senador pela sua falha na cobertura. Ora, se alguém falhou aqui foi a imprensa, uma vez que deixou de cumprir com a sua função, aceitando como fato dado, o que não passava de uma declaração de uma fonte interessada e que, como comumente ocorre em política, poderia possivelmente estar divulgando a informação como forma de barganha quando da reunião com o presidente Lula e com o presidente do PT, Ricardo Berzoini.


Comentários finais


Ao final deste texto considero que alguns pontos são fundamentais para se compreender a complexidade do processo de mudanças porque passa a produção de informações na contemporaneidade:


** A democratização das relações de poder e das práticas de comunicação, as mudanças estruturais na sociedade e a incorporação das novas tecnologias de comunicação em decorrência da digitalização em andamento estão provocando uma descentralização generalizada no processo de produção de informações;


** Em vez de desaparecer com a descentralização da produção de informações, o jornalista assume novas funções e estabelece relações diferentes com as fontes e com os próprios colegas de profissão, agora disseminados nos mais diversos setores sociais e não apenas nas redações das organizações jornalísticas;


** Para atuar nesta realidade emergente em expansão o jornalista necessita estar preparado para conceber projetos e processos inovadores e apurar, produzir, compartilhar, publicar, circular e formular modelos de financiamento de informações ancorados em projetos estruturados a partir de bases de dados complexas;


** As novas relações existentes entre profissionais e fontes e entre profissionais exige a rediscussão das particularidades da prática jornalística, adequando os processos de produção, as técnicas utilizadas e as normas éticas existentes às especificidades das sociedades contemporâneas;


** A mudança nos processos de produção de informações jornalísticas decorrentes das alterações profundas porque passam as sociedades contemporâneas recomenda que seja feita uma completa reformulação dos cursos de Jornalismo, com uma formação cada vez mais voltada para a concepção e gestão de processos e produtos jornalísticos produzidos em ambientes colaborativos e extremamente complexos.

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Jornalista, doutor em Jornalismo e Pesquisador do CNPq no Laboratório de Pesquisas Aplicadas em Jornalismo Digital (LapJor), na Universidade Federal de Santa Catarina

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