Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Para os mentores da reforma universitária

Por José Maria Alves da Silva  em 13/04/2004 na edição 272

Mais de trinta anos como observador da vida nos campi universitários, na condição de aluno, professor e, mais recentemente, pai de aluno, me permitem afirmar, com absoluta
convicção, que a Universidade pública brasileira está vivendo mais de glórias passadas do que de méritos presentes ou de esperanças futuras.

Freqüentemente se ouve falar que as instituições públicas constituem o núcleo de ‘excelência’ do ensino superior brasileiro. Essa falsa idéia decorre simplesmente de um
histórico de superioridade destas em relação às faculdades particulares.

De fato, a suposta excelência do sistema público não resiste a comparações com o que ocorre em países mais desenvolvidos. Ele é muito desigual e, na média, está muito aquém do que seria necessário para qualquer país que tivesse maiores ambições desenvolvimentistas, para conforto das forças retrógradas e colonizadas que têm definido os contornos da ‘democracia’ brasileira nos últimos vinte anos.

Para estas, tudo o que potencialmente pode contribuir para a formação de consciência nacional, não passa de ameaça a ser eliminada. É por isso que, enquanto chamam a Universidade pública de excelência ou lhe acusam de elitismo, privam-na de recursos e lhe cerceiam cada vez mais sua já escassa autonomia.

Resultados de pesquisa recentemente publicados na Folha de S.Paulo concluíram que a participação de professores com dedicação exclusiva ao ensino superior é muito maior no
segmento público do que no privado.

Entretanto, essa conclusão é enganosa porque considera como dedicação exclusiva a ‘ausência de qualquer outro vínculo empregatício formal’.

Na verdade, a dedicação exclusiva às atividades acadêmicas strictu sensu está desaparecendo a olhos vistos nos campi federais, com a conivência dos reitores, cada vez mais preocupados em agir de acordo com os interesses de seus eleitores, e do MEC, que tem se empenhado mais em fazer avaliações indiretas do que supervisões diretas.

Metas e prazos

Cada vez mais os professores estão sendo compelidos pelos exíguos salários a direcionar seu tempo útil para atividades de baixo conteúdo acadêmico e outras que também não podem ser consideradas como de benefício público; muitas não passam de comércio disfarçado de serviços (venda de assessorias, consultorias, cursos pagos de curta duração, etc).

Cada vez mais se procura suplementar vencimentos utilizando o espaço público para negócios particulares, tirando-se partido da existência de um ainda amplo mercado para
as ‘competências’ da Universidade pública, assegurado pelo ‘mito da excelência’.

Mas, quanto mais essas competências se colocam a serviço das empresas privadas, quer seja, na forma de assessorias, consultorias ou na prática do ‘lobby’ tecnológico, menos
pública ela se torna; mais se afasta de quem deveria defender e mais se alia aos poderes que deveria contrabalançar, distanciando-se de sua vocação política e deixando-se dominar
pela cultura patrimonialista que deveria combater.

Também a vocação científica está seriamente ameaçada pela crescente perda de autonomia financeira, razão pela qual pesquisa-se cada vez mais o que as agências financiadoras querem que seja pesquisado, e não o que ‘o faro’ do cientista indica ser linha promissora de investigação.

Trabalha-se em pesquisa e pós-graduação cada vez mais em função de metas, prazos e indicadores quantitativos, como número de doutores, quantidade de publicações e teses
defendidas, entre outros estipulados por estas agências, dos quais dependerão o aporte de recursos para as coordenações de cursos e bolsas de estudantes, e com base nos quais as
Universidades serão avaliadas e hierarquizadas.

Evasão de recursos

Muitos destes indicadores são usados para reforçar a imagem de excelência, quando, de fato, refletem apenas uma produtividade cada vez mais estéril.

Por essas e outras, o ambiente é cada vez mais desestimulante e injusto para os professores de maior vocação acadêmica, que, heroicamente, ainda estão se dedicando exclusivamente à prática de ensino e pesquisa independentes, à orientação efetiva de estudantes, à produção de materiais didáticos etc.

Para continuar honrando a Universidade pública, estes deverão fazer o voto de pobreza, caso contrário terão de optar entre ‘cair na farra’ ou ir embora.

Como há limites para a abnegação, se nada for feito para mudar essa situação, o processo de evasão de recursos humanos tenderá a se intensificar até que a imagem de excelência se
desvaneça por completo.

Assim caminha a Universidade pública brasileira. Cabe aos mentores da reforma universitária a incumbência de tentar retirá-la dessa trajetória fatal.

******

Doutor em economia e professor da Universidade Federal de Viçosa

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