Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > XIII EXPOCOM

Qualidade de produções laboratoriais em xeque

Por Pery Negreiros em 25/09/2007 na edição 452

Terminada a apresentação da qual fiquei encarregado – do jornal laboratorial Classificado Dá Notícia – na XIII Expocom (Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação), realizada durante o 30º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Santos (SP), de 29/8 a 2/9, subitamente me veio à mente, após o alívio de ter descarregado toda a adrenalina deflagrada no evento, um novo questionamento acerca da produção de trabalhos de extensão e pesquisa para estudantes de Jornalismo. Baseia-se na seguinte pergunta: um jornal laboratorial poderia vir a ser condenado por possuir boa qualidade? Segundo a ótica de alguns acadêmicos e profissionais da área, a resposta mais adequada poderia ser sim.

Pois bem. Ao término da apresentação, abriu-se espaço para as questões da banca avaliadora, composta por três jornalistas, que, de pronto, elogiaram a publicação do jornal, fundamentado na proposta – por eles classificada como ‘muito inovadora’ – de se basear nos cadernos de anúncios classificados para obter pautas jornalísticas. A banca, após as considerações iniciais, buscou um posicionamento mais crítico acerca da questão pedagógica na produção do jornal.

Desconfianças descabíveis

Logo, o semestre ao qual a peça estava atrelada passou a ser motivo de discussão. Algo do tipo: ‘Como assim, estudantes de terceiro semestre? Seriam eles capazes de produzir algo tão elaborado, bem diagramado, enfim, bonito visualmente?’ As outras críticas que se seguiram a essa angulação, um tanto preconceituosa – e, diga-se, até excessivamente irônica em alguns instantes, pelo menos por parte de um dos componentes da banca – podem ser definidas como pertinentes, pois diziam respeito às fotos do jornal que, como bem lembraram os avaliadores, estavam escassas na publicação – sendo substituídas muitas vezes por foto-montagens nas matérias – e à periodicidade, que só contava com uma edição (piloto) datada de maio de 2006. Estas duas últimas críticas certamente teriam peso menor na avaliação se houvesse uma maior boa vontade para com o produto, uma vez que poderiam ser relevadas pela banca por se tratar apenas da primeira publicação de um jornal, ainda por cima laboratorial e, portanto, sujeito sempre a posteriores e elementares correções de percurso em seus processos.

Mas a questão crucial mesmo acabou sendo o ‘excesso’ de qualidade gráfica do produto. Não quero aqui qualificar o jornal Classificado Dá Notícia como o melhor projeto de todos os tempos, tampouco diminuir os concorrentes, que tiveram seus méritos em serem considerados vencedores. Mas o que me parece é que precisam ser mais bem definidos os critérios que regem a avaliação de peças em exposições como essa. Há uma forte impressão de que os critérios individuais de um acadêmico ou profissional da área que decide por este ou aquele produto podem ter uma influência bastante significativa no resultado final da premiação. Assim, podemos ficar reféns muitas vezes, por exemplo, da simpatia ou não-simpatia pessoal de um julgador para conosco, que apresentamos os trabalhos, fazendo uma análise bem simplista. Ou até estar sujeitos a desconfianças descabíveis por parte dessas pessoas.

Nada do outro mundo

O jornal estaria muito bom, mas não poderia ter sido feito por meros estudantes de terceiro semestre, pois eles não teriam condições técnicas para tanto. Pelo menos esta foi a percepção, não somente minha, mas de muitos dos presentes, a respeito da reação da banca julgadora. Ora, então, acatando uma sugestão bem humorada de um colega, na próxima Expocom poderíamos produzir duas peças; uma de boa qualidade, destinada a circular junto aos colegas de universidade, obtendo os elogios que tem conseguido junto ao público leitor, e outra, digamos, ‘fraquinha’, ou sofrível, que poderíamos trazer para satisfazer a expectativa de alguns jurados, que sempre aguardam produtos feitos e idealizados por ‘meros estudantes’ de graduação e se surpreendem quando algo parece ter sido feito por profissionais. E esta foi uma hipótese que ficou no ar durante a avaliação, ainda que meio subentendidamente.

Na cabeça de alguns dos experientes, e portanto escaldados, senhores que avaliam as peças, existe sempre a possibilidade de se deparar com produtos ‘caça-prêmios’, ou seja, que seriam concebidos apenas para obter visibilidade no meio acadêmico, ao preço de utilizar-se de meios escusos, como a utilização de um produtor gráfico profissional que daria uma singela ‘mãozinha’, um toque de sofisticação à peça. Esquecem-se eles – ou fingem não ver – que um estudante de graduação em Jornalismo não precisa ter necessariamente uma mente genial nos dias atuais para produzir algo belo visualmente com a ajuda dos recursos que os programas gráficos oferecem em abundância. E com a estrutura oferecida pelo Laboratório de Jornalismo da Unifor, o qual sempre realiza rigorosas seleções para estagiário da área de produção gráfica, não parece nada de outro mundo a produção de um jornal que impressione pela aparência (mas também com conteúdo, ressalte-se, referendado pelos próprios avaliadores).

Lembre-se ainda que os estudantes que atuam na produção visual das peças do Laboratório não precisam, ao que me consta, participar da disciplina no semestre em que seu respectivo jornal é produzido. Não há regra que defina isso. Assim, estando muitas vezes próximos da conclusão do curso, já podem possuir um conhecimento mais elevado das técnicas de diagramação e de produção gráfica vistas em disciplinas posteriores. E ainda não são, por conseguinte, profissionais da área. Ou será ainda que devem deixar o aprendizado para quando chegarem ao mercado?

Ousadia e questionamentos

Feitas as devidas observações, cabe ainda ressaltar que o jornal Classificado Dá Notícia, bem como outras muitas peças, não apenas da Universidade de Fortaleza, mas de outras instituições de todo o país presentes ao evento, cujos líderes de equipe reclamaram de uma falta de clareza nos critérios de avaliação da Expocom, devem continuar a dizer sim à qualidade dos produtos que expõem.

Bem sei que a realidade vivenciada pela maioria das instituições de ensino superior no Brasil (especialmente as públicas) não oferece aos estudantes a oportunidade de trabalhar com os recursos estruturais que uma universidade privada pode oferecer, mas isso é para outra discussão. O que deve servir de mensagem após o ocorrido, pelo menos para mim, insuficientemente conhecedor dos meandros da academia e ainda pouco arguto aspirante à carreira de jornalista, é que há, sim, a possibilidade de se produzir materiais que primem pela qualidade. Estariam sujeitos às falhas inerentes aos estudantes, que naturalmente devem ter permissão para errar dentro das academias com vistas ao aprendizado, mas a eles deve ser dada a certeza de que suas capacidades não serão postas em dúvida, caso façam algo diferente do elementar.

Não questiono a decisão dos jurados em si, pois considero-a idônea. Também não é determinante para nosso jornal a vitória em prêmios dessa natureza para que possamos continuar a produzi-lo – não é este nosso principal objetivo. Só gostaria de poder acreditar que peças que ousem inovar devam ser bem recebidas, de fato, pelos acadêmicos, pois é nas universidades que se encontra o espaço adequado para a ousadia e para questionamentos como os que ora faço.

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Estudante de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), CE

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