Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > INFORMAÇÃO & SUBMISSÃO

Para onde vamos?

Por Ivo Lucchesi em 13/11/2007 na edição 459

Algo na mídia brasileira muito me gera incômodos. O principal aspecto diz respeito à irritante submissão à qual se entregam os meios de comunicação de massa a situações que, no mínimo, mereceriam alguma suspeita. Nas duas últimas semanas, não faltaram ilustrações para contrariar consciências à espera de uma atuação da mídia numa angulação mais crítica, questionadora, ou, na pior das hipóteses, ao menos desconfiada.

A população brasileira ficou exposta à celebração do fato de o Brasil ser o país-sede da Copa de 2014. Paralelamente, a monotonia da discussão em torno da permanência da CPMF e, por fim, no auge do prenúncio de uma crise de abastecimento energético, a descoberta (?) de amplo lençol petrolífero, exatamente no dia em que a mídia alardeava o fato consumado quanto à elevação, entre 10 e 25%, nas taxas de fornecimento de gás.

A questão de fundo – e que espanta – é o fato do quanto as políticas de investimento em geração de riquezas foram negligenciadas, ao longo da história brasileira. Será que a Petrobras (na época em que tinha acento, ou depois que o retiraram) não sabia que a costa atlântica, entre a Paraíba e Santa Catarina, é uma oferta dadivosa que a natureza armazenou para a emancipação de uma nação? O que investiram, nessa estratégia emancipatória, os governos Sarney, Collor, os dois mandatos de FHC e o primeiro mandato do governo Lula, sem computar os sucessivos governos militares?

Vazamento de informação

A lástima, antes de bradarmos com euforia a recente descoberta, é a constatação de nosso atraso e do quanto perdemos em aceleração do progresso e do desenvolvimento, em razão do descaso para investimentos em prospecções. Para se ter idéia de nossa indigência, o que os EUA e o Canadá prospectam, por ano, é duas vezes maior do que a Petrobras prospectou ao longo de meio século.

Infelizmente, a Petrobras tem, em seu horizonte, um cenário para tímida celebração. A riqueza que a natureza deixou nas águas profundas do Brasil se tornará disponível, ao longo da próxima década, numa situação em que a tecnologia avançada já direciona seu foco para outras alternativas de geração energética. Já é sabido que a demanda de energia, em futuro próximo, terá de vir de fontes renováveis. Assim, o que se avizinha, e a mídia brasileira deixou à margem, é a reedição de passagens históricas já sabidas: as economias autônomas serão contempladas por fontes energéticas de outro patamar, ficando as economias emergentes (ou ‘dependentes’, ou ‘em desenvolvimento’) com a reserva do ‘ouro negro’. O Brasil, portanto, terá, no futuro, uma ‘moeda de troca’ para repassar a economias com limitadas possibilidades econômicas de saldarem seus endividamentos.

A Folha de S. Paulo (10/11/2007) ainda chamou a atenção para a possibilidade de ter havido vazamento de informação para favorecimento de grupos investidores em ações da Petrobras. Contudo, a matéria foi tímida e deslocada para caderno interno. O fato é grave. A matéria da Folha dá conta de que o presidente tinha informações preliminares quando de sua viagem, com governadores, para Zurique. Afirma a matéria: ‘Os assessores do presidente destacaram ainda que desde 2005 já se sabia da existência do poço de Tupi e que a Petrobras vinha pesquisando o potencial de exploração de petróleo no local.’ Adiante, a matéria revela: ‘O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), disse ontem [9/11/2007] que foi comunicado pelo presidente Lula sobre a descoberta dois dias antes do anúncio feito pelo governo – isto é, na última terça-feira [6/11/2007].’

‘Força eleitoral?’

A questão a envolver o comentário ‘ufanista’ do presidente a governadores é grave. Que repercussões podem ter ocorrido no repasse do comentário de governadores a investidores na bolsa? Quantos grupos, portadores de informações privilegiadas, terão multiplicado seus ganhos em função de ‘relatos confidenciais’ que partem da Presidência da República e repercutem por meio de governadores? Não se trata aqui de lançar, levianamente, acusações sobre quem quer que seja. Apenas, há o fato de que confabulações indevidas podem acarretar conseqüências eticamente suspeitas.

Seja qual for a linha de investigação, uma coisa fica clara: o governo, diante do fantasmagórico espectro de uma crise energética, liberou uma informação que a própria Petrobras julgava mais prudente divulgar a partir de janeiro de 2008. Mais grave ainda é saber-se que a ‘nova quimera’ requer, pela defasagem tecnológica, um prazo de cinco a sete anos, para iniciar a exploração comercial de uma dádiva que a natureza, há milhões de anos, para nós destinara. Esse é o fato a lamentar. No mais, fica, para a esfera pública, qual é a possibilidade de ‘força eleitoral’ que, em 2010, possa ter a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff? Bem, doravante, essa é uma questão delicada. Entre as cartas ocultas no baralho do governo, consta o valete, Ciro Gomes. O impasse me reaviva a memória para o contexto das eleições de 2002. Por antevisão, ou por deformação ótica, meu candidato, em 2002, era justamente Ciro Gomes, por considerar que, pelo discurso e pelo programa, era o que mais se opunha ao modelo consagrado pelos oitos anos da gestão FHC. Não sei se atualmente o olhar de outrora me consola ou me deprime. Fica em aberto.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da FACHA (Rio de Janeiro)

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/11/2007 Tiago de Jesus

    O autor, em sua agressividade empolada nas respostas a comentários aqui, desvia-se de questões relativas às lacunas do seu argumento. Basta rever os comentários a que deu resposta e verá o que há de crítica no meio das reações a um artigo destarte agressivo.

  2. Comentou em 19/11/2007 Tiago de Jesus

    O autor, em sua agressividade empolada nas respostas a comentários aqui, desvia-se de questões relativas às lacunas do seu argumento. Basta rever os comentários a que deu resposta e verá o que há de crítica no meio das reações a um artigo destarte agressivo.

  3. Comentou em 18/11/2007 ivo lucchesi

    Ao Dr. Abelardo, cabem algumas considerações. Sei bem que escrever e publicar implica uma exposição para a qual podem convergir críticas. O que, porém, não deixo (e não deixarei) passar é a estratégia, de natureza corrosiva, cujo propósito não é outro senão o de tentar desqualificar toda e qualquer voz que pontue alguma sombra no horizonte onírico onde se situam os ‘puros defensores’ de um governo que, tendo à frente um ‘messias’ que, mesmo havendo declarado jamais ter sido de esquerda, ainda extasia corações daqueles que o vêem como o ‘ícone salvífico’ sei lá de quê. Contentam-se com a distribuição de migalhas a famílias miseráveis que não conseguem sair da condição que sempre a conheceram, afora a diferença de poderem, agora, comprar alguns produtos a mais. Não, Dr. Abelardo, quem adquiriu algum grau de criticidade não cai nessa ‘armadilha conservadora’. Por favor, não invoque fragilidade argumentativ, sem ser capaz de, no texto do artigo, demonstrar quais são as lacunas a serem preenchidas. O senhor que tenha bom restante de feriado, com sua ampla e lúcida consciência.

  4. Comentou em 17/11/2007 Abelardo Queiroz

    Sr. Ivo. Titulação por titulação nada lhe devo. Irrita-me a carteirada na professora e na advogada. Desde quando doutorado( eu tenho!) assegura qualidade do texto? Desde quando escrever coisas atinentes à imprensa significa que não se possa ultapassar a baixa qualidade teórica e melhorar o estilo de seus escritos? Um debate qualificado deve ser feito com os participantes presentes e não no curto espaço destinado ao comentário. O senhor não tolera que não gostem dos seus artigos? Pois saiba que é extremamente ridículo publicar um comentário a cada observação adversa. Denota insegurança. Quanto ao erro de digitação, de fato acontecem. Mas o seu problema é o total descompromisso com a lógica argumentativa. Apenas isso. Tenha um bom final de semana.

  5. Comentou em 17/11/2007 Ricardo Camargo

    O debate ad personam absolutamente nada acrescenta de útil. Quando se debatem proposições, por mais errôneas que estas possam parecer, todos ganham, justamente porque o que se coloca em discussão é a idéia e a própria força que ela apresenta para se colocar. O sr. Rogério Ferraz, por exemplo, está a debater comigo se as proposições apresentadas pelo autor do texto seriam ou não coerentes – debate de idéias, como, aliás, tem de ser, quando se quer contribuir para tornar mais suportável a vida civilizada -. Muitas vezes, o ataque ao estilo vem a se colocar como uma das formas pelas quais se manifesta a frustração de quem pretendia introduzir uma discussão político-partidária que não tenha pertinência nenhuma com o tema – discussão tipo ‘gosto do Lula/não gosto do Lula’, ‘morte aos comunistas!/viva o comunismo!’ e outras que tais. A sobreposição de slogans, realmente, é muito fácil, e existem alguns textos que foram alvos de comentaristas que só sabem desferir slogans a torto e a direito e que, se pudessem, generalizariam a solução ‘Capitão Nascimento’, porque é mais fácil atirar do que indagar, ouvir, pesar e analisar.

  6. Comentou em 16/11/2007 Abelardo Queiroz

    Assim eu fico envergonhado, professor. O senhor digitou 0000? Incrível? Candidatos ä presidência têm dois números apenas….

  7. Comentou em 16/11/2007 Lena Marques

    Esse IVo LUcchesi é a nova piada do Observatório. Escreve mal, se embaraça com comentários contrários a suas idéias confusas e termina por se contradizer novamente. Agora ele diz que votou no candidato -educação. Antes falou que havia anulado tudo, mas isso é de menos. O problema é que o ‘doutor’nada faz que não seja reproduzir o que se lê nos jornais. Seu doutorado deve ter sido pouco proveitoso. A propósito, como se trata de um ‘gênio’. sua tese deve ter sido aprovadda com indicativo de publicação.Como conheço o pessoal de Letras da UFRJ, não será difícil obter informações sobre a obra prima do confuso e simplório professor que escreve semanalmente para o Observatório. É a prova de que quantidade e qualidade andam distantes.

  8. Comentou em 16/11/2007 Tiago de Jesus

    Vejam como o debate torna-se mais civilizado e educado uma vez postos os pingos nos is. … a propósito, resolvi um problema terrível no meu teclado que me obrigava a contorções terríveis para acentuar palavras. Falamos de política eleitoral, somos todos menos ou mais educados e então em um clima de total sinceridade nos harmonizamos, mesmo na discórdia. Falamos de petróleo: petróleo não vota, não tem opinião política nem pilota avião ou joga bombas: petróleo ou mesmo dinheiro vivo não fazem nada disso, gente, sim.

  9. Comentou em 14/11/2007 Tiago de Jesus

    Agora li 100% do artigo, por força da exortaçao, por assim dizer, do autor. Política eleitoral ligada em 220 V, uma sequência de deformaçoes que precisa justificar-se a todo momento. ‘Para onde vamos’ …. e o que vem depois? ‘Chega’ ? Ou seria ‘Basta’ ? É este o seu ‘aonde vamos parar?’, uma reediçao da indignaçao de fachada que esconde outras intençoes, o que se manifesta de forma patente na discussao sobre a sucessao do presidente que conclui o seu artigo.

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