Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Qualidade da formação na modernidade líquida

Por Marcos Santuario em 02/11/2010 na edição 614

Pensar a formação do estudante universitário em Jornalismo Cultural é ter em conta mais do que a preparação de profissionais para um mercado que tende a crescer cada vez mais no mundo da comunicação e do consumo. Tal formação tende a processar-se hoje em um contexto no qual o mundo vive as contradições entre o regional e o nacional, e entre o local e o global. Uma dinâmica que traz consigo novos elementos de territorialidade, códigos e dinâmicas. Como bem aponta Bauman (2001), uma contemporaneidade na qual se deve considerar ‘fluidez’ e ‘liquidez’ como metáforas adequadas quando desejamos capturar a natureza do presente, novo de diversas maneiras, na história da humanidade. Às exigências de conhecimento e técnica somam-se a capacidade crítica e criativa daqueles que serão os produtores/pensadores ou pensadores/produtores do Jornalismo Cultural com formação acadêmica. Em mais de 20 anos de prática imersa no mundo do Jornalismo Cultural, tenho percebido as transformações no processo de aproximação, compreensão, difusão e apreensão dos produtos derivados desta prática especializada. E a questão repete-se, independentemente do suporte no qual esteja amparada. O jornalismo impresso, seja ele diário, semanal, quinzenal ou mensal, vive suas características próprias e, algumas delas, se repetem nos meios eletrônicos e nas revistas que trabalham com temas culturais. A base jornalística dada aos estudantes de graduação em Jornalismo, nas universidades brasileiras, nem sempre tem servido para construir o substrato necessário para sua imersão neste universo da cultura feita notícia. Parece, em verdade, não ter sido suficiente, na maioria dos casos. Faz-se necessário fomentar uma maior aproximação destes com os produtos culturais já existentes, prática que, aliada à teorização sistemática e crítica do Jornalismo Cultural, pode levar a uma construção mais sólida de conhecimentos, experiências e sensibilidades, capazes de formar um profissional mais preparado, ao lado do ser humano com uma visão mais ampla da sociedade.

Já que o jornalismo cultural é uma segmentação da mídia voltada para expressões artísticas como música, cinema, teatro, artes plásticas, histórias em quadrinhos, televisão e outras formas de entretenimento ligadas às artes, cabe ao universo acadêmico incentivar e por vezes proporcionar na prática uma aproximação real entre o jovem estudante e o universo atual das produções deste jornalismo. Entendendo, portanto, que o estudante, antes de tornar-se um especialista no assunto, deve ser um consumidor de tais produtos, entendendo suas lógicas e conhecendo suas origens. É necessário entender que o jornalismo cultural surgiu com uma tendência contemporânea dos jornais impressos de criarem segmentações com cadernos específicos devido à necessidade de agradar mais aos leitores prestando um serviço personalizado. Daí se deu a divisão segmentada dos cadernos, como cultura, turismo, classificados, entre outros. E é por esta trajetória teórico-prática, que o estudante deve ser conduzido para entender a necessidade e as exigências dentro do jornalismo especializado em suas versões mais contemporâneas.

Mas, não basta ter talento para consumir tais produtos e, a partir disso, desejar entender suas lógicas. É necessário reconhecer os contextos nos quais se processam e se estabelecem as produções e as trocas culturais da sociedade. No contexto atual, por exemplo, o crescente processo de globalização das economias mundiais e a emergência do uso das novas tecnologias da comunicação têm se constituído em elementos propulsores de importantes transformações nos processos das empresas de comunicação, de suas produções e, inclusive, no campo da produção jornalística cultural O contexto das transformações atuais que vêm ocorrendo nas relações mundiais em geral tem sido observado em profundidade, entre outros, pelo sociólogo espanhol Manuel Castells. Para ele, o quadro de complexidade da nova economia, sociedade e cultura em formação, e o processo de comunicação em particular, tratado também no aspecto da revolução da tecnologia da informação, revolução esta cuja penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana, é cada vez maior. Este é um dos olhares que devem ser trabalhados com os estudantes para tratar de entender as questões mais atuais no campo da comunicação e seu reflexo no Jornalismo Cultural.

A questão ganha um olhar ainda mais amplo nos estudo de Zygmunt Bauman sobre as conseqüências humanas do processo que ele define como pertencente a um contexto em que as coisas estão fugindo ao controle. Em sua visão, o significado mais profundo transmitido pela idéia da globalização é o do caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais; ‘a ausência de um centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete administrativo’. Com esta perspectiva, começa-se a construir uma discussão que interfere, diretamente na apreciação inicial e na produção final de tudo o que possa ser trabalhado no âmbito do Jornalismo Cultural. E, quando se trata do campo das linguagens, também vale lembrar, com Muniz Sodré, que, a exemplo de outros fenômenos sociais de largo alcance, a ‘globalização’ gera linguagem própria ou, pelo menos, uma prática discursiva pela qual se montam e se difundem as significações necessárias à aceitação generalizada de tal fenômeno. Discuta-se, de forma ampla e exaustiva, conceitos como este, no qual o sentido de uma palavra como ‘globalização’, ou o comportamento de um ator social em face desse sentido, podem variar de um indivíduo para outro, de uma região do mundo para outra, ou mesmo de um curto período de tempo para outro.

Regionalização da comunicação

Em meio ao cenário de novos atores e transformações na área da comunicação, uma das perguntas que tem rondado o universo dos questionamentos contemporâneos tem sido a de qual é o papel do local/regional, diante do processo de globalização em curso? Como já foi citado anteriormente, ao permanecer unicamente como espaços de reprodução do que se gera no global, está se afastando a possibilidade de tornar-se lugar de inovação e de transformação. E o campo do Jornalismo Cultural também se vincula a esta realidade. Quando se trata de buscar uma reposta, distinguem-se dois principais grupos de opiniões com relação ao tema, e é importante entender estes elementos culturais, políticos e sociais que influenciam o surgimento e a ascensão da regionalização da comunicação. E neste grupo de opiniões variadas reconhece-se que estes pontos de vista representam extremos de um conjunto mais diverso de percepções, já trazidas por Bauman (2003) e apontadas também por Albagli (apud CASSIOLATO e LASTRES, 1999, p. 75):

Para alguns, a globalização representa o fim da geografia, ou a anulação do espaço, expressa pela ‘desterritorialização’ das atividades humanas, bem como a ‘despersonalização’ do lugar enquanto singularidade. Já outros visualizam uma reafirmação da dimensão espacial, bem como uma revalorização ou uma ‘reinvenção’ do local, à medida que se acentua a importância conferida à diferenciação concreta entre os lugares. Um terceiro ponto de vista, contemplando aspectos de ambas as visões, identifica a permanência de ‘alteridade’ em nível do local, embora sob a influência da força universalizante da circulação do capital.

Sobre essa nova realidade, as opiniões dividem-se. Para alguns pensadores, o local/regional vem tornando-se ‘fantasmagórico’, desprovido de um significado próprio e fortemente condicionado por influências externas. Entretanto, para outros, o local/regional constitui suporte e condição para relações globais: é nele que a globalização se expressa concretamente e assume especificidades.

‘Região’ pode ser tomado como um conceito de escala flexível. No âmbito global, por exemplo, toda a América Latina ou toda a América do Sul é vista como uma região. No âmbito continental, as áreas geográficas pertencentes aos diversos países como a região Andina ou a Amazônica também são bastante reconhecidas. Da mesma forma, no âmbito nacional, o conceito poderia ser e é aplicado a escalas geográficas variadas. No Brasil, por exemplo, temos cinco macrorregiões e 28 estados. Cada Estado, por sua vez, é dividido em mesorregiões, microrregiões e em municípios. A natureza e a forma política de cada tipo regional certamente dependerão do contexto específico no qual o temo é adotado. Mas, não importa como o termo ‘região’ seja definido, importa reconhecer que nenhuma região no mundo moderno pode existir como uma ilha isolada e que elas podem vir a ser constantemente ‘impactadas’ por forças políticas e econômicas nacionais e internacionais. Segundo Saha (apud LIMA, 2008, p. 310), nas últimas décadas, dois acontecimentos globais mudaram radicalmente o contexto macroeconômico de desenvolvimento local e regional: ‘um é a globalização crescente das economias nacionais; outro e o crescimento da confiança em direção à democratização das sociedades civis’.

O impacto da globalização sobre as culturas locais/regionais tem sido visto sob diversos ângulos. Cultura local é aqui entendida, com Featherstone (1993), como a cultura particular de um grupo que, a partir de relações cotidianas em espaços geográficos relativamente pequenos e delimitados, estabelece códigos comuns e sistemas próprios de representação. Para ele, as noções de cultura global e cultura local são necessariamente relacionais. Dessa ótica, as redes de comunicação, atuando como cadeias de fluxos contínuos de informação e de imagens, contribuem para descolar o indivíduo de seu ambiente imediato, vinculando-se a outros espaços de referência, que não mais o local enquanto continente de memória coletiva. O caráter crescentemente urbano da vida social acentua a tendência ao estabelecimento de padrões comuns entre as diferentes localidades.

Sob uma perspectiva distinta, acredita-se que a globalização não significa o fim de toda identidade territorial estável, mas que, ao contrário, cada sociedade ou grupo social é capaz de preservar e desenvolver seu próprio quadro de representações, expressando uma identidade ao mesmo tempo espacial e comunitária em torno da localidade. A dimensão cultural atua aqui justamente como ‘um fio invisível que vincula os indivíduos ao espaço’ marcando uma certa idéia de diferença ou de distinção entre comunidades (SÉNÉCAL, 1992, p. 95). Seria, portanto, um dos elementos importantes para a compreensão dos processos de fortalecimento da regionalização da comunicação.

Maffesoli (1984, p. 54) chama a atenção para o fato de que esse poder de diferenciação e conservação do local se expressa mesmo nas grandes cidades cosmopolitas, como Paris, Nova Iorque e Londres, onde é marcante a presença de ‘uma constelação de entidades regionais ou étnicas’ que perpetuam cotidianamente práticas e costumes característicos e tradicionais, resistentes ao processo de unificação e de padronização promovido pela mundialização de uma civilização dominante. Segundo o autor, a resistência tradicional que engendra a solidariedade deve-se, sobretudo, à pregnância de uma memória espacial. ‘E é neste sentido que podemos falar de encarnação da socialidade, que necessita de um solo para se enraizar’. Aqui se percebe o fortalecimento da idéia de um espaço de convivência, visível geograficamente e que aponta para uma convivência próxima, física e emocionalmente, entre seus integrantes, que se reconhecem como pertencentes àquele entorno geográfico, social e cultural.

O tema da regionalização, em especial, segundo Bolaño (1999) ganha nova relevância num momento em que o desenvolvimento das tecnologias da informação e da Comunicação (TICs) cria uma verdadeira comunidade global, mantendo, ao mesmo tempo, à margem, a imensa maioria da população mundial presa a um horizonte de vida e a valores próprios das culturas regionais, podendo-se observar até um avanço de diferentes formas de xenofobia e de intransigência étnica. ‘Inclusive, o local e o regional aparecem como fontes de resistência dos indivíduos à desterritorialização selvagem imposta pelo sistema no seu atual processo de reestruturação’ (BOLAÑO, 1999, p. 8).

A relação entre o global e o local/regional está também explicitada criticamente no pensamento de Miége (apud BOLAÑO, 1999, p. 14): para quem (…) no setor das comunicações, se o global se encontra mais ou menos no local, o local não se reduz ao global; por mais pregnantes que sejam as ‘influências’ do global, elas estão longe de imprimir uma marca uniforme e uma origem inequívoca.

Segundo Held (1995), três elementos da regionalização e da globalização precisam ser reconhecidos: primeiro, o modo pelo qual os processos de interdependência econômica, política, legal, militar e cultural estão mudando a natureza, o alcance e a capacidade do Estado moderno, e de como a sua capacidade ‘regulatória’ está sendo desafiada e reduzida em algumas esferas; segundo, o modo pelo qual a interdependência regional e global cria cadeias de decisões e atuações políticas inter-relacionadas entre os estados e seus cidadãos, alternando a natureza e dinâmica dos próprios sistemas políticos nacionais; e terceiro, o modo pelo qual as identidades culturais e políticas estão sendo redesenhadas e reavivadas por tais processos, levando muitos grupos, movimentos e nacionalismos, em âmbito nacional e regional, a questionar a representatividade e a confiabilidade do Estado-nação.

Pode-se ter também, como aponta Cunha (2008) [conceitos apresentados pela pesquisadora Isabel Ferin Cunha da Universidade de Coimbra/ Instituto de Estudos Jornalísticos, no Seminário ‘Teorias da Globalização, Mídia e Identidades’, em agosto de 2008, na PUCRS,com participação do pesquisador], a idéia de que o regionalismo é um espaço de cruzamento, no qual se encontram fluxos globais e vivenciais locais. Desta forma, concebe-se também como um espaço/processo em construção decorrente da divisão fractária do global. Desenha-se como tensão e aprofundamento da esfera pública onde cidadania e democracia adquirem novas configurações.

Em se tratando da relação entre os media e o regionalismo, os mercados locais/regionais têm se apresentado como ‘nichos de mercado’ culturais que permitem o crescimento de empresas e de conglomerados direcionados para as culturas regionais. ‘Os mercados regionais constituem uma oportunidade para as ‘culturas hegemônicas periféricas’ imaginarem, reconstruírem e fortalecerem um espaço público cultural regional’ (CUNHA, 2008) Tendo em conta este quadro, a criação de conteúdos regionais com impacto global constitui um desafio para as denominadas ‘culturas hegemónicas periféricas’.

Outro fenômeno que surge neste contexto é o que se poderia denominar como a globalização dos regionalismos. Cunha (2008) aponta para a existência de três padrões de regionalismo. Há os espaços fundados em continuidades físicas e substratos linguísticos, culturais e históricos partilhados (Ex: União Europeia; Mercosul, CPLP); há os associados a movimentos culturais e políticos e à coesão de comunidades dispersas (Ex: Comunidades digitais); e os enraizados em culturas que mantêm um espaço físico delimitado e padrões estáveis de interação (regionalismos geográficos/territoriais).

Também surgem como elementos para entender os processos do global e do regional o que alguns autores apontam o que se poderia caracterizar-se como ‘ansiedades do regionalismo globalizado’. Um deles é o conceito desenvolvido por Ulrich Beck (1992) que defende a existência na sociedade industrial da percepção de novos perigos. Está ainda o ‘pânico moral’, conceito desenvolvido por Stanley Cohen (1994) que atribui aos media a exploração de sentimentos de insegurança em face de acontecimentos tidos como sintomáticos de uma desordem social geral. E Appadurai (1994) desenvolveu conceito de nostalgia que atribui aos consumos mediáticos a criação, simultaneamente, de um sentimento de perda e de um desejo de perfeição.

Quanto às tendências do regionalismo globalizado, Cunha (2008) aponta a segregação cultural e social como possível emergente dentro dos processos de seleção e enclausuramento perante a alteridade, o outro e o diferente. Observa, ainda, a existência de racismos e xenofobias, constituídos como novas formas de exclusão, fundadas na cultura e na religião; e, ainda, a resiliência, tal comportamento de defesa, resistência e capacidade de resistir a adversidades.

Uma característica complementar é a necessidade de renovação constante dos produtos culturais. As indústrias culturais têm desenvolvido historicamente um conjunto de estratégias para tratar o problema da realização de valor que deriva da natureza de sua mercadoria. Estas estratégias determinam em grande parte a estrutura de cada indústria, que em muitos setores é altamente concentrada. Em outros tem demandado uma forte intervenção estatal para garantir a diversidade. Outra das estratégias das empresas, segundo Mastrini e Becerra (2006), tem sido não se limitar a economias de escala, e impulsionar economias de gama. [Economia de gama é uma tradução possível do termo inglês ‘economies of scope’. Outras possibilidades seriam economias de enfoque ou economias de alcance. O princípio que tenta descrever é a diversidade da economia.] Para alcançá-lo é necessário controlar um conjunto ou um grupo de produtos ou segmentos de mercado para ter maiores chances de alcançar o sucesso. Mas isso implica, também, maiores barreiras de entrada para potenciais novos competidores, porque se demandam fortes investimentos iniciais para entrar no mercado.

Jornalismo especializado

Ao transitar pelos contextos das transformações tecnológicas, sociológicas, econômicas e culturais, o estudante precisa ser detentor dos conceitos básicos, além do Jornalismo e de seus derivados mais imediatos, o de cultura, por exemplo. As conceitualizações devem aproximar o estudante da compreensão da diversidade, combatendo preconceitos que podem gerar distanciamentos de alguns produtos culturais que não façam parte do universo de aceitação do futuro profissional.

Santos (1994) entende que o estudo da cultura contribui no combate destes preconceitos, oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. Na verdade, se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos, nações, sociedades, nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. […] Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com diferentes classes e grupos que a constituem (Santos, 1994, 9).

Vale seguir com Santos (1994) a necessidade de uma discussão sobre cultura, que pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. Segundo ele, cada cultura é o resultado de uma história particular, e isso inclui também suas relações com outras culturas, as quais podem tem características bem diferentes (SANTOS, 1994, p.12). De acordo com o autor, duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. Segundo ele, no primeiro caso, pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério:

Por exemplo, usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. Ou então, se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas, como por exemplo as tecnologias de metais, poderemos pensar que uma é mais desenvolvida que a outra. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas, nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. Argumenta-se aqui que cada cultura te seus próprios critérios de avaliação e que para uma hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. (SANTOS, 1994, p.12-13).

Compreendendo estas questões e outras que estejam a elas vinculadas, o estudante pode entender que ‘a idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é, pois, ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais’ (Santos: 1994, p.15). É importante confirmar-se como conceito real que a diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana, expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. (SANTOS, 1994, p. 15). Necessário compreender, como aponta Santos (1994), que ‘há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular’. Para Santos (1994, p.18) a sociedade nacional tem classes e grupos sociais, tem regiões de características bem diferentes; a população difere ainda internamente segundo, por exemplo, suas faixas de idade, ou segundo seu grau de escolarização. ‘Além disso, a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. Tudo isso se reflete no plano cultural’.

Com esta aproximação teórica é possível para o estudante refletir sobre algumas questões relacionadas à paisagem social moderna. Entender, como afirmam alguns autores que tais meios de comunicação não só transmitem informações, não só apregoam mensagens. Eles também difundem maneiras de se comportar, propõem estilos de vida, modos de organizar a vida cotidiana, de arrumar a casa, de se vestir, maneiras de falar e de escrever, de sonhar, de sofrer, de pensar, de lutar, de amar.

Jornalismo cultural

Para Kellner (2001, p.11) a cultura, em seu sentido mais amplo, é uma forma de atividade que implica alto grau de participação, na qual as pessoas criam sociedades e identidades. Segundo o autor a cultura modela os indivíduos, evidenciando e cultivando suas potencialidades e capacidades de fala, ação e criatividade. Ele considera que ‘a cultura da mídia participa igualmente desses processos, mas também é algo novo na aventura humana’.

As pessoas passam um tempo enorme ouvindo rádio, assistindo à televisão, freqüentando cinemas, convivendo com música, fazendo compras, lendo revistas e jornais, participando dessas e de outras formas de cultura veiculada pelos meios de comunicação. Portanto, trata-se de uma cultura que passou a dominar a vida cotidiana, servindo de pano de fundo onipresente e muitas vezes de sedutor primeiro plano para o qual convergem nossa atenção e nossas atividades, algo que segundo alguns, está minando potencialidade e a criatividade humana (Kellner,2001,p.11).

Assim, segundo Kellner (2001, p. 11), a cultura da mídia e a de consumo atuam de mãos dadas no sentido de gerar pensamentos e comportamentos ajustados aos valores, às instituições, às crenças e às práticas vigentes. No entanto, conforme o autor, o público pode resistir aos significados e mensagens dominantes, criar sua própria leitura e seu próprio modo de apropriar-se da cultura da cultura de massa, usando a sua cultura como recurso para fortalecer-se e inventa significados, identidade e forma de vida próprios. ‘Além disso, a própria mídia dá recursos que os indivíduos podem acatar ou rejeitar na formação de sua identidade em oposição aos modelos dominantes’. E, acompanhando o pensamento de Kellner, chegamos a perceber que, com o advento da cultura da mídia os indivíduos são submetidos a um fluxo sem precedentes de imagens e sons dentro de sua própria casa, e ‘um novo mundo virtual de entretenimento, informação, sexo e política está reordenando percepções de espaço e tempo, anulando distinções entre realidade e imagem, enquanto produz novos modos de experiência e subjetividade’.

O jornalista que trabalha com esta editoria ganhará consistência se somar a análise e a compreensão teóricas a uma profunda experiência prática, além da formação acadêmica. Um jornalista recém-formado e que nunca tenha escrito sobre histórias em quadrinhos, provavelmente, não conseguirá escrever uma coluna sobre quadrinhos. O jornalismo cultural exige que o jornalista tenha noções básicas de história da arte, alterações nos conceitos artísticos ao longo da história, tendências culturais e relações entre filosofia, semiótica e teorias para contextualizar as pautas. Por outro lado, a internet quebrou estes parâmetros porque permite que qualquer pessoa sem formação divulgue seus trabalhos na rede. Assim, um jornalista que não é especializado em cultura, pode escrever sobre cultura e um especialista sem formação acadêmica, também pode escrever sobre cultura.

Outro desafio da atualidade é dar conteúdo e dinâmica ao webjornalismo cultural que, além de somar elementos de outros veículos, também forma uma linguagem híbrida unindo os três gêneros: informativo – opinativo – interpretativo. Somente o referencial teórico dos anos de estudo num curso de Comunicação Social não permite que o profissional se aventure por uma editoria especializada. Para escrever sobre quadrinhos, o jornalista precisa conhecer sobre o funcionamento do mercado editorial (especificamente de quadrinhos, já que este difere de outras publicações); tem que, obrigatoriamente, acompanhar a cronologia das histórias; saber diferenciar os gêneros de roteiro e arte e outras necessidades que levam muito mais tempo para assimilar que o de um curso superior. No jornalismo cultural, a crítica e divulgação de eventos e produtos culturais como discos, livros, filmes, quadros, shows, entre outros, é feita por jornalistas especializados. Na maioria dos casos, um jornalista especializado em cultura é alguém que coleciona quadrinhos desde a infância, toca em grupo musical, pinta quadros ou passou a maior parte de sua vida dentro de cinemas assistindo filmes e encontrou no jornalismo uma maneira de ampliar e divulgar seus conhecimentos.

O processo de especialização não pára neste ponto. De um provável hobby, passando pelo profissionalismo jornalístico, o agente cultural também pode chegar a um nível histórico já que é comum neste meio os jornalistas especializados em cultura escreverem livros. Esta relação de um jornalista criar outros produtos reforça uma tendência moderna da indústria cultural, onde a mídia tem um papel fundamental. As empresas não lançam mais produtos e sim marcas. Um filme, um livro ou uma banda pode se transformar em diversos produtos e criar uma rede milionária de merchandising. A sinergia entre os produtos é a fórmula de sucesso de suas empresas. Um bom exemplo dessa cadeia de consumo é a série televisiva ‘Arquivo X’, criada por Chris Carter e exibida pelo canal Fox nos Estados Unidos entre 1993 a 2002. Do sucesso na televisão, a série ganhou uma versão em histórias em quadrinhos, longa metragem para o cinema, um card game (jogo de estratégia com cartas), vários romances inspirados nos personagens e produtos como camisetas, canecas, chaveiros, bonecos, etc. Todos com espaço garantido no jornalismo cultural, pois servem como matéria-prima para a produção de textos, reportagens e entrevistas. Outro exemplo é a série ’24 Horas’. Outro sucesso com grande apelo, inclusive no mundo virtual. A saga de Jack Bauer deu novo ritmo às produções.

Segundo Lage (2006) desde os anos 80 tudo mudou na prática do jornalismo.

‘[…] Os computadores subverteram a rotina da profissão; a internet aproximou distâncias, atropelando fronteiras políticas e barreiras entre classes ou etnias; a digitalização reduziu custos a ponto de qualquer pequena cidade, associação de bairro, favela ou condomínio poderem ter seus próprios veículos, sua imagem exportada e suas idéias estendidas ao infinito’ (LAGE, 2006, p.5).

Contudo, o autor explica que projetistas gráficos, repórteres fotográficos e redatores não são artistas ou ‘intelectuais’: são trabalhadores de uma indústria de prestação de serviços que opera com bens simbólicos. ‘[…] A pesquisa de realidade que o jornalismo suscita e o desenvolvimento de suas técnicas terminaram, no entanto, influindo sobre a arte contemporânea, submetida,ela também,às leis do consumo rápido e da obsolescência’ ( LAGE, 2006, p. 9).

Não basta lastimar com Piza (2004, p.7), pensando que não há nada de nostalgia ou negativismo em observar que o jornalismo cultural brasileiro já não é como antes. O autor indica que as seções culturais dos grandes jornais continuam entre as páginas mais lidas e queridas. Junto a isto ele nota que o jornalismo cultural vem ganhando mais status entre os jovens que pretendem seguir a profissão. Vale refletir com Piza (2004) que os ‘segundos cadernos’ têm uma importância para a relação do jornal com o leitor – ou, mais ainda, do leitor com o jornal – que é muito maior do que se supõe. Além disso, há uma riqueza de temas e implicações no jornalismo cultural que também não combina com seu tratamento segmentado; afinal, a cultura está em tudo, é de sua essência misturar assuntos e atravessar linguagens (PIZA, 2004, p.7).

Para entender a análise de Piza (2004), e aproveitar sua provocação para crescer em sua formação, o estudante precisa observar que o jornalismo ‘necessita saber observar esse mercado sem preconceitos ideológicos, sem parcialidade política’. Salienta que, por outro lado, como a função jornalística é selecionar aquilo que reporta (editar, hierarquizar, comentar, analisar), influir sobre os critérios de escolha dos leitores, fornecer elementos e argumentos para sua opinião a imprensa cultural tem o dever do senso crítico, da avaliação de cada obra cultural e das tendências que o mercado valoriza por seus interesses, e o dever de olhar para as induções simbólicas e morais que o cidadão recebe (PIZA, 2004, p. 45).

Os desafios são muitos para que o estudante alcance uma formação de qualidade que o capacite para exercer as funções dentro do Jornalismo Cultural, atendendo às exigências inerentes ao processo de captação, seleção, construção narrativa, compreensão global e pontual, e expressão focada ou universalizada. Para isso acontecer, é necessário que nossas escolas de Comunicação reflitam sobre seu papel com responsabilidade e criatividade, encontrando soluções para suas falhas mais comuns, que não contribuem na formação de um novo Jornalista Cultural.

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Jornalista, professor e pesquisador na Universidade Feevale, coordenador da Pós Graduação em Jornalismo e Convergência de Mídias, mestre e doutor em Comunicação pela PUCRS

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