Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Perguntas que a imprensa precisa responder

Por Carlos Castilho em 28/10/2008 na edição 509

A leitura dos comentários feitos por leitores dos vários textos publicados pelo Observatório sobre o seqüestro de Santo André indica uma quase unanimidade nas críticas ao papel da imprensa no episódio.

Noutros blogs e páginas que tratam de problemas da mídia no Brasil, a reação é quase igual – o que mostra haver uma rejeição cada vez maior à linha de realismo espetaculoso e falsamente humanista desenvolvido pela grande imprensa brasileira desde o assassinato na menina Isabela, também em São Paulo, no primeiro semestre deste ano.

Diante dos excessos cometidos até agora, mais uma vez surge a pergunta: por que a imprensa chegou a esse ponto, ignorando manuais de redação, códigos de ética, regulamentos e até o bom senso?

Os repórteres, editores e diretores de redação dos principais jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, bem como dos portais e blogs da internet, são, em geral, profissionais experientes, bem informados, dotados de sensibilidade social e que lidam diariamente com dramas humanos. Por que então eles passaram a abandonar todas estas virtudes sempre que algum episódio de violência doméstica explode nas manchetes?

Por que as empresas de comunicação depois de adotar manuais de redação e códigos de ética que condenam o sensacionalismo, a morbidez, a violação da privacidade e dos direitos individuais, acabam ignorando tudo isso diante de um crime que envolve dramas familiares?

Drama de consciência

A imprensa precisa responder a essas perguntas de forma tão clara e direta como pregam os seus manuais de redação. A mídia não é a responsável pelos assassinatos de Isabela e Eloá, mas não há dúvida de que episódios similares vão se repetir – e os jornais, revistas, internet, emissoras de rádio e televisão podem ser listados como cúmplices por terem transformado delitos em reality shows onde vítima e criminoso ganham o status de personagens de uma trama.

As emissoras de televisão estão eliminando a diferença entre o real e o simulacro nas suas transmissões e criando as condições para que o espectador também acabe por ver tudo como se fosse um reality show. Essa confusão entre realidade e representação está na origem do processo pelo qual os assassinos conseguem a notoriedade impune, que pode estimular imitadores.

Entre as várias respostas possíveis, a mais embaraçosa para as redações tem a ver com as relações entre os profissionais do jornalismo e os departamentos de marketing, em especial nas TVs. Não é segredo para ninguém nas redações da Globo, Record, SBT e Bandeirantes que os índices de audiência mandam mais na pauta do que o chefe de reportagem e o editor-chefe. O famoso monitor do Ibope no controle-mestre é o terror de quem põe um telejornal no ar.

Os episódios Isabela e Eloá estão mostrando é que as redações perderam a queda-de-braço com o departamento comercial e que as decisões editorais são cada vez mais as impostas por razões econômicas, apoiadas na idéia de que reconquistar audiência perdida custa muito dinheiro. Só assim seria explicável a forma como os manuais e códigos de ética foram deixados de lado em favor dos pontos no Ibope.

O pessoal do marketing e do departamento comercial só tem que dar explicações ao patrão. Já os jornalistas, querendo ou não, têm que dar explicações também para o público. São dois contextos diferentes que em períodos de vacas gordas podem ser mais flexíveis, mas quando a situação muda, o comercial passa a se impor e aí cresce o drama de consciência dos jornalistas.

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Jornalista, editor do blog Código Aberto, do Observatório

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