Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Para onde vamos?

Por Ivo Lucchesi em 13/11/2007 na edição 459

Algo na mídia brasileira muito me gera incômodos. O principal aspecto diz respeito à irritante submissão à qual se entregam os meios de comunicação de massa a situações que, no mínimo, mereceriam alguma suspeita. Nas duas últimas semanas, não faltaram ilustrações para contrariar consciências à espera de uma atuação da mídia numa angulação mais crítica, questionadora, ou, na pior das hipóteses, ao menos desconfiada.

A população brasileira ficou exposta à celebração do fato de o Brasil ser o país-sede da Copa de 2014. Paralelamente, a monotonia da discussão em torno da permanência da CPMF e, por fim, no auge do prenúncio de uma crise de abastecimento energético, a descoberta (?) de amplo lençol petrolífero, exatamente no dia em que a mídia alardeava o fato consumado quanto à elevação, entre 10 e 25%, nas taxas de fornecimento de gás.

A questão de fundo – e que espanta – é o fato do quanto as políticas de investimento em geração de riquezas foram negligenciadas, ao longo da história brasileira. Será que a Petrobras (na época em que tinha acento, ou depois que o retiraram) não sabia que a costa atlântica, entre a Paraíba e Santa Catarina, é uma oferta dadivosa que a natureza armazenou para a emancipação de uma nação? O que investiram, nessa estratégia emancipatória, os governos Sarney, Collor, os dois mandatos de FHC e o primeiro mandato do governo Lula, sem computar os sucessivos governos militares?

Vazamento de informação

A lástima, antes de bradarmos com euforia a recente descoberta, é a constatação de nosso atraso e do quanto perdemos em aceleração do progresso e do desenvolvimento, em razão do descaso para investimentos em prospecções. Para se ter idéia de nossa indigência, o que os EUA e o Canadá prospectam, por ano, é duas vezes maior do que a Petrobras prospectou ao longo de meio século.

Infelizmente, a Petrobras tem, em seu horizonte, um cenário para tímida celebração. A riqueza que a natureza deixou nas águas profundas do Brasil se tornará disponível, ao longo da próxima década, numa situação em que a tecnologia avançada já direciona seu foco para outras alternativas de geração energética. Já é sabido que a demanda de energia, em futuro próximo, terá de vir de fontes renováveis. Assim, o que se avizinha, e a mídia brasileira deixou à margem, é a reedição de passagens históricas já sabidas: as economias autônomas serão contempladas por fontes energéticas de outro patamar, ficando as economias emergentes (ou ‘dependentes’, ou ‘em desenvolvimento’) com a reserva do ‘ouro negro’. O Brasil, portanto, terá, no futuro, uma ‘moeda de troca’ para repassar a economias com limitadas possibilidades econômicas de saldarem seus endividamentos.

A Folha de S. Paulo (10/11/2007) ainda chamou a atenção para a possibilidade de ter havido vazamento de informação para favorecimento de grupos investidores em ações da Petrobras. Contudo, a matéria foi tímida e deslocada para caderno interno. O fato é grave. A matéria da Folha dá conta de que o presidente tinha informações preliminares quando de sua viagem, com governadores, para Zurique. Afirma a matéria: ‘Os assessores do presidente destacaram ainda que desde 2005 já se sabia da existência do poço de Tupi e que a Petrobras vinha pesquisando o potencial de exploração de petróleo no local.’ Adiante, a matéria revela: ‘O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), disse ontem [9/11/2007] que foi comunicado pelo presidente Lula sobre a descoberta dois dias antes do anúncio feito pelo governo – isto é, na última terça-feira [6/11/2007].’

‘Força eleitoral?’

A questão a envolver o comentário ‘ufanista’ do presidente a governadores é grave. Que repercussões podem ter ocorrido no repasse do comentário de governadores a investidores na bolsa? Quantos grupos, portadores de informações privilegiadas, terão multiplicado seus ganhos em função de ‘relatos confidenciais’ que partem da Presidência da República e repercutem por meio de governadores? Não se trata aqui de lançar, levianamente, acusações sobre quem quer que seja. Apenas, há o fato de que confabulações indevidas podem acarretar conseqüências eticamente suspeitas.

Seja qual for a linha de investigação, uma coisa fica clara: o governo, diante do fantasmagórico espectro de uma crise energética, liberou uma informação que a própria Petrobras julgava mais prudente divulgar a partir de janeiro de 2008. Mais grave ainda é saber-se que a ‘nova quimera’ requer, pela defasagem tecnológica, um prazo de cinco a sete anos, para iniciar a exploração comercial de uma dádiva que a natureza, há milhões de anos, para nós destinara. Esse é o fato a lamentar. No mais, fica, para a esfera pública, qual é a possibilidade de ‘força eleitoral’ que, em 2010, possa ter a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff? Bem, doravante, essa é uma questão delicada. Entre as cartas ocultas no baralho do governo, consta o valete, Ciro Gomes. O impasse me reaviva a memória para o contexto das eleições de 2002. Por antevisão, ou por deformação ótica, meu candidato, em 2002, era justamente Ciro Gomes, por considerar que, pelo discurso e pelo programa, era o que mais se opunha ao modelo consagrado pelos oitos anos da gestão FHC. Não sei se atualmente o olhar de outrora me consola ou me deprime. Fica em aberto.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da FACHA (Rio de Janeiro)

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