Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Precisamos definir esse termo

Por Alexander Goulart em 20/07/2004 na edição 286

Os cursos de Comunicação ainda não perceberam a importância do termo informação. As diferentes habilitações abordam as relações da informação com questões operacionais e marco teóricos disciplinares, mas não a estudam as Teorias da Informação com a profundidade que deveriam. Precisamos definir o termo, sua natureza e diferenças em relação à notícia, dado, conhecimento e mensagem.

Quando tratamos das definições, o termo informação começa a ficar confuso. Existem mais de 400 definições que nos trazem semelhanças e diferenças. Usamos um mesmo termo para falarmos de coisas iguais e opostas. Falamos em informação quando nos referimos a notícia, mensagem, dados, arquivos, informática etc. Zhang Yuexiao, em seu estudo Definitions and sciences of information, busca clarear a idéia de informação dividindo as tantas definições em diferentes partes. A confusão conceitual é grande. O autor demonstra que a informação está relacionada à documentação, arquivamento, mídia, jornalismo, museologia, ciência da computação e outras tantas áreas. Na tentativa de nos auxiliar a compreender o fenômeno, Yuexiao busca conceitos relacionados à atividade humana, de forma mais filosófica.

O autor nos diz que o conceito implica relações que vão do concreto ao abstrato, da física tradicional à quântica. Os processos são complexos e envolvem os sujeitos. Fala em informação na ciência, tendo o humano como interlocutor, interado à sociedade e em busca de conhecimento. Explora a informação de humano para humano. A informática, por exemplo, envolve o homem e a máquina. Yuexiao demonstra que a falta de conceitos e conhecimento sobre as definições cria distorções e gera o uso inadequado dos termos. Como fechamento de seu estudo, destaca a existência da Ciência da Informação – uma ciência interdisciplinar que reúne jornalismo, museologia, biblioteconomia, sociologia, economia e outras disciplinas das ciências sociais. Assim, resta-nos realmente definir o que é informação.

Três correntes

Há muitas definições de informação. Vamos partir do princípio de que a informação é a resposta a uma questão formulada, uma novidade verídica que reduz a incerteza e nos ajuda no processo decisório. Assim, ao nos levar a tomar uma decisão ou à ação, implica energia e redução da entropia. A informação é poder, pois é o dado tornado útil para o processo decisório. É a resposta ao que necessitamos.

Quanto a sua natureza, a informação implica: novidade – deve ser algo novo, que responda a uma necessidade; verdade – não existe informação falsa, mas desinformação; significado – uma informação sem sentido não quer dizer absolutamente nada ao receptor; redução da incerteza – por ser uma novidade, ajuda a tomar uma decisão e a resolver um problema; depende de cada receptor – em termos de decodificação e compreensão; contém energia – leva a uma ação de redução da entropia; resulta de processos mentais – é o dado tornado útil, compreendido e armazenado na memória.

Poderíamos dizer que a informação sedimentada na memória gera o conhecimento e o desenvolvimento humano, contribuindo para a organização social. Na tentativa de clarear e compreender o fenômeno, diversas ciências, autores e teorias têm tratado do assunto. Aqui, destacamos três correntes: Teoria Matemática, Teoria da Forma e Cognição.

Teoria Matemática

Também conhecida como Teoria da Informação, foi desenvolvida pelo engenheiro matemático Claude Shanon. Seu enfoque é técnico e quantitativo, buscando uma sistematização do processo da informação. Shanon definiu a informação como a redução da incerteza dentro de um sistema estatístico. A Teoria Matemática busca, por uma fórmula, calcular a quantidade de informação que pode ser transmitida num canal sem que haja ruído. A mensagem a ser constituída e transmitida contém dados. No processo de comunicação, através dos dados da mensagem, podemos chegar a uma informação.

Teoria da Forma

No sentido etimológico, informar é dar forma. A informação é uma forma que forma, pois organiza os dados e gera uma percepção/interpretação no receptor. A forma é o resultado dos dados. A Teoria da Forma – também conhecida como Gestalt – parte da percepção do todo, que é formado por partes que se relacionam e geram o todo. Informar, pois, é dar forma, é possibilitar uma percepção. É, ao mesmo tempo, uma forma e uma ação de dar forma. Os dados são a matéria e a informação a forma, ou seja.

Cognição

Ao dizemos que a informação é importante quando necessitamos tomar uma decisão, ligamos o termo à Teoria da Cognição, ou seja, a informação introjetada vira conhecimento, ligada à consciência.

As Ciências Cognitivas têm o objetivo de compreender a inteligência humana, descrever e explicar as disposições do espírito humano – linguagem, raciocínio, coordenação motora. Buscam compreender o tratamento da informação na mente humana, assim, referem-se ao processo em que as percepções e sensações são processadas, transformadas, armazenadas e postas em ação pelo sujeito.

O fenômeno cognitivo é a relação entre o estímulo e a reação. Tal fenômeno é descrito num nível físico ou representativo, uma vez que os sistemas físicos representam informações. As nossas capacidades intelectuais e perceptivas filtram e organizam as mensagens ou informações que recebemos do meio. Esse tratamento da informação é limitado pelas estruturações biológicas.

Equívoco geral

Se dissemos que a informação tem de ser verdadeira, logo, não existe informação falsa, mas desinformação. A partir dos estudos de Guy Durandin, em La Informacíon, la desinformacíon y la realidad, temos a desinformação entendida como mentira ou falácia. É a indução ao erro, um engano provocado. São mentiras organizadas e intencionais. Durandin aborda a questão ao se reportar para a segunda grande guerra e para o regime autoritário soviético, demonstrando que a desinformação foi uma importante arma de propaganda.

Ainda hoje o fenômeno está bastante presente. Não se trata mais de uma guerra bélica, mas da era do consumo e do tratamento da informação como mercadoria. No mundo capitalista, mais do que nunca, a informação é tão importante quanto o segredo, e a desinformação oriunda de uma fonte sem credibilidade pode representar o fracasso de um e o sucesso de outro. O acesso à informação foi facilitado, mas a chuva de desinformação veio em dobro.

No jornalismo, a informação é fundamental, mas confunde-se com o termo notícia. A confusão conceitual ou a mistura da linguagem científica com a popular geram semelhanças e diferenças que terminam por distorcer as definições dos termos.

Ao percorrermos os dicionários, perceberemos que o verbo informar é definido como sinônimo de noticiar, dar a conhecer ou tornar real. Por sua vez, o verbo noticiar é definido como informar e tornar conhecido. Logo, temos uma desinformação ao associarmos notícia como sinônimo de informação.

Semelhanças e diferenças

A Lei de Imprensa, de 1967, em seu Capítulo I, intitulado ‘Da Liberdade de manifestação do pensamento e da informação’, nos diz que é livre a manifestação do pensamento e a difusão de informações ou idéias por qualquer meio. Já o Artigo 12 fala em ‘meios de informação e divulgação’, identificando-os como jornais, publicações periódicas, serviços de radiodifusão e serviços noticiosos. Percebemos, na Lei de Imprensa, uma grande confusão conceitual no que se refere à informação, meios de informação e meios de divulgação.

A confusão entre notícia e informação é constante. O Manual de Redação Jovem Pan declara que o ouvinte da rádio é um indivíduo que exige informação a qualquer momento, entendendo informação como temperatura, trânsito, bolsa de valores etc. O manual define a notícia como sendo o relato de um fato jornalístico de interesse para a população e também define a nota como uma pequena notícia destinada à informação rápida. De modo mais abrangente, define jornalismo como processamento e transmissão das informações que a população precisa saber.

Entre semelhanças e diferenças, a notícia pode ser entendida como o resultado do processo produtivo de informações, tendo, inclusive, natureza semelhante à da informação, implicando veracidade, objetividade, honestidade, exatidão e credibilidade. Nesse sentido, o jornalismo seria a apuração, seleção e organização de informações transformadas em notícia num processo recheado de critérios e procedimentos-padrão. Assim, a notícia contém informação. Por outro lado, nem toda informação pode ser notícia. A notícia é pensada para um público que poderá utilizá-la para tomar decisões e se inserir na vida social.

Chave da sobrevivência

O rigor científico, especialmente o método, nos orienta por entre os diversos caminhos que podemos seguir na tentativa de compreendermos os fenômenos. A disciplina Teorias da Informação, ao nos provocar a busca pelo entendimento da informação, por indução e dedução, nos leva a questionar e a falsear conceitos, a fazer um exercício de lógica.

A informação leva à ação, ao conhecimento, logo, é fundamental nas mais diversas profissões. A comunicação social e as ciências da informação, por exemplo, têm aí sua matéria-prima, colocando a informação em lugar de destaque nas profissões que daí derivam, como o jornalismo.

Mais do que nunca, a informação é a chave para a sobrevivência em nossa sociedade informatizada. Compreender sua natureza e significado é o primeiro passo para podermos controlá-la e utilizá-la para o progresso social e individual.

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Jornalista, mestre em Comunicação Social pela PUC-RS

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