Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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DIRETóRIO ACADêMICO >

‘Polêmica, para tudo, to passada’

Por Lucas Rodrigues dos Santos em 09/06/2015 na edição 854

Este artigo se debruça sobre o conteúdo apresentado no programa SuperPop, da Rede TV!, e a performance de sua apresentadora atual e mais duradoura, Luciana Gimenez, sob o viés de qual a contribuição de ambos para o debate junto aos telespectadores no que tange às demandas do meio LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). A pergunta que tenta ser respondida, ou ao menos inserida de maneira mais fundamentada nesta análise, é: a exposição dos conflitos e lutas do mundo gay em um programa voltado ao puro entretenimento é um modo legítimo de conscientização e combate ao preconceito ou apenas estereotipa e tira proveito do sofrimento alheio?

Introdução

No país com o maior índice de assassinatos contra homossexuais do mundo [O Globo. No Brasil, homofobia matou ao menos 216 em 2014, http://oglobo.globo.com/brasil/no-brasil-homofobia-matou-ao-menos-216-em-2014-14087682. Acesso em 21 de janeiro de 2015] e onde 53% da população é contrária ao casamento entre pessoas do mesmo sexo [G1. Maioria é contra legalizar maconha, aborto e casamento gay, diz Ibope, http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/09/maioria-e-contra-legalizar-maconha-aborto-e-casamento-gay-diz-ibope.html. Acesso em 21 de janeiro de 2015], não é de se espantar que o primeiro beijo gay masculino em telenovelas só tenha ocorrido em pleno ano de 2014, na novela global Amor à Vida.

Esse breve panorama do Brasil e seu forte preconceito de gênero têm reflexos profundos na mídia televisiva, não só na falta de representatividade dos LGBT na esfera da teledramaturgia – que têm ganhado espaço ainda de forma tímida e geralmente caricata – mas na ausência de espaços nas grandes emissoras para a promoção de discussões sobre a cultura, problemáticas e desafios enfrentados diariamente por essa minoria representativa.

A demanda por uma conscientização séria sobre os alarmantes dados de violência contra LGBTs, de suicídios cometidos por jovens homossexuais que não recebem aceitação da família e de pesquisas que estampam uma grande desinformação da população sobre o que é a homossexualidade/bissexualidade/transsexualidade entra em choque com a realidade da mídia televisiva, especialmente a da TV aberta. Com cada vez menos tempo para programas educativos em razão da restrita audiência e baixo retorno financeiro, as emissoras investem os seus melhores horários em programas de variedades e entretenimento, com médias elevadas de ibope, como Big Brother Brasil (Globo), O Melhor do Brasil (Record), Domingo Legal (SBT) e o SuperPop (Rede TV).

A concorrência e busca pela liderança no ibope também interferem na qualidade deste gênero de programa, que adota a política de audiência a qualquer custo (e esse “a qualquer custo” tem seus limites rompidos a cada dia). Ou seja: não há espaço nas telas da grande mídia, a não ser em horários da madrugada ou em emissoras de pouca visibilidade, como a ótima TV Cultura, para expor a causa LGBT à população de maneira lúdica, responsável e consciente.

Prós e contras do uso das causas LGBT

O que resta para preencher esta lacuna são os programas de variedades e de puro entretenimento, como o SuperPop. Ainda que tal exposição não seja realizada da maneira mais recomendável, a importância de a televisão abordar estes assuntos efervescentes na sociedade, conforme Vera França (2009, p.7), se dá na demonstração dos reflexos e embates da própria vida e dinâmica sociais:

“No nosso entendimento, a televisão concentra, mais do que qualquer outra mídia, as tensões e contradições que atravessam a sociedade num determinado momento; ela nos diz de formações dominante e focos de resistências, de valores hegemônicos e do enfraquecimento de valores, de relações consolidadas e estremecidas, da reprodução e desestabilização da ordem dominante.”

Sob esta premissa, este artigo primeiramente delineará o gênero do SuperPop enquanto programa de variedades e os tipos de atrações, convidados e conteúdo veiculado por ele. Posteriormente, será apresentada Luciana Gimenez no papel de performer do SuperPop e suas características enquanto apresentadora, figura pública e mediadora das atrações deste show televisivo. A terceira etapa focará na análise de conteúdos veiculados nos últimos anos pelo SuperPop que tenham abordado a temática LGBT, com ênfase aos mais polêmicos e/ou que chamaram mais atenção. Nesta fase, o desempenho de Gimenez e a forma como as pautas LGBT foram expostas serão os alvos das críticas e questionamentos. Por último, será mostrado um balanço sobre os prós e os contras do uso das causas LGBT como chamariz de audiência e se o conteúdo veiculado supre parcialmente a falta de debate na TV sobre esta temática ou se apenas a explora sem oferecer qualquer contrapartida.

Túnel do tempo

O SuperPop começou a ser exibido em novembro de 1999, sob o comando da modelo e apresentadora Adriane Galisteu, que havia saído da emissora MTV (que foi extinta em 2013) para assinar contrato com a Rede TV!. Em outubro de 2000, Galisteu fechou com a rede Record e foi feita uma votação para escolher a nova apresentadora. Apesar de ter figurado em sétimo lugar, atrás de nomes como Suzana Werner e Astrid Fontenelle, Luciana Gimenez foi escolhida para suceder Galisteu, segundo o diretor Márcio Nunes, por se encaixar no formato do programa [Folha de S.Paulo. Gimenez não foi a preferida do público para apresentar SuperPop, http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u6077.shtml. Acesso em 21 de janeiro de 2015].

Ela estreou como apresentadora do SuperPop em janeiro de 2001 e se mantém no comando do programa até os dias atuais. A exceção ocorreu durante sua licença-maternidade, em 2010, ocasião em que foi substituída pela cantora Gilmelândia. Nos primeiros anos, a atração ia ao ar de segunda a sexta-feira, a partir das 22 horas, mas passou nos anos posteriores a ser exibido nas segundas e quartas-feiras, às 23h, com duração de 1h30.

O programa pode ser encaixado no gênero de “variedades”: possui entrevistas, debates, reportagens informativas, fofocas e demais atrações de entretenimento, que variam conforme as temporadas. É apresentado ao vivo e possui uma plateia formada por mulheres. O site oficial do programa assim o descreve: “Cheio de bom humor, polêmica e curiosidades, o SuperPop traz a cada dia um assunto diferente que vai fazer você ficar grudado na televisão. Surpreendente, dinâmico e com muito alto-astral é um programa que agrada toda sua família” [SuperPop. O Programa, http://www.redetv.uol.com.br/superpop/oprograma.aspx. Acesso em 21 de janeiro de 2015].

Um dos elementos que o diferencia de programas desta mesma linha é o tom de “polêmica” adotado em todos os temas e atrações exibidas e a linha mais voltada a dar ares de sensacional a assuntos que estão em evidência na mídia, o chamado “sensacionalismo”. Como a própria descrição do programa diz, o intuito é fazer o telespectador ficar grudado na televisão. Para alcançar este objetivo, são utilizadas técnicas conhecidas de programas de auditório, como “descubra o que aconteceu com fulano”, “veja a transformação que sicrano fez em seu corpo”, “subcelebridade tal contará tudo sobre o fato polêmico da semana”. As grandes revelações ou momentos mais polêmicos, como manda a regra, são deixados para a parte final do programa ou no ponto em que a audiência chega ao pico, por se tratar de um programa ao vivo.

Tais técnicas não são novas. O apresentador Carlos Massa e seu Programa do Ratinho (SBT) faziam isso no quadro “Teste de DNA”, nos anos 90, em que era revelado se o convidado era ou não pai da criança, em meio a brigas e barracos. Da mesma forma, há mais de uma década Luciano Huck usa esta tática no Caldeirão do Huck (Globo), em atrações como “Lar Doce Lar” e “Lata Velha”. No caso das atrações de Huck, o sonho de uma casa nova ou de um carro consertado é conquistado após o escolhido – geralmente uma pessoa pobre e com triste história de vida – realizar uma tarefa de superação.

Outro destaque no uso desta técnica e que talvez mais se assemelha ao modus operandi do SuperPop é a apresentadora Sônia Abrão, que nunca abriu mão do artifício nos diversos programas que já comandou (chegando ao ponto de negociar com um sequestrador ao vivo). A diferença entre o método de Sônia Abrão e o do SuperPop é o produto com que cada um trabalha. A primeira aborda e explora –não apenas no sentido ruim da palavra – a desgraça. Temas como acidentes aéreos, chacinas, crimes que chocaram o país e todo tipo de tragédia são as pautas mais frequentes, trazendo entrevistas com os envolvidos, ouvindo peritos e especialistas, conversando com as famílias e pessoas que têm legitimidade para tratar do assunto, até que a repercussão do caso seja totalmente esgotada.

Já o SuperPop opta por trazer ao debate temas sérios (não necessariamente ligados à desgraça), como prostituição, homossexualidade, procedimentos estéticos, tabus religiosos, espiritismo, preconceito. O detalhe crucial é que, apesar de ambos utilizarem técnicas sensacionalistas, o SuperPop não trata estes temas polêmicos com a mesma seriedade (ou tentativa de seriedade) com que Sônia Abrão aborda a tragédia. Ao contrário, além dos especialistas, convidam-se as pessoas mais diversas e aleatórias do país para falarem de tais temas, no intuito de tornar a discussão um espetáculo bizarro em que pouco ou nada se aproveita em matéria de conteúdo discursivo.

Um dos exemplos mais excêntricos foi o programa exibido em julho de 2012, cujo tema explorava o suicídio de Angelina Figueiras, irmã da apresentadora Ângela Bismarchi, participante do reality show A Fazenda 5, da Rede Record. A questão levantada no programa foi: “Espírito de Angelina: É possível irmã de Ângela Bismarchi estar com ela no reality?” Foram convidados para tratar do assunto o vidente Robério de Ogum, a jornalista “Renata”, do Portal iG, o marido de Ângela Bismarchi, Vagner de Moraes, a médica especialista em terapia do luto Adriana Thomáz e o ator Fernando Lira. Durante o programa, além da leviandade e desorientação com que este tema tão delicado foi tratado, o gerador de caracteres mudou várias vezes para chamar a atenção do público sobre em que local estaria o suposto espírito de Angelina Figueiras. Como bem anotou o crítico de TV Maurício Stycer, o debate “superou os limites em matéria de absurdo” [blog do Maurício Stycer. Em nome da audiência, Luciana Gimenez promove debate do além, http://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/2012/07/03/em-nome-da-audiencia-luciana-gimenez-promove-debate-do-alem/. Acesso em 22 de janeiro de 2015].

O espírito da moça que se suicidou

A situação não é muito diferente quando se aborda as demandas LGBT e/ou pautas voltadas à aceitação do homossexual pela sociedade e pelos religiosos. Em grande parte das ocasiões – salvo exceções de entrevistas com defensores sérios da causa gay, como o deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ) – são chamados convidados com pouco subsídio para debater as questões. Desde ex-BBBs, subcelebridades como Wanessa ‘Bóing-Bóing’, e artistas em decadência como Agnaldo Timóteo e Gretchen. Também são convidadas as figuras públicas com posições radicais sobre o tema, como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) e pastores que se dizem ‘ex-gays’. Resumo: no mesmo estúdio e sem qualquer critério definido, ficam cara a cara pessoas com a maior variedade possível de opiniões e personalidades, para que as mesmas entrem em choque e causem as discordâncias, atritos, brigas e barracos que mantém a tônica sempre polêmica do SuperPop, o que será abordado mais adiante, quando da análise dos programas selecionados.

A própria forma com que a equipe técnica trabalha essa perspectiva mostra como o programa é caricato e não faz questão alguma de se levar a sério. As legendas que ficam na parte inferior da tela mudam constantemente durante o programa, variando de acordo com as declarações dos convidados, e tentam dar uma conotação impactante sobre tudo o que é discutido. Quando um convidado faz uma declaração bombástica ou provoca outro convidado, é acionada uma sonoplastia que remete a impacto, seguido de aplausos e gritos da plateia. Estes aplausos, inclusive, são alvo de deboche de programas humorísticos que satirizam o SuperPop, como o extinto Comédia MTV. O motivo? Qualquer frase genérica e superficial dita por um convidado ou pela própria Luciana Gimenez como uma “grande verdade” é seguida de aplausos da plateia (também é comum a própria Gimenez pedir aplausos quando um de seus convidados diz algo óbvio, mas que pareça ser inteligente).

A performance de Gimenez

Luciana Gimenez, assim como o SuperPop, tem sua vida e carreira cercada por polêmicas, e talvez por isso tenha sido a escolhida para apresentar o programa. Modelo de sucesso desde a adolescência, teve o seu nome levado ao auge em 1998, após um rápido romance com o vocalista da banda Rolling Stones, Mick Jagger, com quem teve um filho, Lucas Jagger. É casada com o vice-presidente da Rede TV!, Marcelo Carvalho, que conheceu alguns anos após começar a apresentar o programa e com quem também teve um filho, Lorenzo.

Sem nenhuma experiência anterior como apresentadora, ela foi muito criticada nos primórdios do SuperPop por errar palavras em português e pelo cometimento de gafes atrás de gafes, chegando a ser chamada de “burra” por muitos jornalistas (e um apelido nada carinhoso de “Lucianta”, dado pelo jornalista José Simão, da Folha de S.Paulo). A princípio, a apresentadora se defendia com o argumento de que estava acostumada a “pensar em inglês” devido ao longo tempo que morou no exterior, sendo que ainda precisava se atualizar com o idioma português. A defesa acabou por virar piada. Em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo, Gimenez declarou: “Eu posso ser desligada, mas burra, nunca! Falo francês, italiano, alemão, espanhol e inglês. Deixe-me ver, porque não sei contar muito bem: são uma, duas três…são cinco línguas”, disse ela, esquecendo de contar a língua portuguesa e, novamente, sendo alvo de chacota.

Enquanto performer do SuperPop, na função de performance identificada por Schechner (2006, p.20) no que tange a “entreter”, “formar ou modificar uma identidade” e “ensinar, persuadir e/ou convencer” , Luciana Gimenez usou a estratégia bem sucedida de trabalhar suas gafes a seu próprio favor. Ao invés de se corrigir ou tentar mudar seu jeito “destrambelhado”, ela assumia seus erros e suas deficiências intelectuais, sem qualquer constrangimento, durante o próprio programa. “Não sou paga para pensar”, disse em certa ocasião.

Com tal postura, nasceu um festival de frases e gafes épicas que marcaram a carreira de Gimenez enquanto apresentadora, a maioria ditas em seu programa e outras repercutidas em entrevistas concedidas por ela. Alguns exemplos:

“Comprei vaca por lebre”, ao confundir o ditado popular “comprei gato por lebre”.

“O casal matou a moça, tiveram liberdade condicional, saíram da cadeia e a moça ‘ainda’ continua morta”, sobre o assassinato de Daniela Perez, filha da autora de novelas Glória Perez.

“Sou um desastre com futebol, só lembro dos times onde jogam os bofes…Lembro do Beckham.. Em que time mesmo joga o Beckham?”, em entrevista a revista IstoÉ Gente [estrelando. Confira as frases de Luciana Gimenez que chamaram atenção, http://www.estrelando.com.br/celebridades/foto/confira_as_frases_de_luciana_gimenez_que_chamaram_atencao-162518.html#/foto/11. Acesso em 22 de janeiro de 2015].

“Foi o Mick Jagger que me usou para ter um filho lindo e ficar famoso no Brasil. Adoro o Mick Jagger”, em entrevista ao Roberto Justus +, da Rede Record.

“Assunto complicado, né, gente?”, ao confundir a sigla INSS com ICMS.

“Nossa! São cristais de Urano?”, para um designer de joias de murano – ilha na Europa famosa pela produção de cristais [Fabricio Bezerra da Guia. Frases (idiotas) de Luciana Gimenez, http://fabriciobezerradaguia.blogspot.com.br/2008/09/frasesidiotas-de-luciana-gimenez.html. Acesso em 22 de janeiro de 2015].

Esta atitude de “vestir” suas limitações pode ter sido tomada talvez até por ela visualizar que era justamente essa a sua marca enquanto artista e o que a fazia ser querida pelo público, em especial o público gay, que passou a trata-la como “diva”. É impossível dizer se a forma como Gimenez se porta no programa e enquanto figura pública é, de fato, seu jeito natural ou uma maneira “adquirida” de ser enquanto artista que visa cativar quem consome o produto que ela oferece. Nesse ponto, Schechner (2006, p.17) já adverte que “figuras públicas normalmente fazem de conta – encenam os efeitos que querem que os receptores de suas performances aceitem ‘como realidade’”. Ela nega que seu comportamento seja encenado: “Estão dizendo que faço dos meus erros um marketing. Que tipo de gênia sou eu para falar errado e achar que é marketing?”, brincou, em entrevista ao jornal carioca O Dia, em 2003 [Veja Online. Veja Essa, http://veja.abril.com.br/250603/vejaessa.html. Acesso em 22 de janeiro de 2015].

Outro ingrediente que contribuiu para o sucesso de Gimenez nesta carreira televisiva – e que, aparentemente, é fundamental para todos os apresentadores brasileiros de sucesso, como Faustão e Silvio Santos – foram os seus hilários bordões, repetidos à exaustão no programa, além se suas caras e bocas:

“Para, to passada”, ao se surpreender.

“Abafa, polêmica”, ao ouvir declaração bombástica.

“Ai que mico”, em ocasiões de vergonha alheia.

“Produção, cadê meu shake?”, ao falar de seu shake emagrecedor.

Assim como lidou com suas gafes, Gimenez também levou na esportiva as paródias que os programas de humor começaram a fazer dela, tanto que criou um quadro no SuperPop estrelado por Tiago Barnabé, seu imitador oficial [TV Tubo. Cover de Luciana Gimenez ganha quadro no SuperPop, http://portalrtvtubo.blogspot.com.br/2010/03/cover-de-luciana-gimenez-ganha-quadro.html. Acesso em 23 de janeiro de 2015]. Ela também chegou a entrevistar a humorista Dani Calabresa, que fez paródias escrachadas dela e do SuperPop em uma atração denominada “SuperTrash”, que passava no programa Comédia MTV.

Debates e barracos

Os dois programas escolhidos para análise foram exibidos em 2012 e 2014, respectivamente. O primeiro representa de forma geral como são administrados os debates e o outro como são conduzidas as entrevistas de Luciana Gimenez. Este período histórico foi escolhido por três fatores: o primeiro é a questão do momento. Nos últimos anos, principalmente com a popularização e facilidade de acesso à internet e às redes sociais, as informações em torno de casamento gay, preconceito e campanhas de igualdade ficaram mais acessíveis à população em geral.

Somado a isso, estão as polêmicas em torno do projeto que criminaliza a homofobia, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em legalizar a união civil homossexual como união estável, a portaria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que proíbe que homossexuais sejam impedidos de casar em registro civil, o material anti-homofobia que seria distribuído nas escolas e gerou polêmica antes de isso acontecer e a escolha do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Todos estes acontecimentos, alguns positivos e outros negativos para a causa LGBT, ocorreram neste intervalo de tempo.

O terceiro fator é que há uma grande dificuldade em encontrar programas anteriores a 2010 na internet e nas próprias redes sociais do SuperPop e da Rede TV. Muitos dos programas, aliás, são gravados por fãs, que , após a exibição, compartilham o conteúdo em seus respectivos canais no YouTube, site de compartilhamento de vídeos.

Vamos lá. Um dos debates “marcantes” sobre homossexualidade ocorreu em julho de 2012 e contou com a presença da transexual Luisa Marilac, do jornalista Felipeh Campos, do cantor Agnaldo Timóteo, do deputado federal Jair Bolsonaro (que, por sinal, foi convidado do programa por mais de 10 vezes, no mínimo), do “ex-gay” e agora pastor Robson Staines e da ex-BBB Angélica Morango, assumidamente lésbica [YouTube. Pastor diz que é possível converter a transex mais famosa da web, https://www.youtube.com/watch?v=mM9iXddtt2o. Acesso em 23 de janeiro de 2015].

Enquanto a discussão rolava solta, as chamadas na parte inferior da tela, como se explicou anteriormente, foram voltadas para prender a atenção do público “Já, já: Bolsonaro frente a frente com o beijo gay, ao vivo”. É óbvio que Bolsonaro já viu um beijo gay, seja ao vivo, seja pela TV, e tal atitude é explicitamente uma tentativa de provoca-lo a soltar alguma frase, comentário ou reação nervosa, ou, no mínimo, de manter o público na tela com a expectativa de que isso ocorra.

Não há dúvidas de que Luisa Marilac, que ficou famosa pelo vídeo em que toma “bons drink” na Espanha, tem histórias e lições de vida marcantes para contar, como a ocasião em que foi esfaqueada por homofóbicos e entrou em coma. Assim como Bolsonaro tem seus argumentos contra o que ele chama de induzir a homossexualidade com o tal “kit gay” (não entrando no mérito se os argumentos fazem sentido ou não). Todos os convidados, a sua maneira, tem certa experiência direta ou indireta com o tema – a exceção fica por conta de Agnaldo Timóteo, até onde se sabe. Mas não é com esse foco que o debate se direciona. Todo o andamento do programa é voltado para a “polêmica pela polêmica”.

Em determinado momento, Luciana Gimenez pergunta ao pastor Robson se Luiza Marilac poderia “virar homem” e ele garante que sim, caso ela aceitasse Jesus e seguisse seus ensinamentos. Marilac rebate se afirmando católica e que Deus aceita a todos, sendo alvo de críticas do evangélico. Ela então se revolta e diz: “Sabe quando eu deixei de ir na igreja? Eu fui na igreja até o dia em que eu chupei o pastor e nunca mais voltei” e emenda “os homens na frente das câmeras são uma coisa, por trás é aquilo que eu falei: o que não dá, chupa”. A ex-BBB Angélica Morango intervém na discussão e diz que o pastor não pode julgar as pessoas desta maneira em razão de suas crenças. Ele questiona “então a Bíblia é mentira? A Bíblia é a palavra de Deus!” Colocando a mão no peito e olhando fixamente para o pastor, a ex-BBB dá a resposta filosófica: “A Bíblia é a palavra do homem. A palavra de Deus está no meu coração”, sendo (é claro) aplaudida fervorosamente pela plateia, cujo som abafa a reclamação do pastor. Em um debate deste nível, a reflexão de Angélica Morango pode ser considerada como o momento mais coerente do programa.

A bizarrice continua após o jornalista Felipeh Campos fazer uma válida sugestão a Bolsonaro para que revesse sua postura radical em relação à homossexualidade, tendo em vista tanto preconceito e tantos jovens gays que se suicidam por não receberem aceitação da família. Infelizmente, o raciocínio educativo não durou até o fim. No meio da explanação, ele diz “faça isso não só por mim, que sou homossexual assumido, assim como é o Agnaldo Timóteo, mas por tantas famílias…”. Ao ser citado, Agnaldo Timóteo o interrompeu e negou ser homossexual assumido. “Nem assumido, nem desassumido, simplesmente Agnaldo Timóteo”, disse o cantor, aproveitando a ocasião para soltar seu bordão, que, assim como o debate, não faz o menor sentido. Enquanto isso, Gimenez faz caras e bocas, escondendo o rosto atrás da ficha que contém o script. Em entrevista recente, Luiza Marilac revelou que, neste programa especificamente, a produção pediu para que ela falasse que Agnaldo Timóteo era gay, e ela se recusou. A transexual acredita que Felipeh Campos ouviu o pedido da produção ou foi induzido a insinuar a suposta homossexualidade do cantor [Bafonique. Luiza Marilac detona Os Legendários e SuperPop em novo vídeo, http://www.bafonique.com/2013/12/luisamarilaclegendariossuperpoptv.html. Acesso em 23 de janeiro de 2015]. Não se pode comprovar a veracidade de qualquer uma das versões, mas o fato é que, sem sombra de dúvidas, o objetivo dos debates não é somar ou agregar conhecimento ao tema discutido, mas puramente “causar” pela audiência.

Passados alguns minutos, o jornalista volta a questionar Bolsonaro com perguntas totalmente fora de contexto, como “você já traiu sua esposa?”, “você já foi infiel?”, “você tem amante?”. Curto e direto, o deputado diz “é lógico que se eu tivesse não ia falar. Quem vai falar uma coisa dessas?”. Sem qualquer motivo lógico, a plateia aplaude a frase de Bolsonaro. Ao final do programa, duas jovens lésbicas que estão em outro estúdio – Priscila e Roberta – aparecem no telão para dar um beijo gay na frente de Bolsonaro, que nem dá importância para isso. O programa se encerra e Luciana se despede reiterando o respeito às opiniões e às diferenças, esquecendo que o próprio programa teve a oportunidade de abordar esta questão com mais responsabilidade e não o fez.

Outro quadro que abordou a homossexualidade em diversas ocasiões foi o “Vai encarar?” A proposta é que um convidado passe por uma sabatina com perguntas polêmicas de Luciana Gimenez, além de outras questões abordadas por personalidades subcelebridades que aparecem no telão. Em dezembro de 2014, o convidado foi o polêmico pastor-deputado Marco Feliciano, que gerou revolta da comunidade LGBT quando assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara [Rede TV!. Ninguém nasce gay, diz Marco Feliciano, http://www.redetv.uol.com.br/Video.aspx?39,9,408020,entretenimento,,ninguem-nasce-gay-diz-marco-feliciano. Acesso em 23 de janeiro de 2015]. Ele começou explicando o porquê foi escolhido presidente da comissão, falando sobre representatividade de partidos e articulações no Congresso Nacional. Sem entender muito bem, Luciana Gimenez pediu para que ele falasse de forma mais simples “para o povão não ficar confuso”.

Um dos pontos que merece destaque é que, enquanto performer (independentemente de ser natural ou personagem), a apresentadora não consegue ficar neutra ou simplesmente aceitar as opiniões radicais contra a homossexualidade, disparadas por Feliciano ou por quem for. Em diversas ocasiões ela o interrompeu, apontou contradições e, visivelmente incomodada, saiu em defesa dos homossexuais, mesmo com uma capacidade de argumentação um tanto quanto escassa. “Mas existem animais gays”, disse ela, quando Feliciano afirmou que a homossexualidade era um desvio humano. Enquanto ele tentava responder, Luciana continuava a falar “existem, existem sim”. “Eu nunca vi”, disse o pastor-deputado. “Como não? Já vi um monte de cachorro gay, eles atacam até o sofá”, contrapõe a apresentadora. Ela também tentou desmitificar os argumentos de Feliciano de que traumas, abusos ou o convívio em um ambiente familiar não tradicional pode induzir alguém a ser gay. “Se fosse por isso, o Lucas [Jagger, primeiro filho de Gimenez] já estaria usando saia, minha casa vive lotada de gays”, alegou.

Os dados apresentados por Feliciano de que a maioria dos contaminados pela Aids seria homossexual, e por isso ele era contra a doação de sangue por esse grupo, também foram questionados por Gimenez. Ela chegou a forçar a memória (o que é comum) para lembrar o nome da Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, órgão que divulgou que as mulheres, principalmente as casadas, são as que mais têm contraído a doença. A mesma postura crítica foi apresentada por Gimenez ao entrevistar outras celebridades conhecidas por lutarem contra as bandeiras defendidas pelos homossexuais, como o pastor Silas Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus, e o deputado Jair Bolsonaro.

A parcialidade (no bom sentido) de Gimenez em favor dos homossexuais no SuperPop é alvo de crítica de linhas mais conservadoras da ala evangélica, que a acusam de ser tendenciosa e até de fazer “ativismo gay”. O fato é que Luciana Gimenez não apresenta uma bancada de telejornal e, por isso, não tem qualquer obrigação de ser neutra e imparcial. Como apresentadora formadora de opinião e figura pública que tem espaço e voz na mídia, é importante que ela defenda abertamente os direitos de minorias como a dos homossexuais, ainda que de forma destrambelhada.

Considerações finais

É inegável que todos os tópicos colocados em análise deixam claro que os debates e a forma como os assuntos são pautados no SuperPop, não só os relacionados à homossexualidade, têm “a profundidade de uma poça d’água”, como já brincou o colunista Cleyton Santos, do site Quem Te Viu Quem TV [Quem Te Viu Quem TV. Três motivos].

Ao mesmo tempo, seria ingenuidade esperar que um programa exibido no horário “quente” da noite e voltado ao entretenimento tratasse qualquer assunto de forma sóbria, formal e puramente informativa. Se o SuperPop, ao abordar o tema LGBT, se limitasse a convidar líderes religiosos ponderados e anônimos, estudiosos do assunto (psicólogos, pesquisadores, geneticistas) e militantes da causa (famosos ou não), é muito provável que a audiência não chegaria perto do que chega. É uma questão de mercado.

Em meio a uma televisão aberta que sempre tratou e continua a tratar com muito tabu – e preconceito velado, vamos admitir – a homossexualidade, bissexualidade e transexualidade, o SuperPop tem seus méritos por ousar e dar espaço para que esse público se manifeste. O programa não teve medo de desagradar a “família tradicional” nem as “pessoas de bem”. A apresentadora é duramente criticada desde que assumiu o posto e, mesmo assim, nunca tentou ficar em cima do muro no que tange à causa LGBT para possivelmente conquistar um perfil mais conservador de público. Sempre deixou claro que ama os gays, que se dá melhor com os gays do que com as mulheres e colocou mais homossexuais na tela da TV em uma semana do que a Rede Globo em 60 anos de existência.

No programa, mesmo em meio a barracos e performances que visavam chamar a atenção e subir no ibope, os homossexuais, travestis e transgêneros tiveram espaço para contarem seus dramas, expor à sociedade a discriminação e violência contra gays como ela é, opinarem sobre mil e um assuntos, mostrarem que se amam como são e que querem apenas serem respeitados e felizes.

Não se pode deixar de criticar os exageros do SuperPop, que não são poucos. É sabido que as emissoras que não estão no patamar da Rede Globo precisam chamar a atenção com as ferramentas que possuem para conquistar seus pontinhos no Ibope. Essa pretensão acaba por levar a estes excessos mostrados no artigo. No caso do SuperPop, o exagero não é um complemento, mas sua marca registrada. O diferencial do programa é justamente a forma livremente absurda e escrachada com que é conduzido. Sem o absurdo, não há SuperPop. Nesse ponto, Maurício Stycer (2012) faz uma crítica/elogio brilhante, ao admitir que “não é fácil fazer um programa ruim tão bom quanto o SuperPop”:

Superpop é campeão dos debates sem pé nem cabeça. O programa tem o dom de convidar as pessoas mais sem noção para dar opinião. Não tem a menor vergonha de explorar assuntos que dizem respeito a emissoras concorrentes. E tenta sempre inventar polêmicas insustentáveis, quando não de outro mundo.”

No entanto, o SuperPop, ao mesmo tempo em que estereotipou em muitas ocasiões, porque é escravo da audiência, também levou a diferença de gênero para dentro das casas brasileiras, humanizando quem ainda é tratado como não humano. Revelou o que diferencia um transexual de um travesti. Deu esperança e mostrou que há espaço para inserir pessoas de qualquer sexualidade na TV ou em outros ramos do mercado. Tirou dúvidas e gerou muitas outras. E, principalmente, se dispôs a debater o assunto, estimulando a reflexão por parte dos telespectadores.

A própria Bíblia, largamente utilizada para condenar a homossexualidade, traz uma importante lição sobre isso: “Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem, e vê” (João 1:46). O preconceito de Natanael contra o povo de Nazaré tinha como pilar o desconhecimento. Da mesma forma, o desconhecimento também é um dos principais fatores que estimulam o preconceito contra os homossexuais. Tememos, evitamos e ridicularizamos aquilo que é diferente. Daí se mostra a importância de inserir a figura do homossexual na cultura televisiva, humaniza-lo, mostrar seus anseios, medos, desejos e sonhos, para pouco a pouco, mostrar a sociedade que não se pode mais ignorá-lo e jogá-lo à margem. Que aceitar e respeitar não dói, e todos saem ganhando.

***

Lucas Rodrigues é graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso e pós-graduando em Ciências Políticas pelo Instituto Cuiabano de Educação

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