Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Por que não contribuir para a melhoria da educação?

Por Silvana Costa Moreira em 07/07/2009 na edição 545

O fim da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista não é condição peremptória para a liberdade de expressão, como defendem os que são favoráveis à decisão do Supremo Tribunal Federal. A liberdade de expressão não está comprometida pelo diploma. Aos que usam do conclamado alvedrio para afirmar que diploma de jornalismo é desnecessário, faço minhas as palavras do jornalista Muniz Sodré: ‘Não tem formação específica para compreender a complexidade teórica do que é hoje informação/comunicação.’

O diploma, ou canudo, como alguns preferem chamar ironicamente, e outros por redução, não é sinônimo de ética, caráter ou preparo. Comparo o jornalismo à pedagogia. Qual o papel de cada um? Quais funções estão cumprindo? Qual a situação das escolas atualmente? E digo atualmente referindo-me há algumas décadas. Como se sente o professor diante de uma instituição falida com alunos que nada querem aprender ou se satisfazem com aquilo que lhes é oferecido? Será que qualquer um pode ir para uma sala de aula? Qualquer um por vocação ou dom de ensinar tem esse preparo? Por que a educação é tão secundária nos governos? Por que o jornalismo foi o alvo? Será mesmo uma luta para que todos possam se expressar livremente? Será mesmo a inconstitucionalidade? Será que é inconstitucional?

A decisão do STF partiu de uma ação protocolada pelo Ministério Público Federal e o Sindicato das Empresas de Rádio de Televisão do Estado de São Paulo. Será que a natureza da pugna esclarece quais interesses estão em jogo? Por que a grande mídia silenciou o caso ou manifestou apenas os que são contra o diploma obrigatório?

Uma corrida desenfreada pelo furo

A não obrigatoriedade do diploma servirá para apadrinhamentos políticos e interesses outros que não o do real compromisso com a função social do jornalismo. Equivocado os argumentos da chamada Suprema Corte. Tanto que, de acordo com o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, o STF pode rever a decisão da não obrigatoriedade do diploma para prática jornalística através de uma ação embasada em novos fundamentos ou por embargo de declaração. ‘No caso, o embargo de declaração estaria relacionado aos pontos omissos, porque não foi observado que os colaboradores já têm espaço previsto para a manifestação de pensamento. Ao analisar esse ponto omisso, o resultado do julgamento poderia ter sido outro’, disse o presidente nacional da OAB.

Como se não bastasse a decisão do STF, a própria imprensa está se encarregando de acabar consigo mesma. Os critérios de noticiabilidade se confundem com sensacionalismo, espetacularização dos acontecimentos e faturamento que possam trazer a determinados setores da mídia. As novas tecnologias de informação e comunicação, principalmente a internet, incitaram ainda mais o deadline (data limite do fechamento de uma edição) no jornalismo. A televisão, o impresso e o rádio passaram a analisar e investigar menos os acontecimentos. A captação da realidade com maior aprofundamento e a narrativa diversificada estão comprometidas no jornalismo diário devido à concorrência, falta de tempo e espaço nas publicações/veiculações e indolência dos jornalistas.

Segundo Traquina, as notícias não podem ser vistas simplesmente como algo que surge de forma espontânea dos acontecimentos do mundo real, mas na incidência de acontecimentos e textos. Opta-se por um jornalismo repetitivo e enfadonho, uma corrida desenfreada pelo furo jornalístico, pelos níveis de audiência ou de vendas de exemplares e uma cobrança e pressa que o ser humano não dá conta.

‘Jornais terão que reaprender jornalismo’

Avançam para produções e investimentos em tecnologia cada vez maiores, com as mais diversas intenções, desde a busca da imortalidade através das máquinas, até a criação da inteligência artificial na área da robótica. Chegou-se ao ponto da criação de Evas Byte, um misto de entertainer/apresentadora/’jornalista’, uma mera executora de tarefas incapaz de questiona-las. A ‘forminha’ é o protótipo almejado por aqueles que fazem jogo de interesses quando seus interesses estão em jogo.

A ‘revolução verde’, que está ocorrendo no Irã devido à mobilização das bases de Mir-Hossein Mousavi contra o resultado da eleição – fraudulenta, segundo eles – que deu a vitória a Mahmoud Ahmadinejad, utilizou as mídias digitais para articulação do movimento e disseminação de informações. Primeiro, os manifestantes enviaram informações e mensagens por telefone. O regime iraniano cogitou a possibilidade de bloqueio dos aparelhos. Outra alternativa foram os sites tradicionais de redes sociais – YouTube, Facebook, Flicker e Twitter –, amplamente utilizados e mantidos em uma lógica de bloqueio-desbloqueio, hackers iranianos versus autoridades. A internet noticiou o Irã para o mundo.

Em terras brasileiras, o blog da Petrobras, intitulado Fatos e Dados, foi criado em junho deste ano com o objetivo de ‘apresentar fatos e dados recentes da companhia e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)’. O blog tem em média seis mil acessos diários. A companhia constatou que o meio mais eficaz para atrair visitantes são os links nos sites de busca.

De acordo com o jornalista Luis Nassif, com a ‘nova modalidade, os jornais terão que reaprender a fazer jornalismo, sob pena de terem suas matérias permanentemente questionadas por um circuito cada vez mais amplo de blogs e sites’.

Solução é acabar com o ensino?

Casos como esses demonstram que a informação não possui limites na internet e, consequentemente, (re)afirmam o poder dessa mídia. O pensador francês Pierre Lévy vê a internet como um espaço de pensamento e comunicação em que não existe censura. ‘Quem participa do movimento cibercultura vive num universo cada vez mais democrático. Os que não participam estão obviamente excluídos. Isso é muito inquietante.’

Freire afirma que a educação é ‘uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/o aprendidos implica tanto esforço de reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento’.

A universidade é um espaço para troca de conhecimento acadêmico e informal. Diploma não é apenas o canudo. Este é ícone e não índice, de acordo com as definições semióticas de Peirce. Devemos lutar pela qualificação, não só dos cursos de jornalismo, mas da educação em todas as instâncias e da ética no exercício de qualquer que seja a profissão, de jornalistas a cozinheiros.

Há muita coisa que precisamos repensar no jornalismo. A qualidade do curso é uma delas. Por que os excelentíssimos ministros não fazem uso das competências que lhes são cabíveis para contribuir com a melhoria da educação brasileira? Ou a solução é acabar com o ensino? Afinal, seria mais fácil, menos dispendioso e mais interessante aos doutores da lei…

Vontade de mudar o mundo

O problema não é o diploma de jornalismo, é a educação. O problema não é a liberdade de expressão, é o amor próprio, o corporativismo e o empresariado.

Ouvi e li diversos artigos e comentários sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Professores, estudantes, sindicalistas, jornalistas, enfim, as mais diversas opiniões. Percebi – relacionado aos sentidos mesmo, porque para mim, jornalismo é enxergar, apalpar, compreender, provar e sentir – que muitos estudantes e profissionais da área não amam o jornalismo ou talvez o tenham feito porque não deram certo em outras áreas; outros tantos foram preconceituosos diante da comparação dos jornalistas com cozinheiros, feita pelo ministro Gilmar Mendes; e ainda há pessoas totalmente apáticas e desinformadas a respeito da ciência jornalística.

Aconselharam-me a fazer outro vestibular ou abandonar o curso porque estava muito preocupada com a decisão do STF. Eu não faço Jornalismo por causa de um diploma nem por falta de opção. Eu escolhi o jornalismo não como ofício, mas como uma forma de viver. Independente da decisão de um ministro (ou de oito…) isso não muda minha vontade. Aliás, só faz crescer o que motivou a minha escolha pelo jornalismo, utópica talvez: mudar o mundo – dignidade, justiça, ética, oportunidade e educação fazem parte das minhas ambições jornalísticas e pessoais. Ninguém que não esteja disposto a viver para o jornalismo (e não do jornalismo!) deve persistir numa profissão tão encantadora e incompreendida.

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Estudante, Juazeiro, BA

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